Capítulos

Um senador romano de toga escreve com estilete numa tábua de cera, um rolo de papiro na outra mão

Anais - Livro XV

A guerra parta, o grande incêndio de Roma e a perseguição aos cristãos

Sobre a obra

Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.

Este é o Livro XV, que trata da guerra contra os partos na Armênia, do grande incêndio de Roma em 64 d.C. e da perseguição que Nero moveu contra os cristãos logo depois. É o livro mais citado dos Anais, e a razão é o capítulo 44.

O incêndio de Roma e o citaredo

O incêndio começou em julho de 64 e queimou por dias. Tácito registra que, enquanto a cidade ardia, corria o boato de que Nero havia subido a um palco privado para cantar a destruição de Troia, acompanhando-se à cítara. Nero levava a sério a carreira de citaredo, o que tornava o boato verossímil aos romanos, e é dele que descende a imagem popular do imperador tocando enquanto Roma queimava.

Tácito relata o boato como boato, e não o afirma. Registra também as medidas de socorro que Nero tomou, abrindo campos e edifícios aos desabrigados e baixando o preço do trigo, e observa que nada disso dissipou a suspeita. Foi para desviar essa suspeita, escreve ele, que o imperador escolheu culpados.

A passagem sobre Cristo

No capítulo 44 Tácito explica quem eram os culpados escolhidos. Diz que o nome vinha de Cristo, que fora executado sob o reinado de Tibério por sentença do procurador Pôncio Pilatos, e que a superstição, contida por um momento, irrompera de novo na Judeia e chegara a Roma. Descreve em seguida os suplícios: cobertos com peles de feras e despedaçados por cães, crucificados, ou queimados para servir de iluminação noturna.

O peso do texto está em quem escreve. Tácito é hostil aos cristãos, chama a fé deles de superstição perniciosa e não tem interesse algum em confirmar nada: é justamente por isso que a passagem é tratada como uma das evidências não cristãs mais fortes de que Jesus existiu e foi executado por ordem romana.

(Anais - Livro XV 3:44)

O que é debatido

A autenticidade da passagem é aceita pela grande maioria dos especialistas, e as objeções conhecidas não a derrubaram, mas convém saber quais são. O texto dos livros XI a XVI depende de um único manuscrito, o Segundo Medíceo, copiado em Monte Cassino no século 11, o que significa que não há como colacionar cópias independentes. Nesse manuscrito a palavra aparece grafada como Chrestianos, com correção posterior para Christianos, grafia que também é atestada em outras fontes antigas e que os copistas confundiam.

Há ainda um detalhe de título: Tácito chama Pilatos de procurador, e a inscrição encontrada em Cesareia em 1961 mostra que o cargo dele era prefeito. A explicação usual é que Tácito usou o termo corrente em sua própria época, quando o cargo já se chamava assim, o que é um anacronismo de vocabulário e não sinal de falsificação.

O que a passagem estabelece é limitado e vale enunciar com precisão. Ela confirma que, no início do século 2, um senador romano bem informado tinha como fato que Cristo existiu e foi executado por Pilatos sob Tibério, e que havia cristãos em Roma em número suficiente para servirem de bode expiatório em 64. Ela não confirma milagres nem ressurreição, e Tácito quase certamente reporta o que sabia por via administrativa e pelos próprios cristãos, não por arquivo.

Relevância para a fé cristã

Esta é uma das três fontes romanas que mencionam os cristãos na primeira geração após os apóstolos, ao lado da carta de Plínio, o Jovem, a Trajano e da passagem de Suetônio. Juntas, elas mostram um movimento já presente na capital do império, perseguido, e identificado por um fundador executado. As cartas de Plínio estão hospedadas aqui e são o complemento natural desta leitura.

(Cartas - Livro X 96:1-3)