Capítulos

Zacarias
Autoria e Data de Composição
A tradição atribui o livro inteiro ao profeta Zacarias, filho de Berequia, contemporâneo de Ageu durante a reconstrução do templo após o exílio babilônico. A divisão do livro em dois blocos, porém, não é um palpite estilístico, é uma fratura que o próprio texto exibe. Os capítulos 1 a 8 trazem três fórmulas cronológicas precisas que ancoram as visões noturnas no segundo e quarto anos de Dario I, entre 520 e 518 a.C., em pleno esforço de reerguer o templo sob o governador Zorobabel e o sumo sacerdote Josué.
A partir do capítulo 9 todo esse aparato desaparece: nenhuma data, nenhum personagem contemporâneo, nenhuma menção a Zorobabel, a Josué ou ao templo a reconstruir. No lugar das visões mediadas por um anjo intérprete surgem dois oráculos pesados (as duas massot) de tom escatológico, com batalhas das nações, um rei humilde sobre um jumento e um pastor ferido. Desde Joseph Mede (1653) e, de modo sistemático, desde Bernhard Stade no século XIX, a crítica lê isso como a costura de materiais de origem distinta sob um mesmo rolo:
Proto-Zacarias (caps. 1-8): o profeta histórico do período persa (520-518 a.C.), com as visões noturnas e referências explícitas a Zorobabel e Josué.
Dêutero-Zacarias (caps. 9-14): autoria e data incertas, frequentemente subdividido ainda num "Trito-Zacarias" (caps. 12-14). O indício mais citado é geográfico-político: em Zacarias 9:13 Judá é lançada contra "teus filhos, ó Javã", isto é, contra a Grécia. No horizonte de 520 a.C. a Grécia não era ameaça relevante para um pequeno enclave persa na Judeia; ela só assoma como força capaz de definir o destino do Oriente Próximo com Alexandre, no fim do século IV. Por isso boa parte da pesquisa desloca esses capítulos para o período persa tardio ou o início do helenístico, com propostas que chegam a fixar trechos em torno de 330 a.C.
Vale a honestidade metodológica nos dois sentidos. Como 9 a 14 não trazem nenhuma referência datável a evento ou indivíduo, as propostas históricas oscilaram do século VIII ao II a.C., e a datação helenística é a melhor inferência, não um fato escavado. Comentaristas que defendem a unidade lembram que Javã já figura como povo conhecido em Isaías 66:19 e Ezequiel 27:13, que o comércio jônico era realidade no Levante do século VI, e que escolas de discípulos preservavam e reaplicavam o oráculo do mestre sob seu nome, prática visível na própria tradição de Isaías. O que a evidência não fecha em nenhuma direção é a identidade da mão por trás de 9 a 14 e sua data exata. O que ela mostra com clareza é o rolo conservando, lado a lado e sem disfarce, a juntura entre um profeta datado da reconstrução e um corpo posterior de oráculos.
As Visões Noturnas e a Apocalíptica Nascente
O gênero das oito visões de Zacarias 1:7 a 6:8 já não é o oráculo profético clássico ("assim diz o Senhor"), e sim algo novo: imagens opacas que o próprio vidente não entende e que precisam ser decodificadas por um anjo intérprete. Esse mediador angelical, raro nos profetas anteriores, é o traço formal que reaparecerá em Daniel, em 1 Enoque e na apocalíptica plena dois ou três séculos depois. A crítica histórico-literária lê Zacarias como um elo datável nessa transição da profecia para a apocalíptica. Quem defende continuidade observa que a mediação angélica e o conselho divino já existiam antes (a visão de 1 Reis 22:19, as visões de Amós 7:1), de modo que Zacarias intensifica recursos da tradição mais do que importa um gênero estrangeiro.
O motivo do "Renovo" (tsemach) e dos "dois ungidos" (literalmente "filhos do óleo") tem um referente histórico imediato: a dupla liderança de Josué, o sacerdote, e Zorobabel, o governador davídico. O detalhe que muitos consideram retrabalhado é Zacarias 6:9, onde a coroa que se esperaria sobre o herdeiro davídico acaba pousando sobre o sumo sacerdote, possivelmente para acomodar o desaparecimento de Zorobabel da narrativa. O texto fala de um Renovo que "edificará o templo" e reunirá em si funções de rei e sacerdote, fusão que nenhuma figura do século VI cumpriu, e foi essa sobra semântica que a leitura cristã posterior tomou como abertura messiânica. A evidência não força a leitura cristológica nem a proíbe.
O Acusador (ha-satan) em Zacarias 3
Na quarta visão, Josué comparece com vestes sujas diante do Anjo do Senhor enquanto ha-satan está à sua direita para acusá-lo. O hebraico traz o termo com artigo definido, "o acusador", um título funcional (o promotor da corte celestial), não o nome próprio de um inimigo cósmico de Deus. O mesmo padrão aparece em Jó 1:6, onde "o satan" integra os "filhos de Deus" e age sob permissão divina. Na cena de Zacarias o acusador não é destruído nem expulso, apenas repreendido, como quem perde um processo, e as vestes imundas trocadas por trajes de festa apontam para a restauração imerecida do sacerdócio mais do que para uma demonologia.
A comparação entre 2 Samuel 24:1, onde é o próprio Senhor que incita Davi a recensear Israel, e 1 Crônicas 21:1, onde o mesmo ato é atribuído a um "satan" (aqui sem artigo, aproximando-se de um nome), mostra a própria tradição reescrevendo sua teologia ao longo do tempo. A figura do adversário ganha autonomia justamente quando a teologia pós-exílica fica desconfortável em pôr o mal diretamente nas mãos de Deus. A personificação plena de Satanás como adversário pessoal é desenvolvimento posterior, que o Apocalipse 12:10 lerá como "o acusador dos nossos irmãos". Onde se vê uma trajetória de desenvolvimento conceitual, há quem leia ruptura e quem leia revelação progressiva; o dado textual é compatível com as duas leituras e não decide entre elas.
Manuscritos
Fragmentos de Qumran e Mar Morto: Séculos II-I a.C.
Fragmentos de Zacarias foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto. Em 2021, pesquisadores anunciaram a recuperação de fragmentos em grego de Naum e Zacarias na "Caverna do Horror", no deserto de Judá, com o nome divino escrito em paleohebreu. O livro está preservado integralmente no Texto Massorético e na Septuaginta (LXX), com algumas variações de detalhe entre as tradições.
Conteúdo do Livro
Proto-Zacarias: Visões Noturnas (caps. 1-8)

