Anais - Livro XV 2

A guerra parta, o grande incêndio de Roma e a perseguição aos cristãos

A proposta foi acolhida com grande aprovação. Mesmo assim, o decreto do senado não pôde ser concluído, pois os cônsules alegaram que não havia moção formal sobre o assunto. Pouco depois, por iniciativa do príncipe, ficou estabelecido que ninguém propusesse, em qualquer assembleia dos aliados, que se votassem no senado agradecimentos a propretores ou procônsules, e que ninguém se incumbisse de tal missão. Sob esses mesmos cônsules, um ginásio foi consumido por um raio, e a estátua de Nero que havia nele derreteu-se até virar uma massa disforme de bronze. Um terremoto também arruinou em grande parte Pompeia, cidade populosa da Campânia. E morreu a virgem vestal Lélia, em cujo lugar foi escolhida Cornélia, da família dos Cossos.
Sob o consulado de Mêmio Régulo e Vergínio Rufo, Nero recebeu com alegria além da medida humana o nascimento de uma filha que lhe deu Popeia, e a chamou Augusta, dando o mesmo título também a Popeia. O local do parto foi a colônia de Âncio, onde ele próprio nascera. O senado havia confiado aos deuses o ventre de Popeia e feito votos em nome do Estado, que foram repetidos muitas vezes e cumpridos. Acrescentaram-se ações de graças, decretou-se um templo à deusa da fecundidade e um certame ao modelo das cerimônias de Áccio, e que estátuas de ouro das duas Fortunas fossem colocadas no trono de Júpiter Capitolino. Decretaram-se também jogos circenses em honra das famílias Cláudia e Domícia em Âncio, como os de Bovilas para a gente Júlia. Tudo isso foi efêmero, pois dentro de quatro meses a criança morreu. De novo irromperam as adulações, votando os homens as honras da divinização, de um santuário, de um templo e de um sacerdote. E o próprio imperador foi tão imoderado no luto quanto fora na alegria. Notou-se que, tendo todo o senado corrido a Âncio logo após o nascimento, Trásea foi proibido de ir, e recebeu com ânimo imperturbável a afronta que pressagiava sua condenação. Dizem que se seguiu uma fala do César, em que ele se gabou diante de Sêneca de ter se reconciliado com Trásea, e que Sêneca o felicitou. A partir daí cresciam a glória e os perigos desses homens ilustres.
Nesse meio-tempo, no início da primavera, enviados partos trouxeram instruções do rei Vologeso e uma carta no mesmo teor. Dizia ele que agora abandonava suas antigas e tantas vezes repetidas reivindicações sobre a posse da Armênia, que os deuses, árbitros até dos povos mais poderosos, haviam entregado essa posse aos partos, não sem ignomínia para Roma. Recentemente cercara Tígranes; depois disso poupara Peto e suas legiões, deixando-os partir incólumes quando podia destruí-los. provara suficientemente a força; também dera mostra de clemência. E Tirídates não se recusaria a ir a Roma receber o diadema, se não estivesse retido pelo dever de um cargo sacerdotal. Iria aos estandartes e à imagem do príncipe e ali, diante das legiões, inauguraria seu reinado.
