A Cidade de Deus - Livro I 20
Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas
Que os cristãos não têm nenhuma autoridade para cometer suicídio em quaisquer circunstâncias
Não é sem significado que em nenhuma passagem dos santos livros canônicos se pode encontrar preceito divino ou permissão para tirarmos a nossa própria vida, seja com o intuito de entrar na fruição da imortalidade, seja para evitar ou livrar-nos de qualquer coisa que seja.
Ao contrário, a lei, retamente interpretada, proíbe até mesmo o suicídio, quando diz: "Não matarás." Isto se prova de modo especial pela omissão das palavras "o teu próximo", que são acrescentadas quando se proíbe o falso testemunho: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo." E nem por isso deve alguém supor que não transgrediu este mandamento, se prestou falso testemunho apenas contra si mesmo.
Pois o amor ao nosso próximo regula-se pelo amor a nós mesmos, conforme está escrito: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Se, então, aquele que faz declarações falsas a respeito de si mesmo não é menos culpado de dar falso testemunho do que se as tivesse feito em prejuízo do seu próximo, ainda que no mandamento que proíbe o falso testemunho só se mencione o próximo, e pessoas que não se esforçam por entendê-lo possam supor que a um homem é permitido ser falsa testemunha em seu próprio dano, quanta maior razão temos nós para entender que um homem não pode matar a si mesmo, visto que no mandamento "Não matarás" não há limitação alguma acrescentada nem qualquer exceção feita em favor de quem quer que seja, e muito menos em favor daquele a quem o mandamento é imposto!
E assim alguns tentam estender este mandamento até mesmo às feras e ao gado, como se ele nos proibisse de tirar a vida de qualquer criatura. Mas, se fosse assim, por que não estendê-lo também às plantas e a tudo o que se enraíza na terra e dela se nutre? Pois, embora esta classe de criaturas não tenha sensação, diz-se contudo que também elas vivem e, por conseguinte, podem morrer; e portanto, se lhes for feita violência, podem ser mortas.
Assim também o apóstolo, ao falar das sementes de coisas tais como estas, diz: "O que tu semeias não é vivificado se não morrer"; e no Salmo se diz: "Destruiu as suas vinhas com a saraiva." Devemos, portanto, considerar uma transgressão deste mandamento "Não matarás" o colher uma flor? Havemos de favorecer assim, insensatamente, o tolo erro dos maniqueus?
Deixando de lado, então, esses delírios, se, quando dizemos "Não matarás", não entendemos isto das plantas, visto que não têm sensação, nem dos animais irracionais que voam, nadam, andam ou rastejam, visto que estão separados de nós por sua falta de razão e por isso, pela justa disposição do Criador, nos estão sujeitos para matarmos ou conservarmos vivos para os nossos próprios usos; se é assim, então resta que entendamos aquele mandamento simplesmente do homem. O mandamento é: "Não matarás o homem"; portanto, nem a outro nem a ti mesmo, pois aquele que se mata a si mesmo não mata outra coisa senão um homem.