Capítulos

Um rei idoso discursando do alto de uma torre a uma multidão

Mosias

O discurso do rei Benjamim sobre o homem natural, o julgamento do profeta Abinadi diante do rei Noé, onde se cita Isaías 53 por inteiro, a conversão de Alma e a substituição da monarquia por um sistema de juízes

Sobre o livro

O Livro de Mosias tem 29 capítulos e ocupa a oitava posição no Livro de Mórmon, logo depois das Palavras de Mórmon. Dentro da narrativa, ele cobre cerca de quarenta anos da história nefita, situados por volta de 130 a 91 a.C., e é o ponto em que a obra deixa de ser uma sucessão de registros pessoais curtos e passa a ser história política e institucional contínua.

Três fios se cruzam no livro: o reinado do rei Benjamim e de seu filho Mosias na terra de Zaraenla; o registro retrospectivo do povo de Zeniff, que voltara à terra de Néfi e caíra sob o rei Noé e depois sob domínio lamanita; e a formação de uma comunidade religiosa em torno de Alma, o pai, seguida da conversão de Alma, o filho. O livro termina com a abolição da monarquia e a instituição do governo de juízes.

A estrutura não é linear. O texto se apresenta como uma compilação feita séculos depois pelo editor Mórmon, que interrompe a narrativa principal para inserir blocos inteiros de outro registro, o de Zeniff, nos capítulos 9 a 22, e depois retoma o fio anterior. Essa montagem em camadas, com narrador que anuncia o que está abreviando, é uma das marcas literárias mais discutidas da obra.

Autoria e data de composição

A leitura de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é que o livro reproduz registros nefitas antigos: discursos e crônicas escritos entre o século II e o século I a.C., compilados e abreviados por Mórmon no século IV d.C., e traduzidos por Joseph Smith em 1829 a partir de placas de metal. Nessa leitura, o texto tem autores múltiplos e uma história editorial interna, o que explicaria as diferenças de estilo entre discurso, epístola e crônica de guerra.

A leitura predominante fora da tradição SUD é que o Livro de Mórmon é uma composição do começo do século XIX, ditada por Joseph Smith e publicada em Palmyra, Nova York, em 1830. Nessa leitura, Mosias é um texto americano moderno em prosa deliberadamente arcaizante, calcada na King James Version, e seus temas responderiam a debates religiosos do seu tempo. Não há aqui posição intermediária amplamente aceita: as duas reconstruções são incompatíveis, e é assim que este índice as apresenta.

Um dado que os dois lados aceitam diz respeito à ordem de produção do texto. As 116 páginas iniciais do manuscrito, correspondentes ao livro de Leí, foram perdidas em 1828. Quando o trabalho foi retomado em 1829, ele recomeçou justamente em Mosias, e só depois os livros iniciais hoje impressos foram ditados. Essa hipótese, conhecida como prioridade de Mosias, é sustentada tanto por estudiosos SUD quanto por críticos, ainda que cada lado extraia dela conclusões diferentes.

O que o livro narra

Zaraenla e o reinado de Benjamim

  • Benjamim reúne o povo junto ao templo e ergue uma torre para falar(Mosias 2:7)
  • O discurso sobre servir ao próximo e ao rei celestial(Mosias 2:17)
  • O anúncio do Cristo que sofrerá em um tabernáculo de barro(Mosias 3:5)
  • A instrução sobre repartir os bens com os pobres(Mosias 4:26)
  • O povo assume o nome de Cristo e o convênio é registrado(Mosias 5:8)
  • Mosias, filho de Benjamim, começa a reinar(Mosias 6:4)

O registro de Zeniff, o rei Noé e Abinadi

  • Zeniff relata a volta à terra de Néfi e o pacto com os lamanitas(Mosias 9:3)
  • O rei Noé impõe tributo pesado e substitui os sacerdotes(Mosias 11:4)
  • Abinadi denuncia o rei e é preso(Mosias 12:9)
  • Abinadi recita os Dez Mandamentos diante da corte(Mosias 13:12)
  • Abinadi cita por inteiro o poema do servo sofredor(Mosias 14:1)
  • Abinadi é condenado à morte pelo fogo(Mosias 17:20)

Alma, a igreja e o fim da monarquia

  • Alma prega em segredo e batiza nas águas de Mórmon(Mosias 18:14)
  • O povo de Alma foge e é submetido por Amulon no deserto(Mosias 24:8)
  • Os grupos dispersos se reúnem em Zaraenla(Mosias 25:19)
  • Alma recebe regra para lidar com os que abandonam a igreja(Mosias 26:29)
  • Alma, o filho, e os filhos de Mosias são detidos por um anjo(Mosias 27:11)
  • Mosias propõe substituir o rei por juízes eleitos(Mosias 29:11)

O discurso do rei Benjamim

Os capítulos 2 a 5 formam a peça mais citada do livro. O rei, já idoso, convoca o povo ao templo, encontra a multidão acampada em tendas com a porta voltada para a torre, e prega sobre serviço, dívida com Deus, expiação e adoção do nome de Cristo. O discurso termina com um convênio coletivo e um registro dos nomes dos que o aceitaram.

