Capítulos

Um senador romano de toga escreve com estilete numa tábua de cera, um rolo de papiro na outra mão

Anais - Livro XIII

Os primeiros anos de Nero e a morte de Britânico

Sobre a obra

Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.

Este é o Livro XIII, que vai de 54 a 58 d.C. e cobre os primeiros anos de Nero no poder. É o livro em que o novo imperador governa sob tutela, promete ao senado um reinado moderado, e no meio disso manda envenenar o irmão adotivo. Tácito conta as duas coisas lado a lado, sem escolher entre elas.

O governo sob tutela de Sêneca e Burro

Nero tinha dezesseis anos. Quem conduzia era Sêneca, o filósofo, encarregado da educação dele desde a volta do exílio, e Sexto Afrânio Burro, prefeito do pretório. Tácito registra que os dois dividiam a influência, um pela palavra e outro pela severidade militar, e que agiam de comum acordo para conter os impulsos do jovem e limitar o poder de Agripina.

(Anais - Livro XIII 1:2)

O discurso de posse ao senado é escrito por Sêneca. Nero promete separar a casa imperial dos negócios do Estado, devolver ao senado as suas funções e não julgar tudo sozinho. Tácito nota que o imperador leu palavras alheias e que a plateia sabia disso. A ideia de um bom começo do reinado de Nero é antiga, mas a expressão que a consagrou, os cinco anos bons, não é de Tácito: aparece em autores romanos posteriores, e o próprio Livro XIII já registra um assassinato no primeiro ano.

O envenenamento de Britânico

Britânico era filho natural de Cláudio e, pela sucessão de sangue, o herdeiro preterido. Ao completar catorze anos, tornava-se um perigo. Tácito conta que Nero, pressionado pelas ameaças da mãe e sem acusação nenhuma para levantar contra o irmão, recorreu ao veneno, preparado pela envenenadora Locusta sob supervisão de um tribuno pretoriano.

A cena do banquete é narrada com precisão de mecanismo. A primeira dose falha. Prepara-se então um veneno rápido, e a manobra é servir a Britânico uma bebida quente demais, provada antes por um degustador, e esfriá-la com água em que estava o veneno. O menino perde a voz e o fôlego à mesa. Nero declara aos convivas que se trata de epilepsia, doença que Britânico realmente tinha, e o banquete continua. O funeral é apressado, na mesma noite, sob chuva.

(Anais - Livro XIII 1:16)

Suetônio e Dião Cássio contam a morte como assassinato também, com variações de detalhe. Uma minoria de historiadores modernos observa que a epilepsia era real e que uma crise fatal seria possível, mas a versão do envenenamento é a que consta em todas as fontes antigas, e nenhuma delas é independente das outras a ponto de resolver a questão. O ganho político, esse não é discutido: com Britânico morto, não restava outro candidato.

Agripina perde terreno

O livro acompanha o afastamento de Agripina, a mãe que fabricou o reinado. Ela perde primeiro para uma liberta, Acte, de quem Nero se enamora e que Sêneca e Burro toleram por julgarem o caso menos perigoso que o confronto. Agripina reage com ameaças, chega a lembrar ao filho que Britânico existe, e o efeito é o oposto do pretendido.

Depois vem a acusação formal: teria conspirado para pôr Rubélio Plauto no trono. Tácito compõe a defesa dela como uma peça de retórica indignada, no que é convenção da historiografia antiga, e registra que ela se safa e ainda obtém a punição dos acusadores. É uma vitória curta. O Livro XIV começa com a ordem de matá-la.

(Anais - Livro XIII 2:21)

Corbulão e a guerra da Armênia

A metade externa do livro é a campanha de Cneu Domício Corbulão no Oriente, enviado para recuperar a Armênia, disputada com os partos. Tácito descreve um exército em mau estado, endurecido por disciplina e inverno, e depois a tomada das fortalezas e a destruição de Artaxata. É o retrato do general competente que serve bem a um regime que ele não admira, tema recorrente em Tácito, e Corbulão acabará forçado ao suicídio anos depois.

(Anais - Livro XIII 3:41)

Popeia, os impostos e a figueira

No fim do livro entra Popeia Sabina, casada com Otão, que Nero afasta mandando o marido governar a Lusitânia. Ela será a peça do Livro XIV, quando o casamento com Nero exigir a morte de Otávia.

Há também um episódio de governo que merece nota. Nero propõe abolir todos os impostos indiretos e chama a medida de presente ao gênero humano. O senado o dissuade com o argumento de que o Estado se dissolveria sem receita, e Tácito trata a proposta como impulso teatral mais que projeto fiscal, embora reformas menores tenham saído dela.

(Anais - Livro XIII 3:50)

O livro termina com um presságio, e a escolha do fecho é do historiador. A figueira do Comício, sob a qual a lenda punha Rômulo e Remo, murchou naquele ano e depois brotou de novo. Tácito não explica o sinal. Deixa-o ali, no ponto em que o reinado ainda podia ir para os dois lados.

(Anais - Livro XIII 4:58)

Por que este livro importa

Os anos de 54 a 58 são exatamente os da terceira viagem missionária de Paulo e da correspondência com Corinto. A carta aos Romanos, geralmente datada entre 55 e 58, foi escrita a uma comunidade que vivia na cidade governada por este Nero, o do começo tutelado, e não pelo Nero do Livro XV. A recomendação de sujeição às autoridades no capítulo 13 da carta foi escrita sob esse governo, e é útil ler o retrato romano dele sem passar pelo filtro da perseguição posterior.

Vale também o contraste de método. Aqui o mesmo imperador aparece prometendo moderação ao senado e mandando envenenar um adolescente no intervalo de meses. Tácito não resolve a contradição, e é essa recusa que faz dele uma fonte usável. O episódio pelo qual ele é mais citado por leitores cristãos vem depois, no Livro XV, capítulo 44.

(Anais - Livro XV 3:44)