Diante de tal carta de Vologeso, e como Peto escrevia de modo diverso, como se a situação estivesse inalterada, interrogou-se o centurião que viera com os enviados sobre o estado da Armênia, e ele respondeu que todos os romanos haviam se retirado de lá. Percebido então o escárnio dos bárbaros, que pediam aquilo que haviam arrancado, Nero consultou os primeiros homens do Estado sobre se preferiam uma guerra arriscada ou uma paz desonrosa. Não houve hesitação quanto à guerra. E Corbulão, conhecedor de soldados e inimigos por tantos anos e perito em conduzir a campanha, foi posto à frente, para que não se errasse de novo pela inépcia de outro comandante, que havia desgosto com Peto. Assim, os enviados foram devolvidos sem resposta, mas com presentes, para que surgisse a esperança de que Tirídates não suplicaria o mesmo em vão, se ele próprio apresentasse o pedido em pessoa. A administração da Síria foi confiada a Caio Céstio, e as forças militares a Corbulão; acrescentou-se a décima quinta legião, conduzida da Panônia por Mário Celso. Escreveu-se aos tetrarcas, reis, prefeitos, procuradores e aos pretores que governavam as províncias vizinhas, ordenando que obedecessem às ordens de Corbulão, cujo poder foi ampliado quase na mesma medida que o povo romano havia concedido a Cneu Pompeu quando este ia fazer a guerra contra os piratas. Quanto a Peto, que regressou temendo coisa pior, o César achou suficiente atacá-lo com gracejos, mais ou menos nestas palavras: ele o perdoava imediatamente, para que alguém tão pronto ao pavor não adoecesse com uma angústia mais prolongada.
Corbulão, por sua vez, transferiu para a Síria a quarta e a décima segunda legiões, que, perdidos os mais valentes e aterrorizados os demais, pareciam pouco aptas ao combate, e levou dali para a Armênia a sexta e a terceira legiões, tropas em plena eficiência e exercitadas por trabalhos frequentes e bem-sucedidos. Acrescentou ainda a quinta legião, que, estacionada no Ponto, não conhecera o desastre, junto com homens da décima quinta recém-chegados, vexilos de veteranos escolhidos da Ilíria e do Egito, toda a cavalaria e infantaria aliadas e os auxiliares dos reis tributários, concentrados num lugar em Melitene, onde se preparava para atravessar o Eufrates. Então, depois de purificar o exército segundo o rito, convocou-o à assembleia e começou com grandiosas alusões aos auspícios do imperador e aos feitos que ele próprio realizara, atribuindo as derrotas à inépcia de Peto, falando com muita autoridade, que num homem militar valia tanto quanto eloquência.
Em seguida tomou a rota antes aberta por Lúcio Luculo, removendo o que o tempo havia obstruído. E não rejeitou os enviados de Tirídates e Vologeso que vinham tratar da paz, juntando-lhes centuriões com mensagens nada hostis. Pois, dizia ele, ainda não se chegara ao ponto de ser preciso o combate final. Muitas coisas haviam corrido bem aos romanos, algumas aos partos, em advertência contra a soberba. Portanto, convinha a Tirídates receber de presente um reino intacto das devastações, e Vologeso cuidaria melhor do bem-estar do povo parto com uma aliança romana do que com danos mútuos. Ele sabia quanta discórdia havia dentro do reino e que nações indomáveis e ferocíssimas Vologeso governava; em contrapartida, seu imperador tinha paz inabalável por toda parte, e esta era sua única guerra. Ao mesmo tempo, Corbulão acrescentou terror ao conselho: expulsou de suas terras os nobres armênios que tinham sido os primeiros a desertar de nós, destruiu seus fortes e encheu de igual pavor a planície e as alturas, os fortes e os fracos.
O nome de Corbulão não era tido como hostil nem detestável, nem mesmo entre os bárbaros, e por isso confiavam que seu conselho era leal. Assim, Vologeso não se mostrou irredutível no todo, e pediu trégua para algumas regiões. Tirídates exigiu um lugar e um dia para o encontro. O prazo foi próximo; o lugar escolhido pelos bárbaros foi aquele em que pouco antes as legiões de Peto haviam sido cercadas, pela lembrança de uma situação mais favorável a eles ali. Corbulão não o evitou, para que a diferença de sorte aumentasse sua glória. Nem se afligia com a desonra de Peto, o que ficou claro sobretudo porque ordenou ao filho dele, que era tribuno, conduzir alguns manípulos e cobrir os restos da batalha malsucedida. No dia combinado, Tibério Alexandre, ilustre cavaleiro romano designado para auxiliar na campanha, e Vinício Ânio, genro de Corbulão, ainda sem idade senatorial e posto como legado à frente da quinta legião, entraram no acampamento de Tirídates, em sua honra e para que ele não temesse traição, dado o valor de tal penhor. Em seguida, cada lado tomou vinte cavaleiros. Ao ver Corbulão, o rei foi o primeiro a desmontar; e Corbulão não hesitou, e ambos, a pé, apertaram as mãos direitas.
