Anais - Livro XIV 2

O assassinato de Agripina e os excessos de Nero

No quarto consulado de Nero, tendo Cornélio Cosso por colega, instituiu-se em Roma um espetáculo quinquenal à maneira das competições gregas. Como toda novidade, gerou opiniões divididas. Havia quem lembrasse que até Cneu Pompeu fora censurado pelos mais velhos por ter erguido uma sede fixa para o teatro. Antes, os jogos costumavam ser oferecidos em arquibancadas improvisadas e palco montado para a ocasião; e, se quiserem recuar a tempos ainda mais antigos, o povo assistia de pé, para que, sentado no teatro, não consumisse dias inteiros em ociosidade. Que se conservasse a antiguidade dos espetáculos, sempre que os pretores os oferecessem, sem que nenhum cidadão fosse obrigado a competir. Mas os costumes pátrios, aos poucos abandonados, eram agora subvertidos pela raiz por uma lascívia importada, de modo que tudo o que em qualquer parte pudesse corromper e ser corrompido se via na cidade, e a juventude degenerava por gostos estrangeiros, exercitando ginásios, ócios e amores torpes, com o príncipe e o senado por incentivadores, que não permitiam a licença aos vícios, mas até empregavam força para que nobres romanos se manchassem no palco a pretexto de discursos e poemas. Que restava senão que desnudassem também os corpos, vestissem os cestos e ensaiassem essas lutas no lugar do serviço militar e das armas? Acaso se promoveria a justiça, ou as decúrias de cavaleiros cumpririam melhor o nobre dever de julgar, por terem ouvido com perícia tons quebrados e a doçura das vozes? Até as noites se acrescentaram à desonra, para que nenhum tempo restasse ao pudor, mas em ajuntamento promíscuo cada um dos mais perdidos ousasse nas trevas o que cobiçara de dia.
À maioria agradava a própria licença, e ainda assim a encobriam com nomes honestos. Os antepassados também não tinham repugnado os deleites dos espetáculos, na medida da fortuna que então existia, e por isso trouxeram histriões dos etruscos e corridas de cavalos de Túrios; e, possuídas a Acaia e a Ásia, ofereceram-se jogos com mais cuidado, sem que ninguém em Roma de origem honesta tivesse degenerado para as artes teatrais nos duzentos anos transcorridos desde o triunfo de Lúcio Múmio, que primeiro exibiu esse gênero de espetáculo na cidade. E havia também consideração pela economia, pois se destinou uma sede permanente ao teatro, em vez de erguê-la e desmontá-la a cada ano com gasto imenso. Os magistrados não esgotariam o patrimônio do mesmo modo, nem o povo teria motivo para exigir deles competições gregas, uma vez que o Estado arcaria com tal despesa. As vitórias de oradores e poetas trariam estímulo aos talentos; e a nenhum juiz seria penoso dedicar os ouvidos a estudos honestos e a prazeres permitidos. Mais à alegria que à lascívia se davam poucas noites de todo o quinquênio, em que, sob tamanho fulgor de luzes, nada ilícito poderia ocultar-se. De fato, o espetáculo passou sem nenhuma desonra notável; e nem mesmo os ânimos da plebe se inflamaram de leve, porque os pantomimos, ainda que readmitidos ao palco, foram proibidos das competições sagradas. Ninguém levou o primeiro prêmio de eloquência, mas proclamou-se que César era o vencedor. As vestes gregas, com que muitos se apresentaram naqueles dias, então caíram em desuso.
