Anais - Livro XIII 3

Os primeiros anos de Nero e a morte de Britânico

O rei, fosse por suspeitar de uma cilada, que se avançava ao mesmo tempo sobre vários pontos, fosse para interceptar nossos suprimentos que chegavam pelo mar do Ponto e pela cidade de Trapezunte, retirou-se às pressas. Mas não conseguiu atacar os suprimentos, porque eram conduzidos por montanhas ocupadas por nossas guarnições. Corbulão, para que a guerra não se arrastasse em vão e para forçar os armênios a defenderem o que era seu, preparou-se para destruir as fortalezas, e tomou para si a mais forte daquela província, de nome Volando; as menores confiou ao legado Cornélio Flaco e ao prefeito do acampamento Insteio Capitão. Depois de examinar as defesas e de prover tudo o que servia para o assalto, exortou os soldados a expulsar de suas posições aquele inimigo errante, que não se preparava nem para a paz nem para o combate, mas confessava a perfídia e a covardia com a fuga, e a cuidar igualmente da glória e do saque. Então, dividido o exército em quatro partes, conduziu uns, reunidos em testudo, a minar a paliçada; mandou que outros encostassem escadas nas muralhas, e que muitos arremessassem com as máquinas tochas e lanças. Aos arremessadores e fundeiros foi dado um lugar de onde, à distância, lançassem balas de chumbo, para que nenhuma parte levasse socorro aos que estavam em apuros, com igual pressão por todos os lados. Tão grande foi o ardor do exército em combate que, dentro da terça parte do dia, as muralhas ficaram desguarnecidas de defensores, os ferrolhos das portas foram arrombados, as fortificações tomadas de assalto e todos os homens adultos massacrados, sem a perda de um único soldado e com pouquíssimos feridos. A multidão não combatente foi vendida em leilão, e o restante do espólio coube aos vencedores. O legado e o prefeito tiveram igual fortuna, e, tomadas três fortalezas num dia, as demais se rendiam, umas pelo terror, outras por vontade dos próprios habitantes. Disso nasceu a confiança de atacar Artaxata, a capital do povo. As legiões, contudo, não foram conduzidas pelo caminho mais curto, pois, se atravessassem por uma ponte o rio Araxes, que banha as muralhas, ficariam ao alcance dos projéteis: passaram-no longe, onde era largo e raso.
Entretanto Tiridates, tomado de vergonha e de medo, pois, se cedesse ao cerco, pareceria não ter força alguma, e, se o impedisse, em terreno difícil enredaria a si mesmo e às tropas de cavalaria, resolveu por fim mostrar a linha de batalha e, fixado o dia, iniciar o combate, ou então, com uma fuga simulada, preparar o terreno para uma cilada. Lançou-se, pois, de repente em torno da coluna romana, sem que nosso comandante o ignorasse, pois este havia disposto o exército tanto para a marcha quanto para o combate. No flanco direito avançava a terceira legião, no esquerdo a sexta, com homens escolhidos da décima ao centro; a bagagem foi recolhida entre as fileiras, e mil cavaleiros guardavam a retaguarda, aos quais ordenara que resistissem aos que atacassem de perto, mas não perseguissem os que recuassem. Nas alas iam os infantes arqueiros e o restante da cavalaria, com a ala esquerda mais estendida pela base das colinas, de modo que, se o inimigo penetrasse, fosse recebido ao mesmo tempo de frente e pelo flanco. Tiridates investia de longe, não a ponto de alcance dos dardos, ora ameaçando, ora com ar de quem hesita, para ver se conseguia afrouxar as fileiras e perseguir grupos isolados. Quando viu que nada se desfez por imprudência, e que apenas um decurião de cavalaria, avançando com excessiva ousadia, foi traspassado de flechas e, com seu exemplo, firmou os demais na obediência, retirou-se com a aproximação das trevas.