Então o romano elogiou o jovem por abandonar os cursos precipitados e adotar o que era seguro e proveitoso. Tirídates, depois de muito discorrer sobre a nobreza de sua linhagem, acrescentou o resto com moderação: iria a Roma e levaria ao César uma nova honra, um arsácida suplicante, sem que os assuntos dos partos estivessem em desgraça. Decidiu-se então que Tirídates depositasse a insígnia real junto à imagem do César e a retomasse apenas da mão de Nero; e o encontro terminou com um beijo. Depois, passados poucos dias, com grande aparato de ambos os lados, de um lado postou-se a cavalaria disposta em esquadrões com as insígnias da pátria, do outro as fileiras das legiões com águias e estandartes reluzentes e imagens dos deuses à maneira de um templo. No meio, um tribunal sustentava uma cadeira curul, e a cadeira sustentava uma estátua de Nero. A ela avançou Tirídates e, abatidas as vítimas segundo o costume, tirou o diadema da cabeça e o depôs aos pés da imagem, em meio a grande comoção de todos, intensificada pela imagem ainda viva nos olhos do exército da matança ou do cerco das tropas romanas. Mas agora a sorte se invertera: Tirídates ia partir como espetáculo para os povos, pouco menos que um cativo.
Corbulão acrescentou à glória militar a cortesia e os banquetes. E como o rei perguntava as razões de tudo o que notava de novo, por exemplo, o anúncio do início das vigílias por um centurião, a dispensa dos convivas ao som da trombeta, e o acendimento, com uma tocha aplicada por baixo, do altar erguido diante do auguratório, Corbulão, exaltando tudo a mais, encheu-o de admiração pelo antigo costume. No dia seguinte, Tirídates pediu prazo para, antes de empreender tão longa viagem, visitar os irmãos e a mãe. Nesse meio-tempo, entregou a filha como refém e uma carta suplicante a Nero.
E, partindo, encontrou Pácoro entre os medos e Vologeso em Ecbátana, este de modo algum descuidado do irmão. Pois Vologeso havia mesmo pedido a Corbulão, por mensageiros próprios, que Tirídates não tivesse de suportar nenhum sinal de servidão, nem entregar a espada, nem ser impedido de abraçar os governadores das províncias ou de postar-se às portas deles, e que tivesse em Roma tanta honra quanto os cônsules. É claro que, habituado à arrogância estrangeira, ele não tinha noção de nós, para quem vale a substância do poder, e as coisas vãs são desprezadas.
Naquele mesmo ano, o César transferiu para o direito do Lácio as nações dos Alpes Marítimos. Atribuiu aos cavaleiros romanos lugares à frente dos assentos da plebe no circo, pois até aquele dia entravam misturados, que a lei Róscia nada estabelecera senão a respeito das catorze fileiras no teatro. Esse mesmo ano teve espetáculos de gladiadores com magnificência igual à dos anteriores; mas muitas mulheres de distinção e senadores se rebaixaram aparecendo na arena.
Sob o consulado de Caio Lecânio e Marco Licínio, um desejo cada dia mais ardente impelia Nero a aparecer com frequência nos palcos públicos, pois até então cantara em casas particulares ou jardins, durante os Jogos Juvenais, que ele agora desprezava como pouco frequentados e estreitos demais para tão grande voz. Não ousando, contudo, começar em Roma, escolheu Nápoles, por ser cidade grega: dali teria início, de modo que, ao passar para a Acaia e conquistar as coroas famosas e sagradas desde a antiguidade, despertasse com maior fama o entusiasmo dos cidadãos. Reuniu-se então a multidão dos habitantes da cidade, e os que a fama do acontecimento atraíra das colônias e municípios vizinhos, e os que acompanham o César por honra ou por diversos interesses, e até manípulos de soldados, e todos encheram o teatro dos napolitanos.
