A Cidade de Deus - Livro I 8

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

Das vantagens e desvantagens que muitas vezes recaem indistintamente sobre os bons e os maus

Dirá alguém: Por que, então, esta compaixão divina se estendeu até mesmo aos ímpios e ingratos?
Ora, por nenhuma outra razão senão porque era a misericórdia daquele que diariamente "faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos". Pois, embora alguns destes homens, refletindo sobre isso, se arrependam de sua maldade e se corrijam, outros, como diz o apóstolo, "desprezando as riquezas de sua bondade, e tolerância, e longanimidade, segundo a sua dureza e o seu coração impenitente, entesouram contra si mesmos ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, o qual recompensará cada um segundo as suas obras": não obstante, a paciência de Deus ainda convida os maus ao arrependimento, assim como o açoite de Deus educa os bons para a paciência.
E assim, também, a misericórdia de Deus abraça os bons para os acolher, como a severidade de Deus detém os maus para os punir. À providência divina pareceu bom preparar, no mundo vindouro, para os justos os bens que os injustos não desfrutarão; e para os maus os males com que os bons não serão atormentados. Mas, quanto aos bens desta vida e aos seus males, Deus quis que fossem comuns a ambos; para que não cobiçássemos demasiadamente as coisas que os homens maus são vistos desfrutar igualmente, nem nos retraíssemos, com um temor indigno, dos males que mesmo os bons frequentemente padecem.
Há, ademais, uma diferença grandíssima no propósito a que servem tanto os acontecimentos que chamamos adversos quanto os que chamamos prósperos. Pois o homem bom nem se exalta com os bens do tempo, nem se deixa abater por seus males; mas o homem mau, porque é corrompido pela felicidade deste mundo, sente-se punido por sua infelicidade. Contudo, muitas vezes, mesmo na presente distribuição das coisas temporais, Deus manifesta claramente a sua própria intervenção.
Pois, se todo pecado fosse agora visitado com punição manifesta, nada pareceria reservado para o juízo final; por outro lado, se nenhum pecado recebesse agora uma punição claramente divina, concluir-se-ia que não providência divina alguma. E assim também quanto aos bens desta vida: se Deus não os concedesse, por uma liberalidade bem visível, a alguns daqueles que os pedem, diríamos que tais bens não estavam à sua disposição; e se os desse a todos os que os buscassem, suporíamos que tais fossem as únicas recompensas do seu serviço; e tal serviço nos tornaria não piedosos, mas antes gananciosos e cobiçosos.
Por isso, embora homens bons e maus sofram igualmente, não devemos supor que não haja diferença entre os próprios homens, porque não diferença naquilo que ambos sofrem. Pois, mesmo na semelhança dos sofrimentos, permanece uma dessemelhança nos que sofrem; e, ainda que expostos à mesma angústia, a virtude e o vício não são a mesma coisa.
Pois, assim como o mesmo fogo faz o ouro reluzir intensamente e a palha fumegar; e como, sob o mesmo mangual, a palha é triturada miúda, enquanto o grão é limpo; e como as borras não se misturam com o azeite, embora espremidas do lagar pela mesma pressão, assim a mesma violência da aflição prova, purga e aclara os bons, mas condena, arruína e extermina os maus. E é assim que, na mesma aflição, os maus detestam a Deus e blasfemam, enquanto os bons oram e louvam. Tão essencial é a diferença, não a respeito de que males são sofridos, mas de que espécie de homem os sofre.
Pois, agitados pelo mesmo movimento, a lama exala um fedor horrível, e o unguento emite uma fragrância suave.