Corbulão, tendo assentado o acampamento naquele lugar, ponderou se deveria, com as legiões sem bagagem, marchar de noite sobre Artaxata e cercá-la com o assédio, supondo que Tiridates se houvesse recolhido para lá. Depois, quando os exploradores trouxeram a notícia de que o rei empreendera uma longa marcha, e que era incerto se buscava os medos ou os albanos, esperou o amanhecer e enviou à frente a tropa ligeira, que entrementes rodeasse as muralhas e iniciasse o ataque à distância. Mas os habitantes, abrindo as portas por vontade própria, entregaram-se aos romanos com tudo o que tinham, o que lhes garantiu a vida: Artaxata foi incendiada, destruída e arrasada até o solo, porque não podia ser mantida sem uma forte guarnição, dada a extensão das muralhas, e não tínhamos tropas suficientes para dividir entre guarnecer a praça e conduzir a guerra; e, se fosse deixada intacta e sem vigilância, nenhuma utilidade ou glória haveria no fato de ter sido tomada. Acrescentou-se um prodígio, como que oferecido por uma divindade: pois tudo, até Artaxata, estava iluminado pelo sol; o que era cingido pelas muralhas foi de repente coberto por uma nuvem negra e cortado por relâmpagos, de modo que se acreditou ser entregue à destruição como se os deuses estivessem irados contra ela. Por isso Nero foi aclamado imperador, e, por decreto do senado, realizaram-se ações de graças; estátuas, arcos e consulados sucessivos foram votados ao príncipe, e decretou-se que se incluísse entre os dias festivos aquele em que se obteve a vitória, aquele em que foi anunciada e aquele em que se tratou dela no senado, e outras medidas do mesmo gênero, a tal ponto excessivas que Caio Cássio, embora aprovasse as demais honras, declarou que, se em proporção à generosidade da fortuna se rendessem graças aos deuses, nem mesmo um ano inteiro bastaria para as ações de graças, e que por isso convinha dividir os dias sagrados dos de negócios, de modo a cultuar o divino e não impedir o humano.
Em seguida, um réu sacudido por diversas desventuras e que merecera o ódio de muitos foi condenado, mas não sem despertar inveja contra Sêneca. Era ele Públio Suílio, temível e venal sob o reinado de Cláudio, e, com a mudança dos tempos, não tão abatido quanto desejavam seus inimigos, e dos que preferiam parecer culpados a parecer suplicantes. Para esmagá-lo, acreditava-se que se reavivara o decreto do senado e a pena da lei Cíncia contra os que pleiteassem causas por dinheiro. Suílio não se abstinha de queixas nem de censuras, livre, além da ferocidade do ânimo, pela velhice extrema, e increpando Sêneca como inimigo dos amigos de Cláudio, sob quem cumprira um exílio justíssimo. Ao mesmo tempo, acostumado a estudos ociosos e à inexperiência dos jovens, Sêneca invejava aqueles que exerciam uma eloquência viva e íntegra na defesa dos cidadãos. Ele próprio, dizia, fora questor de Germânico, enquanto aquele fora o adúltero de sua casa. Acaso se devia julgar mais grave obter por escolha do litigante a recompensa de um serviço honesto do que corromper os aposentos das mulheres do príncipe? Com que sabedoria, com que preceitos de filósofos, dentro de quatro anos de amizade régia ajuntara trezentos milhões de sestércios? Em Roma, os testamentos e os sem filhos eram apanhados como por uma armadilha sua; a Itália e as províncias eram sugadas por uma usura imensa: ao passo que o seu dinheiro fora adquirido com trabalho e era moderado. Tudo suportaria, a acusação, o perigo, qualquer coisa, antes que submeter à súbita prosperidade dele uma dignidade antiga e conquistada em casa.
