A Cidade de Deus - Livro I 3

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

Que os romanos não mostraram sua habitual sagacidade ao confiarem que seriam beneficiados pelos deuses que haviam sido incapazes de defender Troia

E estes seriam os deuses a cujo cuidado protetor os romanos se comprazeram em confiar a sua cidade! Ó engano por demais, por demais lamentável! E ficam irados conosco quando assim falamos de seus deuses, ainda que, longe de se irarem contra os seus próprios escritores, paguem dinheiro para aprender o que eles dizem; e, na verdade, os próprios mestres desses autores são tidos por dignos de um salário do erário público e de outras honras. Virgílio, que é lido pelos meninos, para que esse grande poeta, o mais famoso e aprovado de todos os poetas, impregne as suas mentes virgens e não seja por eles facilmente esquecido, segundo aquela sentença de Horácio:
"O barril novo conserva por muito tempo o seu primeiro aroma."
Pois bem, nesse Virgílio, digo eu, Juno é apresentada como hostil aos troianos e instigando contra eles Éolo, o rei dos ventos, com estas palavras:
"Uma raça que odeio agora sulca o mar, transportando Troia para a Itália, e os deuses pátrios vencidos..."
E deveriam homens prudentes ter confiado a defesa de Roma a esses deuses vencidos? Mas dir-se-á que isto foi apenas o dito de Juno que, como mulher irada, não sabia o que dizia. Que diz, então, o próprio Eneias, Eneias que tantas vezes é designado "piedoso"? Não diz ele:
"Eis Panto, escapado da morte pela fuga, sacerdote de Apolo na altura, que com mãos trêmulas leva os seus deuses vencidos e pede pronto abrigo?"
Não está claro que os deuses (que ele não hesita em chamar de "vencidos") foram antes confiados a Eneias do que ele a eles, quando se lhe diz:
"Os deuses dos seus santuários domésticos a tua pátria confia ao teu cuidado?"
Se, pois, Virgílio diz que os deuses eram tais como estes, e que foram vencidos, e que, uma vez vencidos, não puderam escapar senão sob a proteção de um homem, que loucura é supor que Roma fora sabiamente confiada a tais guardiães e que não poderia ter sido tomada se não os tivesse perdido! Na verdade, adorar deuses vencidos como protetores e campeões, que é isto senão adorar, não boas divindades, mas maus presságios?
Não seria mais sábio crer, não que Roma jamais teria caído em tão grande calamidade se eles primeiro não tivessem perecido, mas antes que eles teriam perecido muito tempo se Roma não os houvesse preservado enquanto pôde? Pois quem não vê, ao refletir nisso, que tola suposição é a de que eles não podiam ser vencidos sob defensores vencidos, e que pereceram porque haviam perdido os seus deuses guardiães, quando, na verdade, a única causa de perecerem foi terem escolhido para seus protetores deuses condenados a perecer?
Os poetas, portanto, quando compuseram e cantaram estas coisas acerca dos deuses vencidos, não tiveram a intenção de inventar falsidades, mas proferiram, como homens honestos, o que a verdade lhes arrancou. Isto, contudo, será cuidadosa e copiosamente discutido em outro lugar mais apropriado.
Entretanto, explicarei brevemente, e o melhor que puder, o que pretendia dizer acerca desses homens ingratos que blasfemamente imputam a Cristo as calamidades que merecidamente sofrem em consequência de seus próprios caminhos perversos, ao passo que aquilo que, por amor de Cristo, os poupou apesar de sua maldade nem sequer se dão ao trabalho de notar; e, em sua louca e blasfema insolência, usam contra o nome dele aqueles mesmos lábios com que falsamente reivindicaram esse mesmo nome para que suas vidas fossem poupadas.
Nos lugares consagrados a Cristo, onde por amor dele nenhum inimigo os feriria, refrearam as suas línguas para que estivessem seguros e protegidos; mas, mal saem desses santuários, desenfreiam essas línguas para lançar contra ele maldições cheias de ódio.