Em meio a isso, brilhou no céu um cometa, a respeito do qual a opinião do vulgo é que pressagia mudança de rei. Assim, como se Nero estivesse deposto, indagavam quem seria escolhido; e na boca de todos celebrava-se Rubélio Plauto, cuja nobreza vinha, pela mãe, da família Júlia. Ele mesmo cultivava os preceitos dos antepassados, de aspecto severo, com casa casta e reservada, e quanto mais oculto pelo medo, tanto mais fama alcançava. Aumentou o boato uma interpretação de um raio, nascida de igual frivolidade. Pois, enquanto Nero ceava à mesa nas lagoas Simbruínas, numa villa de nome Subláqueo, os pratos foram atingidos e a mesa derrubada, e isso ocorrera nos limites dos tiburtinos, donde vinha a origem paterna de Plauto, e por isso acreditavam que ele era o destinado pela vontade dos deuses; e muitos o favoreciam, gente cuja ambição ávida e quase sempre enganosa é cortejar de antemão causas novas e incertas. Abalado por isso, Nero redigiu uma carta a Plauto, mandando-o atender à tranquilidade da cidade e afastar-se dos que difundiam coisas perversas: tinha na Ásia campos herdados dos avós, em que poderia gozar a juventude seguro e em sossego. Assim, para retirou-se com a esposa Antístia e poucos íntimos. Nos mesmos dias, o excesso de desejo por luxo trouxe infâmia e perigo a Nero, porque nadara na fonte da água Márcia conduzida até a cidade; e parecia que, lavando o corpo, profanara as águas sagradas e a santidade do lugar. Uma doença incerta que se seguiu confirmou a ira dos deuses.
Corbulão, depois de destruída Artaxata, julgou que devia aproveitar o terror recente para ocupar Tigranocerta, de modo que, arrasando-a, aumentasse o medo dos inimigos, ou, poupando-a, ganhasse fama de clemência. Para marchou, sem exército hostil, para não tirar a esperança de perdão, mas sem afrouxar o cuidado, ciente de que aquele povo, fácil de mudar, era tão lento ante os perigos quanto infiel diante das ocasiões. Os bárbaros, cada um conforme seu temperamento, uns ofereciam súplicas, outros abandonavam as aldeias e dispersavam-se por lugares inacessíveis; e houve quem se escondesse em cavernas com o que tinha de mais caro. Assim, o general romano agiu por meios diversos: misericórdia com os suplicantes, rapidez contra os fugitivos, implacável com os que se haviam metido nos esconderijos, queimando com fogo as bocas e saídas das grutas, depois de enchê-las de sarmentos e ramos. E, enquanto ele avançava à frente de suas tropas, os mardos o atacaram, exercitados em latrocínios e defendidos pelos montes contra quem invadisse; Corbulão os devastou com os iberos que lançou sobre eles, e vingou a audácia inimiga com sangue estrangeiro.
Ele próprio e o exército, ainda que sem perdas em combate, iam exaurindo-se pela escassez e pelos trabalhos, forçados a afastar a fome com a carne dos rebanhos; somava-se a isso a penúria de água, o calor ardente e as longas marchas, que a paciência do general mitigava, suportando ele os mesmos males ou mais que o soldado raso. Chegou-se enfim a terras cultivadas e ceifaram-se as searas, e de duas fortalezas em que os armênios se haviam refugiado, uma foi tomada de assalto; os que repeliram o primeiro ataque renderam-se por cerco. Dali, passando à região dos tauraunícios, escapou de um perigo imprevisto. Pois, não longe de sua tenda, encontrou-se um bárbaro de não baixa condição com uma arma, que, sob tortura, revelou toda a trama da cilada, a si mesmo como autor e os cúmplices, e os que sob aparência de amizade preparavam o dolo foram convencidos e punidos. Pouco depois, enviados de Tigranocerta anunciaram que as muralhas estavam abertas e o povo atento às ordens: ao mesmo tempo, entregaram um presente de hospitalidade, uma coroa de ouro. Ele a recebeu com honra, e nada se subtraiu à cidade, para que, intactos, mantivessem mais prontamente a obediência.