E não faltavam os que levavam essas palavras a Sêneca nos mesmos termos ou pioradas. Surgiram acusadores que denunciaram que os aliados haviam sido saqueados, quando Suílio governava a província da Ásia, e que houvera desvio de dinheiro público. Logo, porque haviam obtido um ano para a investigação, pareceu mais breve começar pelos crimes cometidos na cidade, cujas testemunhas estavam à mão. Com a aspereza da acusação, lançavam contra Suílio que Quinto Pompônio fora empurrado à necessidade da guerra civil, que Júlia, filha de Druso, e Sabina Popeia haviam sido levadas à morte, e que Valério Asiático, Lúsio Saturnino e Cornélio Lupo tinham sido arruinados; e lhe atiravam ao rosto fileiras de cavaleiros romanos condenados e toda a crueldade de Cláudio. Ele defendia-se dizendo que nada disso empreendera por vontade própria, mas que obedecera ao príncipe, até que o César cortou esse discurso, declarando ter verificado, pelos registros de seu pai, que nenhuma acusação contra quem quer que fosse fora por ele imposta. Então as ordens de Messalina foram alegadas como pretexto, e a defesa começou a vacilar: pois por que não fora escolhido nenhum outro para emprestar a voz àquela mulher impudica e cruel? Deviam-se punir os executores de atos atrozes, quando, alcançadas as recompensas dos crimes, atribuem os próprios crimes a outros. Assim, retirada parte de seus bens (pois ao filho e à neta se concedia uma parte, e ficava de fora também o que tinham recebido por testamento da mãe ou da avó), foi banido para as ilhas Baleares, sem se quebrantar de ânimo nem no próprio momento do julgamento nem depois da condenação; e dizia-se que suportara aquele retiro com uma vida farta e regalada. Quando os acusadores atacaram seu filho Nerulino, pelo ódio ao pai e por crimes de extorsão, o príncipe interveio, como se a vingança estivesse suficientemente cumprida.
Pelo mesmo tempo, Otávio Sagita, tribuno da plebe, enlouquecido de amor por Pôncia, uma mulher casada, comprou com presentes enormes o adultério e, em seguida, que ela abandonasse o marido, prometendo casamento e ajustando as núpcias. Mas, assim que a mulher ficou livre, pôs-se a criar demoras, a alegar a vontade contrária do pai e, encontrada a esperança de um cônjuge mais rico, a desprezar as promessas. Otávio, por sua vez, ora se lamentava, ora ameaçava, invocando a fama perdida, o dinheiro esgotado, e por fim a própria vida, que era o único que lhe restava, entregando-a ao arbítrio dela. E, depois que foi desprezado, pediu uma noite de consolo, com a qual, abrandado, pusesse limite ao futuro. Marcou-se a noite, e Pôncia confiou a guarda do quarto a uma escrava cúmplice. Ele entrou com um liberto, levando uma arma escondida sob a roupa. Então, como costuma acontecer no amor e na ira, houve recriminações, súplicas, censuras, justificações; e parte da escuridão foi reservada à paixão; depois dela, como que inflamado, traspassou com a arma a mulher, que nada temia, afastou com um golpe a escrava que acorria e irrompeu para fora do quarto. No dia seguinte, o assassinato era manifesto, e o assassino não deixava dúvida, pois ficava provado que ele permanecera junto dela. Mas o liberto declarou-se autor daquele crime, dizendo ter vingado as ofensas do patrão; e comovera alguns pela grandeza do exemplo, até que a escrava, recuperada do ferimento, revelou a verdade. Acusado perante os cônsules pelo pai da assassinada, depois de ter deixado o tribunato, foi condenado pela sentença dos senadores e pela lei sobre os assassinos.
