Anais - Livro XIV 3

O assassinato de Agripina e os excessos de Nero

Naquele mesmo ano, dois crimes notáveis foram cometidos em Roma, um por um senador, o outro pela audácia de um escravo. Domício Balbo era um ex-pretor, exposto a intrigas tanto pela velhice avançada quanto pela falta de filhos e pela fortuna. Um parente seu, Valério Fabiano, destinado a galgar honras, falsificou um testamento, associando a si os cavaleiros romanos Vinício Rufino e Terêncio Lentino. Estes haviam recrutado Antônio Primo e Asínio Marcelo. Antônio era pronto na audácia; Marcelo, ilustre por ser bisneto de Asínio Polião, tinha um caráter que não se podia desprezar, salvo por julgar a pobreza o maior dos males. Assim Fabiano selou as tábuas do testamento com os cúmplices que mencionei e outros menos ilustres. O crime foi provado diante dos senadores, e Fabiano e Antônio, com Rufino e Terêncio, foram condenados sob a lei Cornélia. A memória dos antepassados e os apelos do imperador livraram Marcelo da pena, mas não da infâmia.
Aquele mesmo dia atingiu também Pompeu Eliano, um jovem ex-questor, acusado de conhecer os crimes de Fabiano, e ficou-lhe proibida a permanência na Itália e na Hispânia, onde nascera. Com igual desonra foi punido Valério Pôntico, por ter levado os réus diante do pretor para que não fossem acusados perante o prefeito da cidade, pretendendo, sob aparência de legalidade, e depois por conluio, frustrar a punição. Acrescentou-se ao decreto do senado que quem comprasse ou vendesse tal serviço ficaria sujeito à mesma pena que o condenado por calúnia em juízo público.
Pouco depois, o prefeito da cidade, Pedânio Secundo, foi assassinado por um escravo seu, fosse porque lhe fora negada a liberdade pela qual ajustara um preço, fosse porque, inflamado pelo amor de um jovem favorito, não suportava ter o senhor como rival. Mas como o antigo costume exigia que toda a escravaria que vivera sob o mesmo teto fosse levada à execução, com o ajuntamento da plebe, que protegia tantos inocentes, chegou-se quase a uma sedição, e o senado foi cercado. Dentro dele mesmo havia simpatias dos que repudiavam o rigor excessivo, embora a maioria julgasse que nada se devia mudar. Entre estes, Caio Cássio expôs sua opinião, quando chegou sua vez, nestes termos:
"Muitas vezes, senadores, estive presente nesta assembleia quando se exigiam novos decretos do senado contra as instituições e leis dos antepassados; e não me opus, não porque duvidasse de que em todos os assuntos se providenciara melhor e mais corretamente no passado, e de que o que se mudava se alterava para pior, mas para não parecer que exaltava meu próprio empenho por amor excessivo dos costumes antigos. Ao mesmo tempo, julgava que a autoridade que em mim não devia ser destruída por contestações frequentes, para que permanecesse íntegra, caso a república algum dia precisasse de meus conselhos. Isso aconteceu hoje, com um homem de posição consular assassinado em sua própria casa pela traição de um escravo, que ninguém impediu nem denunciou, ainda que não estivesse abalado o decreto do senado que ameaçava toda a escravaria com a execução. Decretai a impunidade, por Hércules: mas a quem defenderá sua dignidade, quando não serviu de nada ao prefeito da cidade? A quem protegerá o número de escravos, quando quatrocentos não protegeram Pedânio Secundo? A quem socorrerá sua escravaria, que, nem mesmo no medo, atenta para os nossos perigos? Ou, como alguns não se envergonham de inventar, o assassino vingou suas próprias injúrias, porque negociara dinheiro herdado do pai ou porque lhe tiravam um escravo herdado do avô? Declaremos antes que o senhor foi morto com justiça.
