Anais - Livro XV 3
A guerra parta, o grande incêndio de Roma e a perseguição aos cristãos
E essas eram as providências tomadas por conselho humano. Em seguida, buscaram-se ritos de expiação aos deuses e consultaram-se os livros Sibilinos, segundo os quais se fizeram súplicas a Vulcano, a Ceres e a Prosérpina, e se aplacou Juno por meio das matronas, primeiro no Capitólio, depois junto ao mar mais próximo, de onde se tirou água para aspergir o templo e a imagem da deusa; e as mulheres que tinham marido celebraram banquetes sagrados e vigílias noturnas. Mas nem o esforço humano, nem as larguezas do príncipe, nem os ritos de aplacamento dos deuses afastavam a infâmia da crença de que o incêndio fora ordenado. Por isso, para sufocar o boato, Nero forjou como culpados, e puniu com os mais requintados suplícios, aqueles que o povo, por suas torpezas, odiava e chamava de cristãos. O autor desse nome, Cristo, fora executado, no reinado de Tibério, pelo procurador Pôncio Pilatos; e a superstição funesta, reprimida por algum tempo, irrompia de novo, não só pela Judeia, origem desse mal, mas também pela cidade, para onde de toda parte conflui e ganha aceitação tudo o que é atroz ou vergonhoso. Assim, primeiro foram presos os que confessavam; depois, por denúncia destes, uma imensa multidão foi condenada, não tanto pelo crime do incêndio quanto pelo ódio ao gênero humano. E aos que morriam acrescentaram-se escárnios: cobertos com peles de feras, pereciam dilacerados por cães, ou eram pregados em cruzes, ou destinados às chamas e, quando faltava a luz do dia, queimados para servir de iluminação noturna. Nero oferecera os seus jardins para esse espetáculo e promovia jogos no circo, misturado à plebe em traje de cocheiro ou de pé sobre o carro. Por isso, embora se tratasse de gente culpada e merecedora dos mais exemplares castigos, nascia a compaixão, pois pareciam ser destruídos não para a utilidade pública, mas para saciar a crueldade de um só homem.