Não menos notável naquele ano, uma devassidão deu início a grandes males para a república. Havia na cidade Sabina Popeia, filha de Tito Ólio, mas que tomara o nome do avô materno, da ilustre memória de Popeu Sabino, resplandecente pela dignidade consular e triunfal; pois a Ólio, que ainda não exercera magistraturas, a amizade de Sejano arruinou. A essa mulher não faltava nada além de um ânimo honesto. Sua mãe, que superara em beleza as mulheres de seu tempo, dera-lhe igualmente a fama e a formosura; as riquezas correspondiam à nobreza da linhagem. A conversa era afável e o talento nada tolo: ostentava modéstia e praticava a lascívia. Raramente saía em público, e isso com parte do rosto velada, para não saciar o olhar, ou porque assim convinha. Nunca poupou a própria reputação, sem distinguir entre maridos e amantes; e, não sujeita ao afeto próprio nem ao alheio, transferia o desejo para onde se mostrasse vantagem. Assim, enquanto vivia casada com Rúfrio Crispino, cavaleiro romano, de quem tivera um filho, Otão a seduziu pela juventude e pelo luxo, e porque era tido como o mais ardente na amizade de Nero: e não houve demora em que ao adultério se juntasse o casamento.
Otão, fosse por amor imprudente, fosse para inflamar o desejo do príncipe, louvava diante dele a beleza e a elegância da esposa, esperando que, se ambos possuíssem a mesma mulher, esse vínculo também lhe acrescentasse poder. Muitas vezes foi ouvido, ao se levantar do banquete do César, repetindo que ele ia até ela, que lhe coubera a nobreza e a beleza, o desejo de todos e a alegria dos afortunados. Diante desses e de outros incitamentos do gênero, não se interpôs longa demora: obtido o acesso, Popeia primeiro ganhou força com lisonjas e artifícios, fingindo-se incapaz de resistir ao desejo e cativada pela figura de Nero; depois, com o amor ardente do príncipe, voltou-se para a soberba, e, se fosse retida além de uma ou duas noites, repetia que era casada e não podia abandonar o casamento, presa a Otão por um modo de vida que ninguém igualava: ele era magnífico no ânimo e no requinte; ali ela via coisas dignas da mais alta fortuna; ao passo que Nero, atado a uma concubina escrava e ao hábito de Acte, nada extraíra daquela convivência servil senão o que era vil e sórdido. Otão foi afastado da intimidade habitual, depois do convívio e da comitiva, e por fim, para que não fosse rival na cidade, foi posto à frente da província da Lusitânia; onde, até as guerras civis, governou não conforme a infâmia anterior, mas com integridade e retidão, devasso no ócio e mais comedido no poder.
Até então Nero buscara véus para suas torpezas e crimes. Suspeitava sobretudo de Cornélio Sula, interpretando o seu temperamento indolente como o contrário, julgando-o astuto e dissimulado. Esse temor, Grapto, um dos libertos do César, instruído pelo uso e pela velhice sobre a casa dos príncipes desde Tibério, atiçou com a seguinte mentira. A ponte Múlvia era naquele tempo célebre pelos atrativos noturnos, e Nero costumava ir até para se entregar com mais liberdade aos prazeres fora da cidade. Assim, Grapto inventou que, quando Nero regressava pela via Flamínia, uma cilada lhe fora armada e evitada pelo destino, pois ele voltara aos jardins de Salústio por outro caminho, e que o autor desse ardil fora Sula, porque por acaso, ao retornarem os criados do príncipe, alguns, pela licença juvenil que então se praticava por toda parte, haviam provocado um vão temor. Nenhum dos escravos ou dos clientes de Sula foi reconhecido, e sobretudo a natureza dele, desprezada e incapaz de qualquer ousadia, repelia a acusação: ainda assim, como se estivesse provado culpado, foi-lhe ordenado deixar a pátria e confinar-se dentro das muralhas de Marselha.
Sob os mesmos cônsules, ouviram-se as embaixadas opostas dos puteolanos, que o conselho da cidade e a plebe haviam enviado ao senado, uns acusando a violência da multidão, outros a ganância dos magistrados e de cada um dos principais cidadãos. E, como aquela sedição avançara até as pedradas e às ameaças de incêndio, para que não provocasse mortandade e o recurso às armas, Caio Cássio foi escolhido para aplicar um remédio. Como não suportavam a sua severidade, a pedido dele próprio, o encargo foi transferido aos irmãos Escribônios, a quem se deu uma coorte pretoriana, por cujo terror e pelo suplício de poucos a concórdia voltou aos habitantes.