"Apraz-vos buscar argumentos no que homens mais sábios deliberaram? Mas, ainda que tivéssemos agora de decidir pela primeira vez, acreditais que um escravo tomou a coragem de matar o senhor sem que lhe escapasse uma palavra ameaçadora, sem que dissesse nada por imprudência? Admitamos que ocultou o plano e preparou a arma sem que os outros soubessem: poderia atravessar a guarda noturna, abrir as portas do quarto, levar uma luz e consumar o crime sem que ninguém percebesse? Muitos indícios precedem o crime: se os escravos os denunciarem, podemos viver isolados entre muitos, seguros entre os receosos, e enfim, se for preciso morrer, não sem vingança entre os culpados. O temperamento dos escravos foi suspeito aos nossos antepassados, mesmo quando nasciam nas mesmas terras ou casas e desde logo recebiam afeição pelos senhores. Mas, depois que temos em nossas casas nações com ritos diversos, cultos estrangeiros ou nenhum, pelo medo se pode conter essa escória. Mas alguns inocentes perecerão. Pois também, quando de um exército derrotado um em cada dez é abatido a bastonadas, a sorte recai até sobre os valentes. Todo grande exemplo tem algo de injusto, mas o que prejudica indivíduos é compensado pela utilidade pública."
Ninguém ousou contradizer sozinho a opinião de Cássio, mas vozes discordantes respondiam, lamentando o número, ou a idade, ou o sexo, e a inegável inocência da maioria. Prevaleceu, contudo, o partido que decretava a execução. Mas não se podia obedecer, com a multidão amontoada e ameaçando com pedras e tochas. Então o imperador repreendeu o povo por edito e guarneceu com destacamentos militares todo o caminho por onde os condenados eram levados ao suplício. Cingônio Varrão propusera que também os libertos que tivessem vivido sob o mesmo teto fossem deportados da Itália. Isso foi proibido pelo príncipe, para que um costume antigo, que a misericórdia não suavizara, não fosse intensificado pela crueldade.
Sob os mesmos cônsules foi condenado Tarquício Prisco por extorsão, a pedido dos bitínios, com grande alegria dos senadores, que se lembravam de que ele havia acusado Estatílio Tauro, o procônsul de quem fora subordinado. Os recenseamentos pelas Gálias foram feitos por Quinto Volúsio, Séxtio Africano e Trebélio Máximo, sendo Volúsio e Africano rivais entre si pela nobreza. Como ambos desprezavam Trebélio, acabaram por elevá-lo acima de si mesmos.
Naquele ano morreu Mêmio Régulo, ilustre pela autoridade, pela constância e pela reputação, tanto quanto se permite a quem vive à sombra da grandeza imperial. Tão ilustre era que Nero, doente, com aduladores ao redor que diziam estar próximo o fim do império se algo lhe sucedesse pelo destino, respondeu que a república tinha um recurso. Perguntando-lhe então em quem precisamente, acrescentou: em Mêmio Régulo. Régulo, no entanto, viveu depois disso, protegido por sua vida reservada e pelo fato de ser de família de nobreza recente e de riqueza que não despertava inveja. Naquele ano Nero dedicou um ginásio e forneceu azeite a cavaleiros e senadores, à maneira fácil dos gregos.
