Anais - Livro XIII 2
Os primeiros anos de Nero e a morte de Britânico
A noite já ia adiantada e Nero a prolongava entre as taças, quando entrou Páris, que costumava nessas horas estimular os prazeres do príncipe, mas que dessa vez chegou com ar sombrio. Expôs em ordem todo o teor da denúncia e de tal modo aterrorizou o ouvinte que este resolveu não só matar a mãe e Plauto, como também afastar Burro do comando da guarda, por considerá-lo um homem promovido pela influência de Agripina e que agora lhe pagava o favor. Fábio Rústico afirma que se escreveu um bilhete a Cecina Tusco, confiando-lhe o comando das coortes pretorianas, mas que, pela intervenção de Sêneca, essa honra foi mantida para Burro. Plínio e Cluvio relatam que não houve dúvida alguma quanto à lealdade do prefeito. Fábio, sem dúvida, inclina-se a louvar Sêneca, por cuja amizade prosperou. Quanto a mim, vou seguir o consenso dos autores e, onde divergirem, registrarei suas versões sob os nomes deles próprios. Nero, trêmulo e ávido por matar a mãe, não pôde ser demovido enquanto Burro não prometeu executá-la, caso ela fosse provada culpada do crime; mas, disse Burro, a qualquer pessoa, e muito mais a uma mãe, deve-se conceder defesa. Não havia acusadores presentes; tinha-se apenas a palavra de uma única pessoa de uma casa inimiga, e ele que considerasse as trevas, a noite passada em banquete e tudo o mais, próximo da imprudência e da ignorância.
Aplacado assim o temor do príncipe, ao raiar do dia foram à casa de Agripina, para que ela conhecesse as acusações e as refutasse ou pagasse a pena. Burro cumpriu essas ordens na presença de Sêneca, e alguns dos libertos estavam presentes como testemunhas da conversa. Depois, Burro, após expor os crimes e seus autores, falou em tom ameaçador. E Agripina, fiel à sua altivez, exclamou: 'Não me admiro de que Silana, que nunca deu à luz, ignore os sentimentos das mães; pois os filhos não são trocados pelos pais como os amantes por uma mulher desavergonhada. E se Itúrio e Calvísio, depois de dilapidarem toda a fortuna, agora retribuem a uma velha o último serviço de assumir uma acusação, não é por isso que eu deva carregar a infâmia do parricídio nem o César a consciência dele. Quanto à inimizade de Domícia, eu lhe seria grata se ela competisse comigo em benevolência para com o meu Nero. Agora, por meio do amante Atimeto e do histrião Páris, ela compõe como que enredos de teatro. Ela engrandecia os viveiros de peixes de sua Baias, enquanto eu, com meus conselhos, preparava a adoção, o poder proconsular, a designação para o consulado e tudo o mais para alcançar o império. Que apareça quem possa acusar-me de ter sondado as coortes na cidade, de ter abalado a fidelidade das províncias ou, enfim, de ter corrompido escravos ou libertos para algum crime. Poderia eu viver se Britânico dominasse o Estado? E se Plauto ou qualquer outro obtivesse o poder para me julgar, faltariam, por certo, acusadores que me imputassem não palavras imprudentes ditas às vezes pelo excesso de afeto, mas crimes dos quais só um filho poderia absolver-me.' Comovidos os presentes, que ainda procuravam acalmar seu ânimo, ela exigiu uma conversa com o filho, na qual nada disse em defesa de sua inocência, como se desconfiasse dela, nem dos benefícios prestados, como se os lançasse em rosto, mas obteve vingança contra os delatores e recompensas para os amigos.
A prefeitura da anona foi concedida a Fênio Rufo, a direção dos jogos que o César preparava a Arrúncio Stela, e o Egito a Tibério Balbilo. A Síria foi destinada a Públio Anteio, mas logo, por vários artifícios, ele foi enganado e por fim retido na cidade. Silana, por sua vez, foi mandada para o exílio; Calvísio e Itúrio também foram banidos; Atimeto foi executado, sendo Páris demasiado útil aos prazeres do príncipe para sofrer pena. Plauto, por ora, foi deixado em silêncio.
Em seguida, denunciou-se que Palas e Burro haviam conspirado para elevar Cornélio Sula ao trono, em razão de seu nascimento nobre e do parentesco com Cláudio, de quem era genro pelo casamento com Antônia. O promotor dessa acusação foi um tal de Peto, conhecido por comprar com frequência bens confiscados ao erário, e que então ficou claramente convicto de impostura. Mas a inocência comprovada de Palas não agradou tanto aos homens quanto os ofendeu sua arrogância: pois, ao serem citados os libertos que ele teria como cúmplices, respondeu que em casa jamais comunicara suas vontades senão por um aceno ou um gesto e que, se algo mais precisasse ser explicado, usava da escrita, para não rebaixar a voz em tal companhia. Burro, embora réu, deu sua sentença como um dos juízes. O acusador foi condenado ao exílio e foram queimados os registros com que ele reavivava dívidas esquecidas do erário.
No fim do ano, retirou-se a coorte que costumava assistir aos jogos, para que houvesse maior aparência de liberdade, para que o soldado, não mais misturado à licenciosidade do teatro, se mantivesse menos corrompido, e para que a plebe desse a prova de manter a moderação na ausência da guarda. O príncipe purificou a cidade por uma lustração, conforme a resposta dos arúspices, porque os templos de Júpiter e de Minerva haviam sido atingidos por raios.
