A Cidade de Deus - Livro II 1

Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo

Dos limites que se devem impor à necessidade de responder a um adversário

Se a débil mente do homem não presumisse resistir à clara evidência da verdade, mas submetesse a sua fraqueza às doutrinas salutares, como a um remédio que traz saúde, até obter de Deus, por sua e piedade, a graça necessária para curá-la, aqueles que têm ideias justas e as exprimem em linguagem apropriada não precisariam usar longo discurso para refutar os erros das vãs conjecturas.
Mas essa enfermidade da mente é hoje mais prevalente e nociva do que nunca, a tal ponto que, mesmo depois de a verdade ter sido demonstrada tão plenamente quanto um homem pode prová-la a outro homem, eles tomam por verdade as suas próprias fantasias desarrazoadas, seja por causa da sua grande cegueira, que os impede de ver o que lhes é claramente posto diante dos olhos, seja por causa da sua obstinação opinativa, que os impede de reconhecer a força daquilo que veem.
Surge, portanto, com frequência a necessidade de falar mais largamente sobre aqueles pontos que são claros, para que, por assim dizer, os apresentemos não somente à vista, mas até ao tato, de modo que sejam sentidos mesmo por aqueles que fecham os olhos contra eles. E, todavia, a que fim haveremos de levar as nossas discussões, ou que limites podem ser postos ao nosso discurso, se procedermos segundo o princípio de que devemos sempre responder àqueles que nos respondem?
Pois aqueles que ou são incapazes de compreender os nossos argumentos, ou estão de tal modo endurecidos pelo hábito da contradição que, embora os compreendam, não podem ceder a eles, respondem-nos e, como está escrito, "proferem coisas duras", e são incorrigivelmente vãos. Ora, se nos propuséssemos refutar as suas objeções tantas vezes quantas eles, com rosto descarado, escolhessem desprezar os nossos argumentos, e tantas vezes quantas pudessem por qualquer meio contradizer as nossas afirmações, vedes quão interminável, infrutífera e penosa tarefa estaríamos empreendendo.
E por isso não desejo que os meus escritos sejam julgados nem mesmo por ti, meu filho Marcelino, nem por nenhum daqueles outros a cujo serviço esta minha obra é posta livremente e em toda a caridade cristã, se ao menos tencionas exigir sempre uma resposta a cada objeção que ouves levantada contra o que nela lês; pois assim te tornarias semelhante àquelas mulheres tolas de quem o apóstolo diz que estão "sempre aprendendo, e nunca podendo chegar ao conhecimento da verdade".