E eis que vos digo estas coisas para que aprendais sabedoria; para que saibais que, quando estais a serviço de vosso próximo, estais somente a serviço de vosso Deus.

Mosias 2:17, Mosias 2:17

A leitura SUD, desenvolvida desde Hugh Nibley nos anos 1950 e depois por Stephen Ricks, John Welch e John Tvedtnes, situa a cena em um rito israelita antigo. Os elementos apontados são a peregrinação de famílias inteiras ao templo, as tendas, o sacrifício, a renovação de convênio e a coroação de um sucessor. Nibley aproximou a cena dos ritos de entronização do Antigo Oriente Próximo; Tvedtnes e Ricks a associam à Festa dos Tabernáculos. O argumento é que esse conjunto de traços só foi descrito pela erudição bíblica no século XX, depois de 1830.

A leitura crítica vê no mesmo discurso um sermão avivalista do começo do século XIX. Nessa análise, o vocabulário do homem natural, do novo nascimento, da queda de Adão e da expiação reproduz a linguagem protestante americana do Segundo Grande Despertar, e a estrutura, com pregação, clamor coletivo de culpa e conversão em massa, corresponde ao que acontecia nos acampamentos religiosos do estado de Nova York.

Porque o homem natural é inimigo de Deus e tem-no sido desde a queda de Adão e sê-lo-á para sempre; a não ser que ceda ao influxo do Santo Espírito e despoje-se do homem natural e torne-se santo pela expiação de Cristo, o Senhor.

Mosias 3:19, Mosias 3:19

O ponto de atrito é objetivo e vale registrar sem veredito: o vocabulário é o de Paulo em português e em inglês da King James, com expressões como homem natural, primeiro Adão e submissão da carne. Para quem lê o livro como tradução, isso é o esperado de um tradutor que verte um texto antigo na linguagem bíblica disponível a seus leitores. Para quem lê como composição moderna, é o traço que denuncia a origem. Nenhum dos dois lados nega a semelhança; o que se disputa é o que ela significa.

Abinadi e Isaías 53

O capítulo 14 é uma citação praticamente integral de Isaías 53, colocada na boca do profeta Abinadi diante dos sacerdotes do rei Noé. O contexto narrativo é um julgamento: os sacerdotes desafiam Abinadi a explicar uma passagem de Isaías 52, e ele responde recitando o poema do servo sofredor e aplicando-o ao Messias que ainda viria.

Mas foi ferido pelas nossas transgressões, moído pelas nossas iniquidades; o castigo de nossa paz estava sobre ele e pelas suas feridas somos curados.

Mosias 14:5, Mosias 14:5

Este é um dos pontos mais examinados da obra. O texto de Mosias 13 e 14 segue de perto a King James Version, com cerca de vinte variantes em relação a ela. Estudiosos SUD leem essas variantes como sinal de um texto anterior ao Massorético, vindo das placas de latão que a narrativa diz terem saído de Jerusalém antes do exílio. David Wright argumenta em sentido contrário: uma parcela desproporcional das diferenças cai sobre palavras que a King James traz em itálico, isto é, acrescentadas pelos tradutores ingleses de 1611 e ausentes do hebraico. Itálicos são cerca de 4% do texto, mas concentram entre um quinto e um terço das variantes, o que para ele indica dependência da edição inglesa. Tvedtnes e Royal Skousen respondem que parte dessas variantes são erros de ditado e cópia, não revisão deliberada.

Há ainda uma questão de crítica bíblica anterior a essa disputa. Boa parte da erudição atribui Isaías 40 a 55, onde está o poema do servo, a um autor do período do exílio babilônico, posterior ao Isaías do século VIII a.C. Se essa datação estiver certa, o poema não poderia estar em um registro levado de Jerusalém por volta de 600 a.C. Autores SUD contestam a divisão do livro de Isaías ou propõem que o material já circulava antes. A discussão permanece aberta e não é decidida por este índice.

Alma e as águas de Mórmon

Um dos sacerdotes de Noé, chamado Alma, aceita a pregação de Abinadi, foge e passa a ensinar em segredo junto a uma fonte de água. O episódio funciona no livro como o ato fundador da comunidade religiosa nefita organizada, com batismo por imersão precedido de compromisso público.