Sob o consulado de Públio Mário e Lúcio Afínio, o pretor Antístio, de quem mencionei a conduta desregrada quando era tribuno da plebe, compôs versos injuriosos contra o príncipe e os divulgou num banquete concorrido, enquanto jantava na casa de Ostório Escápula. Em seguida foi denunciado por lesa-majestade por Cossuciano Capitão, que havia pouco recuperara a ordem senatorial pelos apelos de Tigelino, seu sogro. Foi a primeira vez que se reativou aquela lei; e acreditava-se que não se buscava tanto a morte de Antístio quanto a glória do imperador, para que, condenado pelo senado, ele o livrasse da morte pelo veto tribunício. E como Ostório declarara em seu testemunho nada ter ouvido, deu-se crédito às testemunhas adversas; e Júnio Marulo, cônsul designado, propôs que se tirasse ao réu a pretura e que fosse executado segundo o costume dos antepassados. Os demais concordando, Peto Trásea, com muita honra ao imperador e censurando asperamente Antístio, sustentou que não se devia decretar tudo o que um réu culpado merecesse sofrer, sob um príncipe tão excelente e estando o senado preso a nenhuma necessidade: o carrasco e o laço foram abolidos muito, e havia penas estabelecidas pelas leis, pelas quais se decretavam os suplícios sem crueldade dos juízes nem infâmia para a época. Antes, numa ilha, com os bens confiscados, quanto mais longa arrastasse o culpado a vida, tanto mais miserável ele seria em particular e tanto maior exemplo de clemência pública.
A liberdade de Trásea rompeu a servilidade dos outros, e depois que o cônsul permitiu a votação, passaram para sua opinião, com poucas exceções, entre as quais o mais pronto na adulação foi Aulo Vitélio, que provocava com insultos justamente os melhores homens e calava quando lhe respondiam, como costumam fazer os temperamentos covardes. Mas os cônsules, não ousando levar a cabo o decreto do senado, escreveram ao imperador sobre o consenso. Ele, hesitando entre a vergonha e a ira, por fim respondeu que Antístio, sem ser provocado por injúria alguma, proferira gravíssimos ultrajes contra o príncipe; que a punição fora pedida aos senadores e que era justo estabelecer uma pena proporcional à magnitude do delito. Quanto a ele, que teria impedido a severidade dos que sentenciavam, não obstava a moderação: que decidissem como quisessem, ficava-lhes dada também a liberdade de absolver. Lidas estas coisas e tais outras, com a ofensa manifesta, nem por isso os cônsules mudaram a proposta, nem Trásea desistiu da opinião, nem os demais abandonaram o que haviam aprovado: uns para não parecer que expunham o príncipe ao ódio, a maioria seguros pelo número, Trásea pela habitual firmeza de ânimo e para que sua glória não se apagasse.
Por crime semelhante foi atingido Fabrício Vejento, por ter composto muitas coisas injuriosas contra os senadores e os sacerdotes naqueles livros aos quais dera o nome de "Codicilos". O acusador Túlio Gemino acrescentava que ele vendera favores do príncipe e o direito de obter honras. Essa foi a razão de Nero assumir o julgamento, e, condenado Vejento, expulsou-o da Itália e ordenou que os livros fossem queimados. Estes foram procurados e lidos avidamente enquanto era arriscado consegui-los; depois a liberdade de possuí-los trouxe o esquecimento.
Mas, agravando-se a cada dia os males públicos, os apoios diminuíam, e Burro deixou a vida, incerto se por doença ou por veneno. A doença era conjeturada pelo fato de que, inchando-lhe a garganta aos poucos por dentro e obstruída a passagem, ele cessou de respirar. Muitos afirmavam que, por ordem de Nero, sob o pretexto de aplicar um remédio, lhe untaram o palato com uma droga venenosa, e que Burro, percebendo o crime, quando o príncipe veio visitá-lo, desviou os olhos de seu rosto e, ao ser interrogado, respondeu apenas: "Eu estou bem." A cidade guardou grande saudade dele, pela memória de sua virtude e pela inação inócua de um dos sucessores e os escândalos flagrantíssimos do outro. Pois o imperador colocara dois homens à frente das coortes pretorianas: Fênio Rufo, pelo favor do povo, porque administrava o abastecimento de grãos sem lucro próprio, e Sofônio Tigelino, seguindo nele a inveterada devassidão e infâmia. E eles foram tais quais seus caracteres conhecidos: Tigelino mais forte no ânimo do príncipe e admitido em suas mais íntimas devassidões; Rufo, com boa fama junto ao povo e aos soldados, o que junto a Nero lhe era adverso.
