Capítulos

Anais - Livro XIV
O assassinato de Agripina e os excessos de Nero
Sobre a obra
Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.
Este é o Livro XIV, que vai de 59 a 62 d.C. É o livro em que a tutela acaba. Ele abre com o assassinato de Agripina, a mãe do imperador, passa pela revolta de Boudica na Britânia, e fecha com a morte de Burro, o afastamento de Sêneca e a execução de Otávia. No começo Nero é governado; no fim, não é mais.
O assassinato de Agripina
Tácito atribui a decisão ao estorvo que a mãe representava para o caso com Popeia. O plano é montado por Aniceto, liberto e comandante da frota de Miseno: um navio construído para desabar no mar, de modo que a morte parecesse acidente. O convite é uma reconciliação encenada durante a festa de Minerva, em Baias, com beijos e cortesias na despedida.
O mecanismo funciona pela metade. O teto desaba, o navio não afunda direito, e Agripina nada até a praia. Ao saber que ela vive, Nero entra em pânico e manda Aniceto terminar o serviço em terra. Tácito registra que, cercada no quarto, ela apontou o ventre e mandou golpear ali, o lugar que gerara aquele filho. A frase é o tipo de detalhe que a historiografia antiga transmite sem poder verificar, e Tácito, em outro ponto, admite que há versões concorrentes sobre a cena.
O que vem depois é tão relevante quanto o crime. Nero escreve ao senado alegando que a mãe conspirava contra ele, e o senado decreta ações de graças. Tácito nota que a carta foi redigida por Sêneca, e que o corpo político de Roma ratificou um matricídio por escrito. É esse consentimento, mais que a violência do imperador, o alvo permanente da obra.
A revolta de Boudica na Britânia
Em 60 ou 61, a província britânica se levanta. O gatilho é fiscal e patrimonial: morto o rei Prasutago, dos icenos, que deixara metade do reino ao imperador na expectativa de proteger o resto, oficiais romanos tomam tudo. Tácito escreve que a viúva Boudica foi açoitada e que suas filhas foram violadas, e que a nobreza icena foi despojada.
A revolta destrói Camuloduno, Londínio e Verulâmio, e Tácito dá o número de setenta mil mortos entre romanos e aliados. O governador Suetônio Paulino, que estava atacando a ilha de Mona, volta e vence uma batalha em terreno estreito, apesar da inferioridade numérica. Ele põe na boca de Boudica um discurso antes do combate, dizendo que vinga não a linhagem mas a liberdade perdida. Como todos os discursos da historiografia antiga, é composição do historiador. Os números de mortos também são estimativas retóricas, não contagem.
A arqueologia confirma o núcleo do relato. Camadas de destruição por incêndio datadas do mesmo período foram escavadas em Colchester, Londres e St Albans, as três cidades nomeadas por Tácito. A escala exata dos massacres e as falas continuam fora de alcance da evidência material.
Os quatrocentos escravos de Pedânio
O prefeito da cidade, Pedânio Secundo, é assassinado por um escravo seu. A lei antiga mandava executar toda a escravaria que morava sob o mesmo teto: quatrocentas pessoas, incluindo mulheres e crianças. O povo se amotina contra a execução, o senado debate, e prevalece o discurso de Caio Cássio Longino, jurista, que argumenta que o medo é o único fio que segura uma casa cheia de estrangeiros e que a justiça exemplar tem sempre algo de injusto no caso individual.
A sentença é cumprida com tropas alinhadas pelo caminho. O episódio é uma das descrições mais diretas que temos da lógica da escravidão romana vista de dentro, escrita por um senador que não a contesta em princípio e ainda assim registra a revolta popular contra ela.
A morte de Burro e o recuo de Sêneca
Em 62 morre Burro, de doença na garganta, e Tácito relata que se falava em veneno sem afirmar que houve. Com ele sai o contrapeso militar. A prefeitura do pretório é dividida, e ganha peso Tigelino, que Tácito apresenta como o conselheiro dos piores instintos do imperador.
Sêneca entende a mudança e pede para se retirar, oferecendo devolver a fortuna que acumulou no cargo. Tácito compõe o pedido e a recusa como um par de discursos, e a recusa de Nero é cortês e vazia. O filósofo passa a viver afastado, alegando saúde e estudos. Ele será obrigado a se matar depois da conspiração de Pisão, episódio que está no Livro XV.
A morte de Otávia
Nero se divorcia de Otávia, filha de Cláudio, alegando esterilidade, e casa com Popeia. Há protesto popular na cidade em favor da repudiada, o que sela o destino dela. Fabrica-se então uma acusação de adultério com Aniceto, o mesmo que matara Agripina, e Otávia é desterrada para a ilha de Pandatária e morta ali, com cerca de vinte anos. Tácito descreve o corpo mutilado e a cabeça levada a Roma para Popeia ver, e comenta que o senado decretou oferendas nos templos por isso.
Por que este livro importa
Os anos de 59 a 62 são os da prisão de Paulo em Cesareia e da viagem a Roma narrada em Atos 24 a 28. O imperador a quem Paulo apela quando diz que quer ser julgado por César é este Nero, no exato intervalo coberto por este livro, e o prefeito do pretório em Roma até 62 é Burro, cuja morte Tácito narra aqui. A cronologia é reconstruída, não datada por fonte direta, e há margem de um ou dois anos nas propostas dos estudiosos.
O valor do livro, do ponto de vista de quem estuda o contexto do Novo Testamento, é mostrar o que o poder romano fazia com os seus próprios, em Roma, dois anos antes do incêndio. A perseguição de 64 não cai sobre um governo estável e legalista: cai sobre um regime que já matara a mãe, a esposa e quatrocentos escravos por procedimento regular. A narrativa desses acontecimentos está no Livro XV.