A Cidade de Deus - Livro I 7

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

Que as crueldades ocorridas no saque de Roma estavam de acordo com o costume da guerra, ao passo que os atos de clemência resultaram da influência do nome de Cristo

Todo o saque, portanto, a que Roma esteve exposta na recente calamidade, toda a matança, pilhagem, incêndio e miséria, foi resultado do costume da guerra. Mas o que houve de inédito foi que bárbaros selvagens se mostrassem em tão branda aparência, a ponto de as maiores igrejas serem escolhidas e reservadas com o propósito de serem preenchidas pelo povo a quem se dava quartel, e de nelas ninguém ser morto, de nenhuma delas ninguém ser arrastado à força; que para dentro delas muitos foram conduzidos pelos inimigos comovidos, a fim de serem postos em liberdade, e que de dentro delas ninguém foi levado à escravidão por adversários impiedosos.
Quem não que isto deve ser atribuído ao nome de Cristo e ao espírito cristão é cego; quem isto e não tributa louvor é ingrato; quem impede outrem de louvá-lo é insensato. Longe esteja de todo homem prudente imputar essa clemência aos bárbaros. Suas mentes ferozes e sanguinárias foram intimidadas, refreadas e maravilhosamente moderadas por Aquele que, muito tempo antes, disse por meio de seu profeta: Visitarei com a vara a transgressão deles, e com açoites a sua iniquidade; contudo, não retirarei deles inteiramente a minha benignidade.