Mas a guarnição de Legerda, que uma juventude feroz havia fechado, não se conquistou sem combate: pois ousaram travar batalha diante dos muros e, repelidos para dentro das fortificações, cederam ao aterro e às armas dos que irrompiam. Isso se conseguia com mais facilidade porque os partos estavam ocupados pela guerra hircânia. Os hircânios tinham enviado ao príncipe romano um pedido de aliança, mostrando que retinham Vologeso como penhor de amizade. Quando regressavam, Corbulão, para que não fossem cercados pelas guarnições inimigas ao atravessar o Eufrates, deu-lhes escolta e conduziu-os às margens do mar Vermelho, donde, evitados os limites dos partos, voltaram às pátrias moradas.
E ainda, quando Tiridates entrava pela Média nos confins da Armênia, Corbulão, tendo enviado à frente o legado Verulano com as tropas auxiliares e seguindo ele próprio com as legiões em marcha forçada, obrigou-o a recuar para longe e a abandonar a esperança de guerra; e, devastando com mortes e incêndios todos os que sabia hostis a nós, tomava posse da Armênia, quando chegou Tigranes, escolhido por Nero para assumir o poder, da nobreza dos capadócios, neto do rei Arquelau, mas que, por ter sido por muito tempo refém em Roma, descera a uma submissão servil. Não foi recebido por consenso, persistindo em alguns o favor pelos arsácidas: mas a maioria, detestando a soberba dos partos, preferia um rei dado pelos romanos. Acrescentou-se ainda uma guarnição de mil legionários, três coortes de aliados e duas alas de cavalaria, e, para que defendesse mais facilmente o novo reino, partes da Armênia, conforme a proximidade de cada um, foram mandadas obedecer a Farasmanes, Polemão, Aristóbulo e Antíoco. Corbulão retirou-se para a Síria, vaga pela morte do legado Umídio e entregue a ele.
No mesmo ano, das ilustres cidades da Ásia, Laodiceia, derrubada por um tremor de terra, recuperou-se com os próprios recursos, sem nenhum auxílio nosso. Na Itália, por sua vez, a antiga cidade de Putéolos obteve de Nero o direito de colônia e um sobrenome. Veteranos inscritos em Tarento e Âncio, contudo, não remediaram a escassez de habitantes dos lugares, tendo a maioria se dispersado pelas províncias em que cumprira o serviço; e, não acostumados a contrair casamentos nem a criar filhos, deixavam casas órfãs, sem descendência. Pois não se transferiam, como antigamente, legiões inteiras com tribunos, centuriões e soldados de cada ordem, de modo a formar um Estado por concórdia e afeto, mas homens desconhecidos entre si, de manípulos diversos, sem chefe, sem laços mútuos, como que de outro gênero de mortais reunidos de repente num lugar, mais um número que uma colônia.
As eleições de pretores, costumeiramente realizadas a critério do senado, o príncipe regulou, por terem se inflamado com disputa demasiado acirrada, pondo à frente de uma legião os três que pleiteavam acima do número. E aumentou a honra dos senadores, estabelecendo que os que apelassem de juízes privados ao senado corressem o mesmo risco de dinheiro que aqueles que recorressem ao imperador; pois antes esse recurso era livre e isento de pena. No fim do ano, Víbio Segundo, cavaleiro romano, acusado de extorsão pelos mauritanos, foi condenado e expulso da Itália, escapando de pena mais grave pela influência de seu irmão Víbio Crispo.
Sob o consulado de Cesênio Peto e Petrônio Turpiliano, sofreu-se na Britânia uma grave derrota; ali, o legado Aulo Dídio, como mencionei, apenas conservara o que fora conquistado, e seu sucessor Verânio, depois de devastar os silures em incursões modestas, foi impedido pela morte de levar a guerra adiante, com grande fama de severidade enquanto viveu, mas, nas últimas palavras do testamento, mostrou-se ambicioso: pois, com muita adulação a Nero, acrescentou que lhe teria submetido a província, se tivesse vivido os dois anos seguintes. Naquele momento, era Suetônio Paulino quem comandava os britanos, rival de Corbulão por conhecimento militar e pelo boato popular, que não deixa ninguém sem competidor, e desejoso de igualar a glória da reconquista da Armênia subjugando os inimigos. Assim, preparou-se para atacar a ilha de Mona, populosa de habitantes e refúgio de fugitivos, e construiu navios de fundo chato contra o mar raso e incerto. Desse modo passou a infantaria: a cavalaria seguiu pelo vau ou, em águas mais fundas, atravessou a nado ao lado dos cavalos.
