Antiguidades Judaicas - Livro VII 13
Livro VII: o reinado de Davi
Como Davi, ao recensear o povo, foi punido, e como a compaixão divina conteve esse castigo.
O rei Davi quis saber quantas dezenas de milhares havia no povo, mas esqueceu as ordens de Moisés, que tinha avisado de antemão que, se a multidão fosse recenseada, cada pessoa deveria pagar a Deus meio siclo por cabeça. Assim, o rei mandou Joabe, comandante do seu exército, ir contar toda a multidão. Joabe disse que não havia necessidade de tal recenseamento, mas não conseguiu convencê-lo [a desistir]. Davi insistiu que ele não demorasse e que fosse imediatamente recensear os hebreus. Então Joabe levou consigo os chefes das tribos e os escribas, percorreu o território dos israelitas, registrou quão numerosa era a multidão e voltou a Jerusalém para junto do rei, depois de nove meses e vinte dias. Entregou ao rei o número do povo, sem a tribo de Benjamim, pois ainda não tinha contado essa tribo, assim como não contara a tribo de Levi, porque o rei se arrependera de ter pecado contra Deus. O número dos demais israelitas era de novecentos mil homens capazes de pegar em armas e ir à guerra. Já a tribo de Judá, sozinha, tinha quatrocentos mil homens.
Quando os profetas avisaram Davi de que Deus estava irado com ele, ele começou a suplicar a Deus, pedindo que tivesse misericórdia dele e perdoasse o seu pecado. Mas Deus enviou a ele o profeta Natã, para propor a escolha entre três coisas, a fim de que ele decidisse qual preferia: se queria que houvesse fome no país por sete anos, ou guerra, sendo vencido por seus inimigos durante três meses, ou se Deus deveria mandar uma peste e uma enfermidade sobre os hebreus por três dias. Diante dessa escolha fatal, entre grandes misérias, Davi ficou angustiado e profundamente perturbado. Quando o profeta disse que ele tinha mesmo de fazer essa escolha e ordenou que respondesse depressa, para poder declarar a Deus o que ele havia escolhido, o rei refletiu consigo mesmo. Se pedisse a fome, pareceria que a impunha aos outros sem perigo para si, já que tinha muito trigo armazenado, mas com prejuízo para os outros. Se escolhesse ser vencido [por seus inimigos] durante três meses, pareceria ter escolhido a guerra, porque tinha homens valentes ao seu redor e fortalezas, e por isso nada temia desse lado. Escolheu, então, a aflição que é comum aos reis e aos seus súditos, e na qual o temor era igual para todos os lados, e disse antecipadamente que era muito melhor cair nas mãos de Deus do que nas mãos dos seus inimigos.
Quando o profeta ouviu isso, declarou-o a Deus, que então enviou uma peste e uma mortandade sobre os hebreus. Eles não morriam de uma única e mesma maneira, nem de modo que fosse fácil reconhecer qual era a doença. A enfermidade era de fato uma só, mas matava por dezenas de milhares de causas e situações que os afligidos não conseguiam compreender. Um morria após o outro, e o terrível mal os atacava sem que percebessem, levando-os ao fim de repente. Alguns entregavam o espírito imediatamente, com dores intensas e amargo sofrimento; outros eram consumidos pela doença e não sobrava deles nada para sepultar, pois assim que caíam, ficavam completamente decompostos; alguns sufocavam e lamentavam muito a sua sorte, sendo também acometidos por uma escuridão súbita; havia ainda os que, enquanto sepultavam um parente, caíam mortos sem terminar os ritos fúnebres. Morreram dessa doença, que começou de manhã e durou até a hora do almoço, setenta mil pessoas. O anjo estendeu a mão sobre Jerusalém, lançando sobre ela esse terrível castigo. Mas Davi vestira pano de saco e deitara-se no chão, suplicando a Deus e pedindo que a enfermidade cessasse e que ele se contentasse com os que já tinham morrido. E quando o rei olhou para o alto e viu o anjo sendo levado em direção a Jerusalém, com a espada desembainhada, disse a Deus que ele, o pastor, podia ser justamente punido, mas que as ovelhas deviam ser preservadas, por não terem pecado em nada. E implorou a Deus que lançasse a sua ira sobre ele e sobre toda a sua família, mas que poupasse o povo.
Quando Deus ouviu a sua súplica, fez cessar a peste e enviou a ele o profeta Gade, ordenando que subisse imediatamente à eira de Arauna, o jebuseu, e ali construísse um altar a Deus e oferecesse sacrifícios. Ao ouvir isso, Davi não descuidou do seu dever, mas apressou-se para o lugar que lhe fora indicado. Arauna estava debulhando trigo. Quando viu o rei e todos os seus servos chegando até ele, correu à frente, foi até Davi e prestou-lhe homenagem. Era jebuseu por linhagem, mas amigo particular de Davi, e por essa razão, quando Davi conquistou a cidade, não lhe fez mal algum, como informamos ao leitor um pouco antes. Arauna perguntou: "Por que meu senhor veio até o seu servo?" Davi respondeu: "Para comprar a eira, a fim de construir nela um altar a Deus e oferecer um sacrifício." Arauna respondeu que lhe dava de graça a eira, os arados e os bois para o holocausto, e suplicou a Deus que aceitasse com benevolência o sacrifício. Mas o rei respondeu que recebia com gratidão a sua generosidade e nobreza e aceitava a sua boa vontade, mas pediu que ele aceitasse o preço de tudo, pois não era justo oferecer um sacrifício que nada custasse. Quando Arauna disse que faria como o rei quisesse, Davi comprou a eira dele por cinquenta siclos. E depois de construir um altar, realizou o culto divino, trouxe um holocausto e ofereceu também ofertas pacíficas. Com isso Deus se apaziguou e voltou a ser favorável a eles. Aconteceu que foi nesse mesmo lugar que Abraão veio oferecer seu filho Isaque em holocausto, e quando o jovem estava prestes a ter a garganta cortada, um carneiro apareceu de repente, parado junto ao altar, e Abraão o sacrificou no lugar do filho, como já relatamos antes. Quando o rei Davi viu que Deus tinha ouvido a sua oração e aceitado de bom grado o seu sacrifício, resolveu chamar todo aquele lugar de altar de todo o povo e construir ali um templo a Deus. Essas palavras ele pronunciou de modo muito apropriado ao que haveria de ser feito depois, pois Deus enviou a ele o profeta e lhe disse que ali o seu filho lhe construiria um altar, o filho que assumiria o reino depois dele.