Ali ocorreu um incidente que muitos julgaram funesto, mas que ao próprio Nero pareceu antes providencial e sinal de divindades favoráveis: pois, tendo saído o povo que estivera presente, o teatro vazio desabou sem dano a ninguém. Então, por meio de cantos preparados, dando graças aos deuses e celebrando a própria fortuna do recente acontecimento, e prestes a empreender a travessia do mar Adriático, deteve-se entretanto em Benevento, onde Vatínio oferecia um concorrido espetáculo de gladiadores. Vatínio foi um dos mais torpes ornamentos daquela corte: criado numa oficina de sapateiro, de corpo deformado e graça vulgar, a princípio admitido como alvo de zombarias, depois, pela acusação dos melhores homens, chegou a tal poder que, em influência, dinheiro e capacidade de prejudicar, sobressaía até entre os maus.
Enquanto Nero frequentava esse espetáculo, nem mesmo em meio aos prazeres se interrompiam os crimes. Pois naqueles mesmos dias Torquato Silano foi forçado a morrer, porque, além do esplendor da família Júnia, alegava ter o divino Augusto como trisavô. Acusadores receberam ordem de imputar-lhe a prodigalidade nas doações e a falta de outra esperança que não a revolução; além disso, que tinha entre seus libertos os que chamava de secretários de cartas, de petições e de contas, títulos e ensaios do poder supremo. Então os libertos mais íntimos foram acorrentados e arrancados dele; e, como a condenação se aproximava, Torquato cortou as veias dos braços. Seguiu-se uma fala de Nero, segundo o costume: embora culpado e com razão desconfiado de sua defesa, ele teria vivido se tivesse esperado a clemência do juiz.
Pouco depois, abandonada por ora a Acaia, cujos motivos ficaram incertos, voltou a Roma, revolvendo em imaginações secretas as províncias do Oriente, sobretudo o Egito. Em seguida, declarando por edito que sua ausência não seria longa e que tudo no Estado permaneceria igualmente inalterado e próspero, dirigiu-se ao Capitólio por causa dessa partida. Ali, venerados os deuses, tendo entrado também no templo de Vesta, subitamente tremeu por todos os membros, fosse pelo terror inspirado pela divindade, fosse porque, pela lembrança de seus crimes, nunca estava livre do medo, e abandonou o plano, dizendo repetidamente que todos os cuidados lhe eram menos importantes do que o amor da pátria. Vira os rostos tristes dos cidadãos, ouvia as queixas secretas de que ele empreenderia tão longa viagem, quando não suportavam nem mesmo suas breves saídas, habituados a se reanimarem das adversidades com a presença do príncipe. Portanto, assim como nas relações privadas prevaleciam os laços mais próximos, do mesmo modo o povo romano tinha a maior força, e era preciso obedecer-lhe ao retê-lo. Essas e tais palavras agradaram à plebe, ávida de diversões e temendo, sua principal preocupação, a escassez de trigo, caso ele se ausentasse. O senado e os primeiros homens estavam incertos sobre se ele seria mais temível à distância ou presente. Depois, como é da natureza dos grandes temores, julgavam pior o que de fato acontecera.