Diante da costa erguia-se uma linha inimiga, densa de armas e homens, com mulheres correndo por entre as fileiras; à maneira das Fúrias, em vestes fúnebres, com os cabelos soltos, levavam tochas; e em volta os druidas, erguendo as mãos ao céu e proferindo terríveis imprecações, aterraram o soldado pela novidade do espectáculo, de modo que, como se os membros estivessem presos, expunham o corpo imóvel aos golpes. Depois, pelas exortações do general e estimulando-se a si mesmos a não temer um bando de mulheres e fanáticos, avançaram os estandartes, derrubaram os que se opunham e os envolveram no próprio fogo. Imposta em seguida uma guarnição aos vencidos, derrubaram-se os bosques consagrados a cultos cruéis: pois tinham por lícito banhar os altares com o sangue dos cativos e consultar os deuses pelas vísceras humanas. Enquanto Suetônio fazia isso, anunciou-se-lhe a súbita revolta da província.
Prasútago, rei dos icenos, célebre por longa prosperidade, escrevera como herdeiros César e suas duas filhas, julgando que, com tal submissão, poria o reino e a casa fora do alcance da injúria. Sucedeu o contrário, a tal ponto que o reino foi devastado por centuriões, e a casa por escravos, como se tomados por guerra. Logo de início, sua esposa Boudica foi açoitada com varas e as filhas violadas por estupro: os principais dos icenos, como se houvessem recebido toda a região como presente, foram despojados dos bens herdados dos avós, e os parentes do rei tidos como escravos. Por essa afronta e pelo medo de males piores, que tinham caído à condição de província, pegaram em armas, incitando à rebelião os trinóbantes e outros que, ainda não quebrados pela servidão, haviam pactuado em conspirações ocultas reaver a liberdade, com ódio acérrimo aos veteranos. Pois estes, recém-instalados na colônia de Camuloduno, expulsavam-nos das casas, escorraçavam-nos dos campos, chamando-os de cativos e escravos, com a soldadesca a favorecer a prepotência dos veteranos por semelhança de vida e esperança de igual licença. Além disso, o templo erguido ao divino Cláudio era visto como uma cidadela de dominação eterna, e os sacerdotes escolhidos, a pretexto de religião, esbanjavam todas as fortunas. E não parecia difícil arrasar a colônia, cercada por nenhuma fortificação; o que pouco fora previsto por nossos comandantes, enquanto se cuidava do agradável antes que do útil.
Em meio a isso, sem nenhuma causa aparente, a estátua da Vitória em Camuloduno desabou e virou-se para trás, como que cedendo aos inimigos. E mulheres tomadas de delírio anunciavam que a destruição estava iminente, e que se ouviram clamores estranhos na cúria deles; o teatro ressoou de uivos e viu-se no estuário do Tâmisa a imagem da colônia destruída: o oceano tinha aspecto sanguíneo, e, ao recuar a maré, ficaram efígies de corpos humanos, sinais interpretados pelos britanos como esperança e pelos veteranos como temor. Mas, como Suetônio estava longe, pediram auxílio ao procurador Cato Deciano. Ele não mandou mais que duzentos homens, sem armas adequadas; e havia ali uma escassa força de soldados. Confiados na proteção do templo e atrapalhados pelos que, cúmplices ocultos da rebelião, perturbavam os planos, não abriram fosso nem ergueram paliçada, nem, afastados os velhos e as mulheres, deixaram a juventude para resistir: como que em plena paz, descuidados, foram cercados por uma multidão de bárbaros. O resto, de fato, foi saqueado ou incendiado no ímpeto: o templo, em que o soldado se aglomerara, foi sitiado por dois dias e tomado. E o britano vitorioso, indo ao encontro de Petílio Cerial, legado da nona legião, que vinha em socorro, derrotou a legião e matou toda a infantaria: Cerial escapou com a cavalaria para o acampamento e protegeu-se nas fortificações. Por essa derrota e pelos ódios da província, que sua avareza arrastara à guerra, o procurador Cato, atemorizado, passou à Gália.