- Chamado ao arrependimento: retornai ao Senhor — (Zc 1:1)
- Primeira visão: cavaleiros entre as murtas e o anjo intercessor — (Zc 1:7)
- Segunda visão: quatro chifres e quatro ferreiros — (Zc 1:18)
- Terceira visão: o homem com o cordel de medir e a promessa de Jerusalém sem muros — (Zc 2:1)
- Quarta visão: Josué, o sumo sacerdote, diante do anjo, acusado por Satanás e purificado — (Zc 3:1)
- Quinta visão: o candelabro de ouro e as duas oliveiras (Zorobabel e Josué) — (Zc 4:1)
- Sexta visão: o rolo voador (maldição sobre ladrões e perjuros) — (Zc 5:1)
- Sétima visão: a mulher no efa (a iniquidade removida para a Babilônia) — (Zc 5:5)
- Oitava visão: quatro carros e os quatro ventos do céu — (Zc 6:1)
- Coroação simbólica de Josué como prefiguração do "Renovo" messiânico — (Zc 6:9)
- Questão sobre os jejuns e reposta profética sobre justiça social — (Zc 7:1)
- Oráculos de restauração: Jerusalém cidade fiel, as nações buscarão o Senhor — (Zc 8:1)
Dêutero-Zacarias: Oráculos Apocalípticos (caps. 9-14)

- Oráculo sobre as nações vizinhas e a vinda do rei humilde sobre um jumento — (Zc 9:1)
- Menção a Javan (Grécia) como inimigo: argumento para datação pós-persa — (Zc 9:13)
- Promessa de restauração de Israel e Judá e retorno dos dispersos — (Zc 10:1)
- Parábola dos pastores: o bom pastor rejeitado, salário de trinta peças de prata — (Zc 11:4)
- Segundo oráculo: Jerusalém, pedra pesada para as nações; lamento pelo "traspassado" — (Zc 12:1)
- A fonte aberta para purificação e o fim da profecia falsa — (Zc 13:1)
- "Fere o pastor e as ovelhas se dispersarão" — (Zc 13:7)
- Batalha final em Jerusalém, teofania no Monte das Oliveiras e reinado universal do Senhor — (Zc 14:1)
Recepção no Novo Testamento
Zacarias é um dos livros proféticos mais explorados pelos relatos da Paixão, e quase todas as citações vêm do bloco tardio (caps. 9-14). O rei humilde sobre o jumento de Zacarias 9:9 é encenado na entrada em Jerusalém (Mateus 21:5). As trinta peças de prata de Zacarias 11:12 são aplicadas à traição (Mateus 27:9). A frase "olharão para aquele que traspassaram" de Zacarias 12:10 reaparece em João 19:37 e Apocalipse 1:7. O pastor ferido de Zacarias 13:7 é citado por Jesus na noite da prisão (Mateus 26:31).
No contexto original, esses oráculos não descrevem um messias sofredor caminhando para a cruz: o rei de Zacarias 9:9 destrói os arcos de guerra e proclama paz às nações, e as trinta moedas encerram uma alegoria amarga sobre o salário desprezível pago a um pastor-profeta rejeitado. A leitura cristológica é um segundo nível, projetado retrospectivamente, no estilo do pesher de Qumran, que relia os profetas à luz do próprio tempo. Quem defende a tradição nota que vários desses detalhes seriam improváveis de inventar (um messias traspassado, sem precedente claro no messianismo do Segundo Templo; o rebanho disperso que descreve o abandono dos discípulos), e que a releitura tipológica era nativa do judaísmo do período.
O caso mais revelador é Mateus 27:9, que atribui as trinta moedas a "Jeremias, o profeta" quando a fonte verbal inequívoca é Zacarias 11:13, do bloco tardio de Dêutero-Zacarias. A dificuldade foi reconhecida desde Orígenes e Jerônimo, e as saídas propostas (citação do rolo pelo nome do primeiro profeta da coleção, oráculo compósito deliberado, erro de copista) concedem o mesmo ponto de fundo: a tradição neotestamentária já manuseava esses oráculos como peças de proveniência incerta, atribuíveis e reatribuíveis.