Para ganhar crédito de que nada lhe era tão agradável quanto a capital, ele próprio armava banquetes em lugares públicos e usava a cidade inteira como se fosse sua casa. E os mais célebres pelo luxo e pela fama foram os festins preparados por Tigelino, que relatarei como exemplo, para não ter de narrar tantas vezes a mesma prodigalidade. Assim, no lago de Agripa, mandou construir uma balsa sobre a qual se montou o banquete, movida pelo reboque de outras embarcações. As naves eram adornadas de ouro e marfim, e os remadores eram rapazes devassos dispostos por idade e perícia nos vícios. Aves e feras de diversas terras e animais do mar haviam sido buscados até o Oceano. Nas margens do lago erguiam-se prostíbulos cheios de mulheres ilustres, e na margem oposta viam-se prostitutas de corpos nus. havia gestos e movimentos obscenos; e, quando caíram as trevas, todo o bosque vizinho e os edifícios em redor ressoavam com cantos e brilhavam com luzes. O próprio Nero, maculado por tudo que era lícito e ilícito, não deixara de cometer nenhuma infâmia que o tornasse mais corrompido, a não ser que, poucos dias depois, casou-se com um daquele bando de contaminados, de nome Pitágoras, ao modo dos casamentos solenes. Pôs-se ao imperador o véu nupcial, enviaram-se os áuspices, houve dote, leito conjugal e tochas nupciais; em suma, viu-se tudo o que mesmo numa mulher a noite encobre.
Seguiu-se um desastre, incerto se por acaso ou por dolo do príncipe, pois os autores transmitiram ambas as versões, mas mais grave e mais terrível do que tudo que aconteceu a esta cidade pela violência do fogo. Teve início naquela parte do circo contígua aos montes Palatino e Célio, onde, entre as lojas que continham as mercadorias que alimentam a chama, o fogo ao mesmo tempo começou e, logo violento e impelido pelo vento, tomou toda a extensão do circo. Pois não havia ali casas protegidas por sólida cantaria, nem templos cercados de muros, nem qualquer outro obstáculo que interpusesse demora. Com ímpeto, o incêndio percorreu primeiro as partes planas, depois subindo às alturas e de novo devastando as partes baixas, antecipou-se aos remédios pela rapidez do mal e pela vulnerabilidade da cidade, com ruas estreitas e bairros torcidos para e para e enormes, como era a velha Roma. A isso somavam-se os lamentos das mulheres apavoradas, a idade cansada dos velhos e a inexperiência da infância; uns cuidavam de si, outros dos demais; enquanto arrastavam os incapazes ou os esperavam, parte por demora, parte por pressa, tudo atrapalhava. E muitas vezes, enquanto olhavam para trás, eram cercados pelos lados ou pela frente; ou, se escapavam para as imediações, tomadas estas também pelo fogo, encontravam no mesmo desastre até o que tinham julgado distante. Por fim, em dúvida sobre o que evitar ou para onde ir, encheram as ruas e se estenderam pelos campos. Alguns, perdidas todas as fortunas, até o sustento diário, outros por amor aos seus, que não tinham conseguido salvar, pereceram, ainda que a fuga estivesse aberta. E ninguém ousava conter o desastre, diante das frequentes ameaças de muitos que proibiam apagar as chamas, e porque outros abertamente lançavam tochas e gritavam que tinham quem os autorizava, fosse para saquear com mais liberdade, fosse por ordem.
Naquele tempo, Nero, que estava em Âncio, não regressou a Roma antes que o fogo se aproximasse de sua casa, com a qual ligara o Palácio aos jardins de Mecenas. Mesmo assim, não se pôde impedir que o Palácio, a casa e tudo em redor fossem consumidos. Mas, como consolo ao povo expulso e fugitivo, ele abriu o Campo de Marte, os monumentos de Agripa e até os próprios jardins, e ergueu construções improvisadas para acolher a multidão desabrigada. Mandou trazer provisões de Óstia e dos municípios vizinhos, e o preço do trigo foi reduzido a três sestércios. Mas essas medidas, embora populares, caíam em vão, porque se espalhara o boato de que, no exato momento em que a cidade ardia, ele subira ao palco doméstico e cantara a destruição de Troia, comparando as desgraças presentes às calamidades antigas.
no sexto dia o incêndio teve fim, junto à base do Esquilino, depois de demolidos edifícios por imensa extensão, para que à violência contínua se opusessem campo aberto e, por assim dizer, o céu vazio. Ainda não se depusera o medo nem voltara a esperança à plebe quando o fogo grassou de novo, nos lugares mais espaçosos da cidade. Por isso, embora a mortandade de homens fosse menor, os templos dos deuses e os pórticos dedicados ao lazer ruíram em extensão ainda maior. E esse incêndio teve maior infâmia porque irrompera nas propriedades Emilianas de Tigelino, e parecia que Nero buscava a glória de fundar uma cidade nova e chamá-la pelo seu nome. Roma, de fato, divide-se em catorze regiões, das quais quatro permaneciam intactas, três foram arrasadas até o solo; das sete restantes sobravam poucos vestígios de casas, despedaçados e meio queimados.