Eu não mencionaria um decreto do senado dos mais banais, pelo qual se permitia à cidade dos siracusanos exceder o número fixado para a oferta de espetáculos de gladiadores, se Peto Trásea não tivesse falado contra ele e dado aos detratores motivo para censurar o seu parecer. Pois por que, perguntavam, se ele acreditava que a república carecia da liberdade senatorial, perseguia coisas tão insignificantes? Por que não opinava a favor ou contra a guerra e a paz, sobre os tributos e as leis, e os demais assuntos que abrangiam o Estado romano? Era lícito aos senadores, sempre que recebessem o direito de dar parecer, expor o que quisessem e exigir que se levasse a votação. Acaso era digno de correção que em Siracusa não se oferecessem espetáculos com maior largueza, e tudo o mais, por todas as partes do império, era tão excelente como se não Nero, mas Trásea, tivesse o governo delas? Mas, se as coisas mais altas eram deixadas passar com total dissimulação, quanto mais se deveria abster das insignificantes? Trásea, por sua vez, aos amigos que lhe pediam razão, respondia não ignorar a situação presente ao corrigir tais decretos, mas o fazia em honra dos senadores, para que ficasse manifesto que não dissimulariam o cuidado com os grandes assuntos aqueles que voltavam a atenção até para os mais ínfimos.
No mesmo ano, diante das frequentes reclamações do povo, que denunciava a falta de moderação dos publicanos, Nero hesitou se deveria mandar suprimir todos os impostos indiretos e dar esse belíssimo presente ao gênero humano. Mas o seu ímpeto, depois de muito louvada a grandeza do seu espírito, foi contido pelos senadores, que mostraram que aquilo levaria à dissolução do império, se as receitas com que a república se sustentava fossem diminuídas: pois, suprimidas as taxas alfandegárias, seguir-se-ia a exigência de abolir os tributos. A maior parte das companhias de impostos fora instituída por cônsules e tribunos da plebe, ainda no vigor da liberdade do povo romano; o restante foi depois disposto de modo que a relação das receitas e a necessidade das despesas se ajustassem entre si. Devia-se, sem dúvida, refrear a cobiça dos publicanos, para que não convertessem em ódio, com novas durezas, o que por tantos anos fora tolerado sem queixa.
Por isso o príncipe editou que as leis de cada imposto público, ocultas até então, fossem afixadas; que as cobranças abandonadas não se reavivassem depois de um ano; que em Roma o pretor, e nas províncias os que fossem propretores ou procônsules, julgassem fora da ordem comum as causas contra os publicanos; que se preservasse a imunidade dos soldados, exceto naquilo que vendessem por lucro; e outras medidas bastante justas, que por pouco tempo se observaram e depois foram em vão. Permanece, contudo, a abolição das taxas de um quarenta avos e de um cinquenta avos, e dos demais nomes que os publicanos haviam inventado para cobranças ilícitas. Nas províncias de além-mar, o transporte de trigo foi tornado menos custoso, e decidiu-se que os navios não fossem incluídos no patrimônio dos comerciantes nem pagassem tributo por eles.
Réus vindos da província da África, onde haviam exercido o comando proconsular, Sulpício Camerino e Pompeu Silvano, foram absolvidos pelo César. Camerino tinha contra si uns poucos particulares, que lhe imputavam crimes de crueldade mais do que de extorsão de dinheiro: a Silvano cercava uma grande multidão de acusadores, que pediam tempo para convocar testemunhas; o réu exigia ser defendido de imediato, e venceu graças à riqueza, à falta de filhos e à velhice, que prolongou para além da vida daqueles por cujo favor escapara.
