A Cidade de Deus - Livro I 17
Livro I: a queda de Roma e a acusação contra os cristãos, e os bárbaros que pouparam os refugiados nas igrejas
Do suicídio cometido por medo da punição ou da desonra
E, por conseguinte, ainda que algumas dessas virgens se tenham matado para evitar tal desonra, quem, possuindo algum sentimento humano, recusaria perdoá-las? E, quanto àquelas que não quiseram pôr fim à própria vida, para que não parecessem escapar ao crime alheio por meio de um pecado próprio, aquele que lhes imputa isto como grande perversidade não está ele mesmo isento da falta da insensatez.
Pois, se não é lícito tomar a lei em nossas próprias mãos e matar até mesmo um culpado cuja morte nenhuma sentença pública autorizou, então certamente aquele que se mata a si mesmo é um homicida, e tanto mais culpado da própria morte quanto mais inocente era daquela ofensa pela qual se condenou a morrer. Não execramos com justiça o ato de Judas? E não declara a própria verdade que, enforcando-se, ele antes agravou do que expiou a culpa daquela traição iniquíssima, visto que, desesperando da misericórdia de Deus em sua tristeza que gerou a morte, não deixou a si mesmo lugar algum para um arrependimento salutar?
Quanto mais não deve abster-se de pôr mãos violentas sobre si mesmo aquele que nada fez digno de tal castigo! Pois Judas, ao matar-se, matou um homem perverso; mas saiu desta vida réu não apenas da morte de Cristo, mas também da sua própria: porque, embora se tenha matado por causa de seu crime, o matar-se foi outro crime. Por que, então, deveria um homem que nenhum mal cometeu fazer mal a si mesmo, e, ao matar-se, matar o inocente para escapar ao ato culpado de outrem, e perpetrar sobre si mesmo um pecado próprio, a fim de que o pecado de outrem não seja perpetrado contra ele?