Não seria fácil computar o número de mansões, de blocos de cortiços e de templos que se perderam. Mas, pela mais antiga religião, foram consumidos o templo que Sérvio Túlio dedicara à Lua, o grande altar e o santuário que o arcádio Evandro consagrara a Hércules ali presente, o templo de Júpiter Estator votado por Rômulo, o palácio real de Numa e o santuário de Vesta com os Penates do povo romano; também as riquezas adquiridas em tantas vitórias e as obras de arte gregas, e ainda os monumentos antigos e genuínos do engenho humano, de modo que, apesar de toda a beleza da cidade renascida, os mais velhos recordavam muitas coisas que não puderam ser refeitas. Houve quem observasse que este incêndio começou no dia 19 de julho, o mesmo em que os senões tomaram e incendiaram a cidade. Outros levaram a curiosidade tão longe a ponto de contar igual número de anos, meses e dias entre os dois incêndios.
Quanto a Nero, aproveitou-se das ruínas da pátria e edificou uma mansão em que as joias e o ouro não causavam tanta admiração, coisas comuns e vulgarizadas pelo luxo, quanto os campos e lagos e, à maneira de regiões solitárias, de um lado bosques, do outro espaços abertos e panoramas, obra dos diretores e engenheiros Severo e Celero, que tinham engenho e audácia para tentar pela arte até o que a natureza negara, e desperdiçar os recursos do príncipe. Pois eles haviam prometido escavar um canal navegável desde o lago Averno até as embocaduras do Tibre, ao longo de um litoral árido ou através de montes que se opunham. E não outra fonte úmida para gerar águas senão os pântanos Pontinos: o resto é rocha íngreme ou seco, e, ainda que se pudesse romper, o trabalho seria insuportável e sem motivo suficiente. Nero, contudo, como era ávido do impossível, esforçou-se por escavar as colinas mais próximas do Averno, e ainda restam os vestígios de sua esperança frustrada.
Quanto à parte da cidade que sobrou da mansão, ela não foi reerguida, como depois do incêndio dos gauleses, sem distinção e ao acaso, mas com fileiras de quarteirões medidas, largos espaços de ruas, altura limitada dos edifícios, áreas abertas e o acréscimo de pórticos que protegessem a frente dos blocos de cortiços. Esses pórticos Nero prometeu erguer com o próprio dinheiro e entregar aos donos as áreas limpas dos escombros. Acrescentou prêmios proporcionais à posição e aos bens de cada um, e fixou um prazo dentro do qual deveriam obtê-los, concluídas as casas ou os blocos. Destinou os pântanos de Óstia para receber o entulho, e determinou que os navios que tinham trazido o trigo pelo Tibre descessem o rio carregados de escombros; e que os próprios edifícios, até certa altura, fossem feitos sem vigas de madeira, sólidos, de pedra de Gábio ou de Alba, por ser esse material impermeável ao fogo. Quanto à água, que a licença dos particulares interceptava, para que corresse mais abundante e em mais lugares para uso público, foram nomeados guardas; e que cada um tivesse, em local aberto, meios de conter o fogo; e que cada construção fosse cercada por suas próprias paredes, não por muros comuns. Essas medidas, acolhidas pela utilidade, deram também beleza à cidade nova. Houve, contudo, quem acreditasse que aquela velha forma fora mais favorável à saúde, que a estreiteza das ruas e a altura dos telhados não eram igualmente penetradas pelo calor do sol; mas agora a largura aberta e desprotegida de qualquer sombra ardia com um calor mais intenso.