A morte de Burro abalou o poder de Sêneca, porque a virtude não tinha a mesma força, removido um de seus apoios, por assim dizer, e Nero inclinava-se para os piores. Estes atacaram Sêneca com várias acusações: de que ainda aumentava uma riqueza imensa e elevada além da medida de um particular; de que voltava para si a simpatia dos cidadãos; e de que até na amenidade dos jardins e na magnificência das vilas quase superava o príncipe. Censuravam-no também por reivindicar para si a glória da eloquência e por compor versos com mais frequência, depois que o amor por eles surgira em Nero. Pois, abertamente hostil aos divertimentos do príncipe, depreciava sua habilidade ao conduzir cavalos e ridicularizava sua voz quando cantava. Até quando nada de notável haveria na república que não se cresse ter sido inventado por ele? Certamente a infância de Nero terminara e estava presente o vigor da juventude: que dispensasse o mestre, instruído como estava por bastante amplos preceptores, seus antepassados.
Mas Sêneca, não ignorando os caluniadores, denunciados por aqueles que tinham algum cuidado com a honra, e como o imperador cada vez mais rejeitava sua intimidade, pediu tempo para uma conversa, e, concedida esta, começou assim: "Faz catorze anos, César, que fui aproximado de tuas esperanças, e oito que detéis o império: no tempo intermédio acumulaste sobre mim tantas honras e riquezas que nada falta à minha felicidade a não ser a moderação dela. Usarei de grandes exemplos, não da minha fortuna, mas da tua. Teu trisavô Augusto concedeu a Marco Agripa o retiro de Mitilene e a Caio Mecenas, dentro da própria cidade, como que um ócio de estrangeiro. Um deles foi companheiro nas guerras, o outro, atormentado em Roma por muitos trabalhos, receberam recompensas amplas, é certo, mas proporcionais a seus enormes méritos. Eu, que outra coisa pude trazer à tua generosidade senão estudos cultivados, por assim dizer, à sombra, e aos quais veio fama por eu parecer ter assistido aos primeiros passos de tua juventude, grande preço dessa coisa? Mas tu me cercaste de imensa influência e de incontável dinheiro, a tal ponto que muitas vezes revolvo comigo mesmo: eu, nascido de condição equestre e provincial, sou contado entre os próceres da cidade? Entre os nobres que ostentam longas glórias, brilhou a minha origem nova? Onde está aquele ânimo contente com pouco? É este que constrói tais jardins, e passeia por estes arredores, e transborda de tão vastas extensões de terras, de tão amplos rendimentos? Uma defesa me ocorre: que eu não devia resistir aos teus dons.
"Mas ambos preenchemos a medida, tu, quanto um príncipe pode dar a um amigo, e eu, quanto um amigo pode receber de um príncipe: o resto aumenta a inveja. Esta, como todas as coisas mortais, jaz abaixo de tua grandeza, mas pesa sobre mim, e a mim é preciso socorrer. Assim como, cansado na guerra ou na estrada, pediria um apoio, do mesmo modo, nesta jornada da vida, velho e incapaz até dos cuidados mais leves, que não posso sustentar mais minha riqueza, peço amparo. Manda que os bens sejam administrados pelos teus procuradores e recolhidos à tua fortuna. Não me lançarei à pobreza, mas, entregues as coisas cujo brilho me ofusca, voltarei para o ânimo o tempo que se reserva ao cuidado dos jardins ou das vilas. Resta-te o vigor e o governo do mais alto poder, visto por tantos anos: podemos, nós, amigos mais velhos, reclamar o descanso. Isso também reverterá em tua glória, ter elevado ao mais alto homens que também suportariam o pouco."
