A Cidade de Deus - Livro I 4
Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas
Do asilo de Juno em Troia, que não salvou ninguém dos gregos; e das igrejas dos apóstolos, que protegeram dos bárbaros todos os que a elas fugiram
A própria Troia, mãe do povo romano, não foi capaz, como já disse, de proteger seus próprios cidadãos, nos lugares sagrados de seus deuses, do fogo e da espada dos gregos, embora os gregos cultuassem os mesmos deuses. E não só isso, mas também
"Fênix e Ulisses, postados de guarda nos pátios vazios junto ao santuário de Juno, mantinham vigilância sobre o despojo; ali, arrebatado dos templos em chamas, jazia o poderoso tesouro de Ílion: altares ricos, taças de ouro maciço e vestes cativas, rudemente amontoadas num único monte confuso; enquanto meninos e matronas, transtornados de medo, permaneciam de pé, em longa fileira, ali perto."
Em outras palavras, o lugar consagrado a tão grande deusa foi escolhido não para que dele ninguém fosse levado cativo, mas para que nele todos os cativos ficassem encerrados. Compare agora este "asilo", o asilo não de um deus qualquer, não de um deus da tropa comum, mas da própria irmã e esposa de Júpiter, a rainha de todos os deuses, com as igrejas edificadas em memória dos apóstolos.
Naquele templo foram recolhidos os despojos resgatados dos templos em chamas e arrebatados dos deuses, não para que fossem restituídos aos vencidos, mas para serem repartidos entre os vencedores; ao passo que nestas igrejas se reconduzia, com a mais religiosa observância e respeito, tudo o que lhes pertencia, ainda quando encontrado em outro lugar. Lá a liberdade se perdia; aqui se preservava. Lá a servidão era rigorosa; aqui rigorosamente excluída. Naquele templo, homens eram arrastados para se tornarem propriedade de seus inimigos, que agora os dominavam; a estas igrejas, homens eram conduzidos por seus adversários compadecidos, para que ficassem em liberdade.
Em suma, os gentis gregos destinaram aquele templo de Juno aos fins de sua própria avareza e soberba; ao passo que estas igrejas de Cristo foram escolhidas até pelos bárbaros selvagens como o cenário próprio para a humildade e a misericórdia. Mas talvez, afinal, os gregos, naquela vitória sua, hajam poupado os templos dos deuses que cultuavam em comum com os troianos, e não tenham ousado passar a fio de espada ou fazer cativos os infelizes e vencidos troianos que para lá fugiram; e talvez Virgílio, à maneira dos poetas, tenha retratado o que de fato nunca aconteceu?
Mas não há dúvida de que ele retratou o costume habitual de um inimigo ao saquear uma cidade.