A Cidade de Deus - Livro I 21
Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas
Dos casos em que se pode matar um homem sem incorrer na culpa de homicídio
Há, contudo, algumas exceções que a própria autoridade divina fez à sua lei de que os homens não devem ser mortos. Essas exceções são de dois tipos, justificando-se ou por uma lei geral, ou por uma comissão especial concedida por um tempo a algum indivíduo. E neste último caso, aquele a quem a autoridade é delegada, e que não passa de espada na mão de quem a empunha, não é ele próprio responsável pela morte que inflige.
E, por conseguinte, aqueles que fizeram guerra em obediência ao mandamento divino, ou que, em conformidade com as suas leis, representaram em suas pessoas a justiça pública ou a sabedoria do governo, e que nessa qualidade deram a morte a homens perversos, tais pessoas de modo algum violaram o mandamento: Não matarás. Abraão, com efeito, não só foi tido por inocente de crueldade, mas até foi louvado por sua piedade, porque estava pronto a imolar o seu filho em obediência a Deus, e não à sua própria paixão.
E com razão suficiente se levanta a questão de se devemos considerar que foi em cumprimento de um mandamento de Deus que Jefté matou a sua filha, porque ela veio ao seu encontro quando ele havia feito o voto de que sacrificaria a Deus o que primeiro lhe saísse ao encontro ao retornar vitorioso da batalha. Também Sansão, que abateu a casa sobre si mesmo e sobre os seus inimigos ao mesmo tempo, só se justifica por esta razão: que o Espírito que por ele operava prodígios lhe havia dado instruções secretas para fazê-lo.
À exceção, pois, destas duas classes de casos, que se justificam ou por uma lei justa de aplicação geral, ou por uma indicação especial do próprio Deus, fonte de toda a justiça, quem quer que mate um homem, seja a si mesmo, seja a outro, está implicado na culpa de homicídio.