A Cidade de Deus - Livro II 16
Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo
Que, se os deuses realmente se importassem com a justiça, os romanos teriam recebido boas leis deles, em vez de tê-las tomado emprestadas de outras nações.
Além disso, se os romanos tivessem podido receber de seus deuses uma regra de vida, não teriam tomado dos atenienses, emprestadas, as leis de Sólon, como fizeram alguns anos depois de Roma haver sido fundada; e, ainda assim, não as guardaram tal como as receberam, mas empenharam-se em aperfeiçoá-las e emendá-las. Embora Licurgo fingisse estar autorizado por Apolo a dar leis aos lacedemônios, os sensatos romanos não quiseram acreditar nisso, nem se deixaram induzir a tomar de Esparta as suas leis emprestadas. Diz-se que Numa Pompílio, que sucedeu a Rômulo no reino, formulou algumas leis, as quais, contudo, não foram suficientes para a regulação dos assuntos civis.
Entre essas determinações havia muitas relativas às observâncias religiosas e, no entanto, não se relata que ele tenha recebido sequer estas dos deuses. Quanto, pois, aos males morais, males de vida e de conduta (males tão poderosos que, segundo os mais sábios entre os pagãos, por eles os Estados se arruínam enquanto suas cidades permanecem incólumes), os seus deuses não tomaram a menor providência para preservar os seus adoradores desses males, mas, ao contrário, esforçaram-se de modo particular por aumentá-los, como anteriormente procuramos demonstrar.