A Cidade de Deus - Livro I 18

Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas

Da violência que pode ser feita ao corpo pela libido alheia, enquanto a alma permanece inviolada

Mas haverá receio de que mesmo a libido alheia possa contaminar a pessoa violada? Não a contaminará, se for alheia; e, se contamina, então não é alheia, mas é também partilhada pela pessoa contaminada. Ora, visto que a pureza é uma virtude da alma, e tem por virtude companheira a fortaleza, a qual prefere suportar todos os males a consentir no mal; e visto que ninguém, por mais magnânimo e puro que seja, dispõe sempre do próprio corpo, mas pode governar apenas o consentimento e a recusa de sua vontade, que homem são poderia supor que, se o seu corpo for tomado e usado pela força para satisfazer a libido de outrem, por isso perderia a sua pureza?
Pois, se a pureza pode ser destruída desse modo, então com certeza a pureza não é virtude da alma; nem pode ser contada entre aqueles bens pelos quais a vida se torna boa, mas entre os bens do corpo, na mesma categoria que a força, a beleza, a saúde e íntegra e, em suma, todos aqueles bens que podem ser diminuídos sem que de modo algum se diminua a bondade e a retidão de nossa vida. Mas, se a pureza não é melhor do que esses bens, por que se haveria de arriscar o corpo para que ela seja preservada? Se, por outro lado, ela pertence à alma, então nem mesmo quando o corpo é violado ela se perde.
Mais ainda: a virtude da santa continência, quando resiste à impureza da libido carnal, santifica até mesmo o corpo, e por isso, quando essa continência permanece invicta, conserva-se também a santidade do corpo, porque permanece a vontade de usá-lo santamente e, no que está no próprio corpo, permanece também o poder de assim usá-lo.
Pois a santidade do corpo não consiste na integridade de seus membros, nem em estarem isentos de todo contato; pois eles estão expostos a vários acidentes que os violentam e os ferem, e os cirurgiões que aplicam o remédio muitas vezes realizam operações que causam náusea a quem as observa. Suponha-se que uma parteira tenha (seja por malícia, seja por acidente, seja por falta de perícia) destruído a virgindade de alguma jovem, enquanto procurava verificá-la: suponho que ninguém seja tão tolo a ponto de crer que, por essa destruição da integridade de um órgão, a virgem tenha perdido coisa alguma, sequer de sua santidade corporal.
E assim, enquanto a alma conserva essa firmeza de propósito que santifica até mesmo o corpo, a violência feita pela libido alheia não produz impressão alguma sobre essa santidade corporal, a qual se preserva intacta pela própria continência persistente. Suponha-se que uma virgem viole o voto que jurou a Deus, e ao encontro de seu sedutor com a intenção de a ele se entregar: diremos nós que, ao ir, ela está ainda de posse da santidade corporal, quando perdeu e destruiu aquela santidade da alma que santifica o corpo? Longe de nós aplicar tão mal as palavras.
Tiremos antes esta conclusão: que, enquanto a santidade da alma permanece, mesmo quando o corpo é violado, a santidade do corpo não se perde; e que, de igual modo, a santidade do corpo se perde quando a santidade da alma é violada, ainda que o próprio corpo permaneça intacto. E por isso uma mulher que foi violada pelo pecado de outrem, e sem nenhum consentimento de sua parte, não tem motivo para dar a si mesma a morte; muito menos tem motivo para se suicidar a fim de evitar tal violação, pois nesse caso ela comete um homicídio certo para prevenir um crime que ainda é incerto, e que não é seu.