Mas Suetônio, com admirável firmeza, marchou por entre os inimigos até Londínio, não notável pelo título de colônia, mas muito frequentado pela abundância de negociantes e mercadorias. Ali, indeciso quanto a escolher ou não aquela sede para a guerra, observada a escassez de soldados e tendo a temeridade de Petílio sido refreada por exemplos bastante grandes, decidiu salvar o conjunto à custa da perda de uma cidade. E nem pelo pranto e pelas lágrimas dos que imploravam seu auxílio deixou de dar o sinal de partida e de receber em parte de sua coluna os que o acompanhassem: os que o sexo frágil ou a idade cansada ou a doçura do lugar retivera foram oprimidos pelo inimigo. A mesma ruína coube ao município de Verulâmio, porque os bárbaros, deixando de lado as fortalezas e guarnições militares, buscavam, contentes com o saque e indolentes para o trabalho, o que era mais rico de despojo e desprotegido para a defesa. Constou que cerca de setenta mil cidadãos e aliados caíram nos lugares que mencionei. Pois não se apressavam a aprisionar, vender ou fazer qualquer outro comércio de guerra, mas a matanças, forcas, fogos e cruzes, como que prestes a pagar o castigo e, entretanto, antecipando a vingança.
Suetônio tinha a décima quarta legião com os destacamentos da vigésima e os auxiliares das proximidades, cerca de dez mil armados, quando se preparou para deixar a demora e travar batalha em ordem. Escolheu um lugar de desfiladeiro estreito e fechado por trás por uma floresta, bem certo de que nada havia de inimigos a não ser pela frente, e que a planície aberta estava sem perigo de emboscadas. Assim, o legionário, cerrado em fileiras, com a tropa ligeira em volta e a cavalaria agrupada diante das alas, postou-se. Mas as tropas dos britanos exultavam por toda parte em bandos e esquadrões, multidão como nunca antes, e de ânimo tão feroz que arrastavam consigo até as esposas como testemunhas da vitória e as punham em carros que haviam colocado na extrema borda do campo.
Boudica, levando as filhas à frente num carro, à medida que se aproximava de cada povo, atestava que era costume dos britanos guerrear sob a chefia de mulheres, mas que então, não como descendente de tão grandes antepassados, vingava o reino e as riquezas, e sim, como uma do povo, a liberdade perdida, o corpo dilacerado por açoites, a castidade ultrajada das filhas. A cobiça dos romanos chegara a tal ponto que não deixavam impolutos os corpos, nem mesmo a velhice ou a virgindade. Estavam, contudo, presentes os deuses para uma justa vingança: caíra a legião que ousara o combate; os demais escondiam-se no acampamento ou procuravam a fuga. Não suportariam sequer o estrondo e o clamor de tantos milhares, muito menos o ataque e o corpo a corpo: se pesassem as forças armadas e as causas da guerra, naquela linha de batalha deveriam vencer ou morrer. Tal era a decisão de uma mulher: que os homens vivessem e servissem como escravos.
