Anais - Livro XIV 4
O assassinato de Agripina e os excessos de Nero
Então, em sua alegria, o povo subiu ao Capitólio e enfim rendeu graças aos deuses. Derrubaram as estátuas de Popeia, carregaram nos ombros as imagens de Octávia, cobriram-nas de flores e ergueram-nas no foro e nos templos. Houve até aclamações em louvor ao príncipe, com a multidão saudando Octávia restituída. Já enchiam o Palácio com seu número e seus brados quando destacamentos de soldados saíram e dispersaram a turba revolta com golpes e ferro em riste. As mudanças feitas durante o tumulto foram revertidas e as honras de Popeia restauradas. Sempre cruel por ódio, ela agora também o era por medo, temendo que a violência da plebe a atacasse com fúria ainda maior ou que Nero se deixasse levar pela inclinação popular. Lançando-se a seus joelhos, declarou que não estava na posição de uma rival que disputa um casamento, embora isso lhe fosse mais caro que a vida, mas que a própria vida fora levada ao extremo perigo pelos dependentes e escravos de Octávia, que tomaram para si o nome do povo e ousaram em paz o que dificilmente aconteceria em guerra. Aquelas armas foram tomadas contra o príncipe; só faltava um líder, e este se acharia facilmente numa comoção. Bastava que ela, a cujo simples aceno, mesmo ausente, se erguiam tumultos, deixasse a Campânia e marchasse em pessoa para a cidade. E, afinal, qual era o seu próprio delito? Que ofensa causara a alguém? Seria por estar prestes a dar à casa dos Césares uma descendência legítima? Preferiria o povo romano que a prole de um flautista egípcio fosse elevada ao trono imperial? Em suma, se isso convinha aos negócios, que Nero por vontade própria, e não por força, mandasse buscar a senhora, ou então cuidasse de sua própria segurança. Com justa vingança e remédios moderados, os primeiros distúrbios costumam ser apaziguados; mas, se uma vez desesperassem de Octávia ser esposa de Nero, logo lhe dariam um marido.
Esse discurso variado, calculado para inspirar medo e ira, ao mesmo tempo aterrorizou e inflamou quem o ouvia. Mas a suspeita pesava pouco sobre o escravo e fora desfeita pelo interrogatório das escravas sob tortura. Decidiu-se, então, obter a confissão de alguém a quem também se pudesse imputar o crime de intentos revolucionários. Pareceu idôneo para isso o executor da morte da mãe, Aniceto, que comandava a frota em Miseno, como já mencionei. Após o crime cometido, ele tivera escasso favor e, depois, ódio mais grave, pois os que servem de instrumento a maus feitos são vistos como uma espécie de censura viva. O César mandou chamá-lo e lembrou-lhe o serviço anterior: só ele socorrera a vida do príncipe contra uma mãe que conspirava; agora se abria a chance de um favor não menor, se afastasse a esposa hostil. Não eram precisos mão nem arma: bastava confessar adultério com Octávia. Prometeu-lhe, por ora em segredo, mas grandes recompensas e amenos retiros, ou, se recusasse, ameaçou-o de morte. Aniceto, com sua insensatez natural e a facilidade de seus crimes anteriores, inventou ainda mais do que lhe fora ordenado e confessou diante dos amigos que o príncipe convocara como espécie de conselho. Foi então desterrado para a Sardenha, onde suportou um exílio sem pobreza e morreu de causa natural.
Nero, por sua vez, declarou em édito que o prefeito fora corrompido para conquistar a frota e, esquecido da acusação de esterilidade que pouco antes fizera, acrescentou que Octávia, consciente de suas devassidões, provocara abortos, fato que ele próprio averiguara. E confinou-a na ilha de Pandatária. Nenhum outro exílio comoveu os olhos dos que o viam com maior compaixão. Alguns ainda se lembravam de Agripina, banida por Tibério, e mais recente estava a memória de Júlia, expulsa por Cláudio; mas a elas restava o vigor da idade, tinham visto alguns dias felizes e aliviavam a crueldade presente com a lembrança de uma fortuna que fora melhor. Para esta, ao contrário, o dia das núpcias logo fizera as vezes de funeral, levada a uma casa onde nada havia senão luto, com o pai arrebatado pelo veneno e, logo em seguida, o irmão; depois, uma escrava mais poderosa que a senhora, e Popeia desposada só para a ruína da esposa, e, por fim, uma acusação mais terrível que qualquer morte.
E agora a jovem, em seu vigésimo ano de idade, cercada de centuriões e soldados, já arrancada da vida pelo presságio das desgraças, ainda não se conformava com a morte. Poucos dias depois, recebeu ordem de morrer, embora protestasse que era agora viúva e apenas irmã, e invocasse os Germânicos, seus antepassados comuns, e por fim o nome de Agripina, em cuja vida suportara um casamento infeliz, é verdade, mas não fatal. Foi atada com cordas e abriram-lhe as veias de todos os membros; e, como o sangue, retido pelo pavor, escorria lento demais, foi morta pelo vapor de um banho fervente. A isso se somou crueldade ainda mais atroz: Popeia contemplou a cabeça decepada e levada à cidade. Por tudo isso foram decretadas oferendas aos templos. Até quando havemos de registrar tais coisas? Quem vier a conhecer as calamidades daquele tempo, em minha obra ou na de outros autores, tenha por certo que, tantas vezes quantas o príncipe ordenou exílios e mortes, outras tantas se renderam graças aos deuses; e o que antes assinalava acontecimentos prósperos passou a ser sinal de desastre público. Ainda assim, não silenciarei se algum decreto do senado se distinguiu por nova bajulação ou pela mais baixa servilidade.
Naquele mesmo ano, acreditou-se que Nero matara com veneno dois de seus libertos mais poderosos: Doríforo, sob o pretexto de ter-se oposto ao casamento com Popeia, e Palante, por reter, em sua longa velhice, uma fortuna imensa. Romano acusara Sêneca, em calúnias secretas, de ser cúmplice de Caio Pisão, mas foi ele próprio derrubado com mais força por Sêneca, sob a mesma acusação. Daí nasceu em Pisão o medo, e a partir disso surgiu uma vasta e malograda trama de conspiração contra Nero.