Até esse tempo, as coisas tinham estado tranquilas na Germânia, pela índole dos comandantes, que, vulgarizadas as insígnias do triunfo, esperavam disso maior honra se mantivessem a paz. Paulino Pompeu e Lúcio Veto estavam então à frente do exército. Para não manter, contudo, o soldado ocioso, o primeiro concluiu o dique iniciado sessenta e três anos antes por Druso para conter o Reno, e Veto preparava-se para ligar o Mosela e o Saône com um canal cavado entre ambos, de modo que as tropas, transportadas pelo mar, depois pelo Ródano e pelo Saône, navegassem por esse canal, em seguida pelo rio Mosela até o Reno, e dali escoassem ao Oceano; e, removidas as dificuldades do percurso, as costas do Ocidente e do Norte se tornassem navegáveis entre si. Élio Grácil, legado da Bélgica, opôs-se à obra, dissuadindo Veto de levar legiões a uma província alheia e de buscar a afeição das Gálias, repetindo que isso era motivo de temor para o imperador, com o que na maioria das vezes se impedem os empreendimentos honestos.
Aliás, com o ócio contínuo dos exércitos, espalhou-se o boato de que se retirara aos legados o direito de conduzi-los contra o inimigo. Por isso os frísios aproximaram da margem a juventude pelas matas ou pelos pântanos, e a idade não combatente pelos lagos, e ocuparam campos vazios e reservados ao uso dos soldados, sob a liderança de Verrito e Maloríge, que governavam aquela nação na medida em que os germanos são governados. tinham fixado casas, semeado os campos e cultivavam o solo como se fosse pátrio, quando Dúbio Avito, recebida de Paulino a província, ameaçando com a força romana caso os frísios não recuassem para suas antigas terras ou não obtivessem nova morada do César, levou Verrito e Maloríge a apresentar súplicas. Partiram para Roma e, enquanto esperavam Nero, ocupado com outros cuidados, entre as coisas que se mostram aos bárbaros entraram no teatro de Pompeu, para que vissem a grandeza do povo. Ali, no ócio (pois, ignorantes, não se divertiam com os espetáculos), enquanto indagavam sobre os assentos da cavea, as distinções das classes, quem eram os cavaleiros, onde ficava o senado, notaram alguns com traje estrangeiro nos lugares dos senadores; e, perguntando quem eram, depois de ouvirem que essa honra se concedia aos embaixadores dos povos que se distinguiam em valor e amizade para com Roma, exclamaram que nenhum mortal superava os germanos em armas ou em fidelidade, desceram e sentaram-se entre os senadores. Isso foi bem recebido pelos presentes, como um arroubo antigo e uma boa emulação. Nero concedeu a ambos a cidadania romana e ordenou que os frísios saíssem das terras. Como eles desdenhassem, uma cavalaria auxiliar, lançada de repente, impôs a necessidade, capturando ou matando os que resistiram com mais teimosia.
Essas mesmas terras ocuparam os ampsivários, povo mais poderoso não pela própria força, mas pela compaixão dos povos vizinhos, pois, expulsos pelos caucos e sem morada, suplicavam um exílio seguro. Estava com eles um homem ilustre entre aquelas gentes e fiel também a nós, de nome Boiócalo, que lembrava ter sido aprisionado por ordem de Armínio na revolta dos queruscos, e depois ter prestado serviço militar sob o comando de Tibério e de Germânico, e que a uma obediência de cinquenta anos acrescentava ainda o fato de submeter o seu povo ao nosso domínio. Por que tão grande parte da planície ficava deserta, para que ali um dia se transferissem os rebanhos e as manadas dos soldados? Que guardassem, sim, refúgios para os gados em meio à fome dos homens, contanto que não preferissem o ermo e a solidão a povos amigos. Aqueles campos foram um dia dos camavos, depois dos tubantes e em seguida dos usípios. Assim como o céu foi dado aos deuses, também as terras foram dadas ao gênero humano; e as que estavam vazias eram de todos. Olhando então para o sol e invocando os demais astros, perguntava-lhes, como se diante deles, se queriam contemplar um solo vazio: que antes derramassem o mar sobre os que arrebatavam as terras.