Nem mesmo Suetônio se calava em tamanho perigo: ainda que confiasse na coragem, misturava exortações e súplicas para que desprezassem os clamores dos bárbaros e suas ameaças vãs: ali se viam mais mulheres que jovens guerreiros. Inábeis para a guerra, sem armas, cederiam de imediato assim que reconhecessem o ferro e o valor dos vencedores que tantas vezes os haviam derrotado. Mesmo em muitas legiões, são poucos os que decidem os combates; e acresceria à glória deles que uma força modesta alcançasse a fama de todo um exército. Bastava que, cerrados e lançados os dardos, prosseguissem com os escudos e as espadas na carnificina e na matança, sem pensar no saque: conquistada a vitória, tudo lhes caberia. Esse ardor seguiu as palavras do general, e o soldado veterano, com muita experiência de combates, se aprontara para arremessar os dardos de tal modo que Suetônio, certo do desfecho, deu o sinal de batalha.
E primeiro a legião, imóvel em sua posição e mantendo a estreiteza do lugar como defesa, depois de esgotar os dardos com tiro certeiro sobre os inimigos que se aproximavam, irrompeu como em cunha. O mesmo foi o ímpeto dos auxiliares; e a cavalaria, com as lanças estendidas, rompia tudo o que se opunha e era forte. Os demais voltaram as costas, com fuga difícil, porque os carros postos ao redor haviam bloqueado as saídas. E o soldado não poupava nem a morte das mulheres, e os próprios animais de carga, trespassados pelos dardos, aumentavam a pilha de corpos. Naquele dia conquistou-se um louvor ilustre e igual ao das antigas vitórias: pois quem relate que caíram pouco menos de oitenta mil britanos, com cerca de quatrocentos soldados mortos e não muitos mais feridos. Boudica pôs fim à vida com veneno. E Penio Postumo, prefeito do acampamento da segunda legião, sabendo dos êxitos da décima quarta e da vigésima, por ter privado sua legião de igual glória e desobedecido, contra a disciplina militar, às ordens do general, trespassou-se com a própria espada.
Reunido então todo o exército, manteve-se sob tendas para concluir o resto da guerra. César aumentou as tropas, enviando da Germânia dois mil legionários, oito coortes de auxiliares e mil cavaleiros; com a chegada destes, os da nona foram completados com soldados legionários, as coortes e alas alojadas em novos quartéis de inverno, e tudo o que entre os povos fora incerto ou hostil foi devastado a ferro e fogo. Mas nada os afligia tanto quanto a fome, pois, descuidados em semear as searas e voltada toda idade para a guerra, contavam com os nossos suprimentos como se fossem seus. E os povos, ferocíssimos, inclinavam-se mais lentamente à paz, porque Júlio Classiciano, sucessor enviado no lugar de Cato e em desacordo com Suetônio, prejudicava o bem público por rivalidades pessoais e espalhara que se devia aguardar um novo legado, que, sem a ira de inimigo e a soberba de vencedor, atenderia com clemência aos que se rendessem. Ao mesmo tempo, escrevia à cidade que não esperassem nenhum fim dos combates, a não ser que Suetônio fosse substituído, atribuindo os reveses dele à sua própria índole e os êxitos à sorte.
Assim, foi enviado para examinar a situação da Britânia um dos libertos, Policlito, com grande esperança de Nero de que, por sua autoridade, pudesse não gerar concórdia entre o legado e o procurador, mas também apaziguar com a paz os ânimos rebeldes dos bárbaros. E Policlito não deixou de avançar, depois de atravessar o oceano, com enorme séquito que onerava a Itália e a Gália, terrível até para os nossos soldados. Mas para os inimigos foi motivo de riso, pois entre eles, ainda ardendo a liberdade, não se conhecia o poder dos libertos; e admiravam-se de que um general e um exército, vencedores de tamanha guerra, obedecessem a servos. Tudo, contudo, foi relatado ao imperador em termos mais brandos; e Suetônio foi mantido na condução das operações, mas, por ter depois perdido alguns navios na costa com os remadores neles, recebeu ordem, como se a guerra continuasse, de entregar o exército a Petrônio Turpiliano, que saíra do consulado. Este, sem provocar o inimigo nem ser provocado, deu a um ócio indolente o nome honroso de paz.