Sim, e estais dispostos a chorar com os que choram; sim, e consolar os que necessitam de consolo e servir de testemunhas de Deus em todos os momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que vos encontreis.

Mosias 18:9, Mosias 18:9

O trecho é lido pelos Santos dos Últimos Dias como a formulação do convênio batismal, e é usado até hoje na catequese e nos discursos da igreja. A cena descreve batismo em nome de Cristo e uma igreja de congregações organizadas cerca de 148 a.C. Críticos apontam isso como anacronismo, já que o batismo cristão e a estrutura eclesial aparecem no Novo Testamento, dois séculos depois na cronologia do próprio livro. A resposta SUD é que a narrativa pressupõe revelação antecipada de Cristo aos profetas nefitas, o que é uma premissa teológica da obra, não um dado verificável.

A conversão de Alma, o filho

No capítulo 27, Alma, o filho, perseguidor da igreja fundada pelo pai, é interrompido por um anjo, fica sem fala e sem movimento por dois dias e depois anuncia conversão e novo nascimento. O relato é retomado em primeira pessoa no Livro de Alma, capítulos 36 e 38.

A semelhança com a conversão de Paulo no caminho de Damasco é reconhecida por leitores dos dois lados. Perseguidor da comunidade, aparição luminosa, incapacitação temporária, companheiros derrubados junto, pergunta do céu sobre por que persegue o Senhor, envio como missionário e três relatos do mesmo episódio no corpo da obra. A duração varia dentro do próprio texto: Mosias 27 fala em dois dias e duas noites, e Alma 36 em três dias e três noites, como em Atos. Autores SUD tratam isso como um tipo narrativo recorrente na Escritura, em que Deus age de modo semelhante em situações semelhantes. Autores críticos, como Grant Palmer e Mark Thomas, tratam como dependência literária direta de Atos. O paralelo é factual; a explicação é o que se disputa.

Do rei aos juízes

O capítulo 29 encerra o livro com a proposta de Mosias de abolir a monarquia. Seus filhos recusaram o trono, e em vez de nomear outro herdeiro ele propõe juízes escolhidos pela voz do povo, com juízes superiores e inferiores que se fiscalizam mutuamente. Alma, o filho, é escolhido primeiro juiz supremo e acumula o cargo de sumo sacerdote.

Ora, não é comum a voz do povo desejar algo contrário ao que é direito; mas é comum a minoria do povo desejar o que não é direito; portanto, observareis e tereis isto por lei.

Mosias 29:26, Mosias 29:26

O sistema descrito não é uma democracia representativa moderna. Não há legislativo, e os juízes aplicam a lei já dada, sem poder de criar leis novas. Ainda assim, o capítulo é lido por críticos como reflexo do republicanismo americano do começo do século XIX, com desconfiança da realeza e apelo à voz do povo, temas correntes na imprensa e nos púlpitos do estado de Nova York. Autores SUD respondem que a monarquia era a norma na antiguidade, que o arranjo dos juízes não corresponde ao modelo constitucional dos Estados Unidos e que o próprio texto mostra o sistema falhando repetidamente nos livros seguintes.

Como o livro é lido

Para os Santos dos Últimos Dias, Mosias é escritura viva. O discurso de Benjamim, o convênio das águas de Mórmon e a conversão de Alma estão entre as passagens mais pregadas e memorizadas da tradição, e a sequência é lida em ciclo pela igreja inteira a cada quatro anos no currículo Vem, e Segue-Me. A Comunidade de Cristo, segunda maior denominação do movimento, também tem o livro em seu cânone, embora com autoridade menos central.

Fora dessas comunidades, o livro é estudado como documento religioso americano do século XIX e como objeto literário. Uma terceira via cresceu em editoras acadêmicas: ler a obra pelas escolhas de seus narradores internos sem antes decidir a questão da origem. É o método de Grant Hardy, historiador da Universidade da Carolina do Norte em Asheville e ele próprio membro da igreja, cujo Understanding the Book of Mormon saiu pela Oxford University Press em 2010. A crítica mais antiga do livro veio de Alexander Campbell, em 1831, que acusou a obra de resolver, em cenário antigo, todas as controvérsias religiosas debatidas em Nova York nos dez anos anteriores. A observação continua sendo o eixo do argumento crítico até hoje.

Este índice descreve as duas leituras porque elas coexistem e porque o leitor cristão de outra tradição encontrará ambas assim que procurar. O texto que se lê aqui é o mesmo tido por sagrado por milhões de pessoas, e a decisão sobre sua origem não pertence a um índice bibliográfico.