A isso Nero respondeu mais ou menos assim: "O fato de eu responder de imediato ao teu discurso preparado, isso primeiro devo ao teu dom, tu que me ensinaste a tratar não do previsto, mas também do imprevisto. Meu trisavô Augusto concedeu a Agripa e a Mecenas usufruir o ócio depois dos trabalhos, mas naquela idade em que sua própria autoridade amparava o que quer que e de qualquer espécie tivesse concedido; e, ainda assim, não privou nenhum dos dois das recompensas dadas por ele. Tinham-nas merecido na guerra e nos perigos, pois neles transcorreu a juventude de Augusto. Nem a mim teriam faltado tuas armas e tuas mãos, se eu agisse em guerra; mas, como exigia a condição presente, com a razão, o conselho e os preceitos, amparaste minha infância e depois minha juventude. E os teus dons para comigo, enquanto a vida durar, serão eternos: o que de mim tens, jardins, rendimentos e vilas, está sujeito aos acasos. E, embora pareça muito, muitos de modo algum à altura de teus talentos possuíram mais. Envergonho-me de mencionar os libertos que se mostram mais ricos: por isso até me coro de que tu, o primeiro em meu afeto, ainda não excedas a todos em fortuna.
"Mas tens uma idade vigorosa e suficiente para os negócios e o fruto deles, e nós ingressamos apenas nos primeiros espaços do império, a menos que por acaso te coloques abaixo de Vitélio, três vezes cônsul, ou a mim abaixo de Cláudio, e que minha liberalidade não possa preencher para ti tanto quanto a longa parcimônia conquistou para Volúsio. Por que antes, se em alguma parte minha juventude escorrega para o caminho perigoso, não me chamas de volta e não governas com mais empenho, com teu apoio, o vigor que ornaste? Não será tua moderação, se devolveres o dinheiro, nem teu sossego, se abandonares o príncipe, mas a minha avareza, o medo da minha crueldade, que andarão na boca de todos. E ainda que tua contenção seja muito louvada, não seria, contudo, digno de um homem sábio buscar para si glória de onde prepara infâmia ao amigo." A isto acrescenta abraços e beijos, formado pela natureza e exercitado pelo hábito a velar o ódio com lisonjas enganosas. Sêneca, que é o fim de todas as conversas com um senhor, agradeceu: mas mudou os hábitos de seu poder anterior, proibiu as reuniões dos que o saudavam, evitou os acompanhantes, raro pela cidade, como se a saúde debilitada ou os estudos da sabedoria o retivessem em casa.
Abatido Sêneca, foi fácil enfraquecer Fênio Rufo, fazendo da amizade de Agripina uma acusação contra ele. E Tigelino, mais poderoso a cada dia e julgando que as más artes, em que ele se sobressaía, seriam mais bem-vistas se prendesse o príncipe à sociedade dos crimes, sondou seus medos; e, tendo descoberto que Plauto e Sula eram os mais temidos, Plauto enviado havia pouco para a Ásia, Sula para a Gália Narbonense, recordou a nobreza deles e a proximidade de um com os exércitos do Oriente, do outro com os da Germânia. Dizia que ele, ao contrário de Burro, não visava esperanças divididas, mas a segurança de Nero; que contra as intrigas urbanas se acautelava de algum modo com sua presença, mas como se poderia conter os movimentos distantes? As Gálias estavam agitadas ao nome de ditador, e não menos suspensos os povos da Ásia pela glória do avô Druso. Sula era pobre, donde a sua audácia excepcional, e fingia indolência enquanto buscava ocasião para a temeridade. Plauto, com grandes riquezas, nem sequer fingia desejo de descanso, mas ostentava imitações dos antigos romanos, assumindo também a arrogância dos estoicos e a seita que torna os homens inquietos e ávidos de negócios. E não houve mais demora. Sula, no sexto dia, levados os assassinos a Marselha, é morto antes do medo e do boato, enquanto se reclinava à mesa para o banquete. Trazida sua cabeça, Nero zombou dela como deformada por precoces cãs.
