A Cidade de Deus - Livro II 13
Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo
Que os romanos deveriam ter compreendido que deuses que desejavam ser cultuados em espetáculos licenciosos eram indignos de honra divina
Mas Cipião, se estivesse vivo, talvez respondesse: "Como poderíamos impor uma pena àquilo que os próprios deuses consagraram? Pois os espetáculos teatrais, nos quais tais coisas são ditas, encenadas e executadas, foram introduzidos na sociedade romana pelos deuses, que ordenaram que fossem dedicados e exibidos em sua honra." Mas não era isto, então, a mais clara prova de que não eram deuses verdadeiros, nem em aspecto algum dignos de receber honras divinas da república? Suponhamos que tivessem exigido que, em sua honra, os cidadãos de Roma fossem expostos ao ridículo: todo romano teria se ressentido de tão odiosa proposta.
Como então, pergunto eu, podem ser considerados dignos de culto, quando propõem que seus próprios crimes sirvam de matéria para celebrar seus louvores? Não os desmascara este artifício, provando que são detestáveis demônios? Assim os romanos, embora fossem supersticiosos o bastante para servir como deuses àqueles que não faziam segredo do desejo de serem cultuados em peças licenciosas, tinham contudo suficiente apreço por sua dignidade e virtude hereditárias para se sentirem impelidos a recusar aos atores quaisquer recompensas como as que os gregos lhes concediam.
Sobre este ponto temos este testemunho de Cipião, registrado em Cícero: "Eles [os romanos] consideravam a comédia e todos os espetáculos teatrais como vergonhosos e, por isso, não só vedavam aos atores os cargos e as honras abertos aos cidadãos comuns, mas também decretavam que seus nomes fossem marcados pelo censor e riscados do rol de sua tribo." Excelente decreto, e mais um testemunho da sagacidade de Roma; mas eu desejaria que sua prudência tivesse sido mais completa e coerente.
Pois quando ouço que, se algum cidadão romano escolhia o palco como profissão, não só fechava para si toda carreira louvável, mas até se tornava um excluído de sua própria tribo, não posso deixar de exclamar: Este é o verdadeiro espírito romano, isto é digno de um Estado zeloso de sua reputação. Mas então alguém interrompe meu arrebatamento, indagando com que coerência se vedam aos atores todas as honras, enquanto as peças são contadas entre as honras devidas aos deuses?
Por longo tempo a virtude de Roma esteve incontaminada pelos espetáculos teatrais; e se eles tivessem sido adotados para gratificar o gosto dos cidadãos, teriam sido introduzidos de mãos dadas com o relaxamento dos costumes. Mas o fato é que foram os deuses que exigiram que fossem exibidos para gratificá-los. Com que justiça, então, é excomungado o ator pelo qual Deus é cultuado? Sob que pretexto podeis ao mesmo tempo adorar aquele que exige e marcar com infâmia aquele que encena estas peças? Esta, pois, é a controvérsia em que estão envolvidos gregos e romanos.
Os gregos pensam que honram justamente os atores, porque cultuam os deuses que exigem peças; os romanos, por outro lado, não permitem que um ator desonre com seu nome sua própria tribo plebeia, muito menos a ordem senatorial. E toda esta discussão pode ser resumida no seguinte silogismo. Os gregos nos dão a premissa maior: Se tais deuses devem ser cultuados, então certamente tais homens podem ser honrados. Os romanos acrescentam a menor: Mas tais homens de modo algum devem ser honrados. Os cristãos tiram a conclusão: Portanto, tais deuses de modo algum devem ser cultuados.