Que se preparava a morte de Plauto não foi tão secreto, porque sua salvação interessava a muitos, e a distância da viagem, do mar e o tempo decorrido tinham gerado boatos; e o povo inventava que ele havia procurado Corbulão, então à frente de grandes exércitos e, se homens ilustres e inocentes fossem mortos, especialmente exposto aos perigos. Mais ainda, que a Ásia tomara armas pelo favor ao jovem, e que os soldados enviados ao crime, não sendo válidos em número nem prontos no ânimo, depois de não conseguirem cumprir as ordens, tinham passado para as novas esperanças. Essas tolices, à maneira dos boatos, eram aumentadas pelo ócio dos crédulos. Mas um liberto de Plauto, pela rapidez dos ventos, antecipou-se ao centurião e trouxe as ordens de seu sogro Lúcio Antístio: que evitasse uma morte covarde, enquanto havia refúgio; pela compaixão por um grande nome encontraria homens bons e reuniria audazes, e nenhum recurso, por enquanto, devia ser desprezado. Se repelisse os sessenta soldados (pois tantos vinham), enquanto a notícia era levada a Nero, enquanto outra tropa percorria o caminho, seguir-se-iam muitos eventos que cresceriam até a guerra. Enfim, ou se buscava a salvação por tal plano, ou nada de mais grave teria de sofrer quem ousasse do que quem ficasse inativo.
Mas isso não comoveu Plauto, fosse porque, desarmado e exilado, não previa socorro algum, fosse por tédio de uma esperança incerta, ou por amor da esposa e dos filhos, com quem julgava que o príncipe seria mais brando se não fosse perturbado por nenhuma inquietação. quem conte que outras mensagens vieram do sogro, dizendo que nada de atroz o ameaçava; e que os mestres da sabedoria, o grego Cerano e o etrusco Musônio, aconselharam a firmeza de esperar a morte em vez de uma vida incerta e angustiada. De fato, foi surpreendido em pleno meio-dia, nu, a exercitar o corpo. Nesse estado o centurião o trucidou, na presença do eunuco Pélago, a quem Nero pusera à frente do centurião e do destacamento, como um ministro régio sobre seus satélites. A cabeça do morto foi trazida; ao vê-la (reproduzirei as próprias palavras do príncipe) ele disse: "Por que, Nero..." E, deposto o medo, prepara-se para apressar o casamento com Popeia, adiado por temores desse tipo, e para afastar a esposa Otávia, que, embora vivesse com recato, lhe era incômoda pelo nome do pai e pela simpatia do povo. Mas enviou ao senado uma carta sobre a morte de Sula e de Plauto, sem confessá-la, mas dizendo que ambos tinham índole turbulenta e que ele cuidava com grande zelo da segurança da república. Foram decretadas, por esse motivo, ações de graças, e que Sula e Plauto fossem expulsos do senado, escárnios mais graves do que os próprios males.
Então, recebido o decreto dos senadores, depois de ver que todos os seus crimes eram acolhidos como ações ilustres, expulsou Otávia, alegando que era estéril, e em seguida uniu-se a Popeia. Esta, por muito tempo concubina e adúltera de Nero, depois senhora dele como marido, induziu um dos servos de Otávia a acusá-la de um amor servil. Foi designado réu um de cognome Eucero, de origem alexandrina, instruído em tocar flauta. Por isso fizeram-se interrogatórios das escravas, e, embora algumas, vencidas pela força das torturas, consentissem em falsidades, a maioria persistiu em defender a honra da senhora; entre elas, uma respondeu a Tigelino, que a pressionava, que as partes íntimas de Otávia eram mais castas do que a boca dele. Otávia, no entanto, foi afastada primeiro sob a aparência de um divórcio comum, e recebeu a casa de Burro e as propriedades de Plauto, dons funestos: depois foi expulsa para a Campânia, com guarda militar acrescentada. Daí vieram queixas frequentes e não ocultas entre o povo, que tem menos prudência e, pela condição modesta de sua fortuna, está exposto a menos perigos. Diante disso, como se Nero se arrependesse do crime, chamou de volta a esposa Otávia.