No consulado de Quinto Volúsio e Públio Cipião, houve paz no exterior, mas torpe libertinagem em casa, pois Nero, disfarçado com roupa de escravo para não ser reconhecido, percorria as ruas da cidade, os lupanares e as tavernas, acompanhado de homens que saqueavam as mercadorias expostas à venda e feriam quem encontravam, e estes a tal ponto o ignoravam que ele próprio às vezes recebia golpes e trazia no rosto as marcas. Depois, quando se tornou notório que era o César quem assim atacava, e cresciam as ofensas contra homens e mulheres de distinção, e alguns, uma vez permitida a licença, em nome de Nero e impunemente, praticavam o mesmo com seus próprios bandos, a noite passava como numa cidade tomada. E Júlio Montano, da ordem senatorial, mas que ainda não exercera cargo algum, tendo por acaso topado nas trevas com o príncipe e, por tê-lo repelido com força quando este o atacou, e depois, reconhecendo-o, ter implorado perdão, foi forçado a morrer, como se o tivesse insultado. Nero, contudo, mais cauteloso dali em diante, cercou-se de soldados e de muitos gladiadores que deixavam correr os começos de briga quando modestos e como que privados; se os ofendidos reagiam com mais vigor, entravam de armas. Transformou também a licenciosidade dos jogos e o fanatismo pelos histriões em algo como combates, pela impunidade e pelos prêmios, e ele próprio assistia, oculto e muitas vezes à vista de todos, até que, com o povo em discórdia e o temor de uma agitação mais grave, não se achou outro remédio senão expulsar os histriões da Itália e fazer o soldado voltar a assistir ao teatro.
Pela mesma época, discutiu-se no senado sobre as fraudes dos libertos e exigiu-se com insistência que se desse aos patronos o direito de revogar a liberdade dos que dela se mostrassem indignos. E não faltavam quem assim votasse. Mas os cônsules, não ousando iniciar a moção sem conhecimento do príncipe, registraram contudo o consenso do senado. Quanto a ele, hesitava em tornar-se autor de tal medida, pois entre os poucos que eram contrários à proposta havia quem se queixasse, indignado, de que a falta de respeito alimentada pela liberdade tinha chegado a tal excesso que os libertos consultavam seus patronos se deviam tratá-los com violência ou em pé de igualdade jurídica, e até erguiam as mãos para os golpear, ao mesmo tempo recomendando que não os punissem. Pois que outra coisa se concedia ao patrono ofendido senão relegar o liberto a cem milhas de distância, na costa da Campânia? Quanto às demais ações judiciais, eram comuns e iguais para ambos. Devia-se conceder alguma arma que não pudesse ser desprezada. E não seria penoso aos libertados conservar a liberdade pela mesma deferência com que a haviam obtido; mas os culpados manifestos mereciam ser arrastados de volta à escravidão, para que o medo refreasse aqueles a quem os favores não tinham mudado.
Argumentava-se em sentido contrário: a culpa de poucos devia ser ruinosa para eles mesmos, sem nada se tirar do direito da classe inteira; pois era um corpo amplamente difundido. Dele provinham, na maioria, as tribos urbanas, os serviços dos magistrados e dos sacerdotes, e também as coortes recrutadas na cidade; e muitíssimos dos cavaleiros e a maioria dos senadores não tinham outra origem. Se os libertos fossem separados, ficaria manifesta a escassez de homens livres de nascimento. Não sem razão os antepassados, ao distinguirem a dignidade das ordens, haviam posto a liberdade em comum a todos. Além disso, foram instituídas duas formas de manumissão, para que restasse lugar ao arrependimento ou a um novo favor. Aqueles a quem o patrono não libertara pela vara estavam ainda como que retidos pelo laço da escravidão. Que cada um examinasse os méritos e fosse lento em conceder o que, uma vez dado, não poderia ser retirado. Prevaleceu esse parecer, e o César escreveu ao senado que examinassem caso a caso a causa dos libertos, sempre que estes fossem acusados pelos patronos, sem nada tirar ao direito comum. Pouco depois, foi arrancado à sua tia o liberto Páris, supostamente pelo direito civil, não sem desonra do príncipe, por cuja ordem se obtivera a sentença de que ele era livre de nascimento.
Permanecia, não obstante, certa imagem da república. Pois surgiu uma contenda entre o pretor Vibúlio e o tribuno da plebe Antístio, porque o tribuno mandara soltar uns desordeiros, fanáticos dos histriões, que o pretor levara à prisão. Os senadores aprovaram a prisão e censuraram a presunção de Antístio. Ao mesmo tempo, proibiram os tribunos de usurpar a autoridade dos pretores e dos cônsules ou de convocar de qualquer parte da Itália pessoas contra quem se pudesse mover processo. Lúcio Pisão, cônsul designado, acrescentou que os tribunos não julgassem nenhuma causa em casa por força de seu poder, e que a multa por eles imposta não fosse lançada nos registros públicos pelos questores do erário antes de quatro meses; nesse meio-tempo, fosse permitido contestar, e os cônsules decidissem a respeito. Restringiu-se também mais estritamente o poder dos edis e estabeleceu-se quanto de penhor podiam tomar ou de pena impor os edis curuis e os plebeus. E Helvídio Prisco, tribuno da plebe, moveu contendas pessoais contra Obultrônio Sabino, questor do erário, alegando que ele estendia sem clemência o direito de confisco contra os pobres. Em seguida, o príncipe transferiu o cuidado dos registros públicos dos questores para os prefeitos.
A forma desse encargo foi variamente conduzida e muitas vezes alterada. Pois Augusto permitiu ao senado escolher os encarregados; depois, suspeitando-se de manobras nas votações, eram sorteados, entre o número dos pretores, os que presidiriam. E isso não durou muito, porque o sorteio recaía em pessoas pouco aptas. Então Cláudio voltou a impor os questores e, para que não cuidassem do cargo com negligência por medo de desafetos, prometeu-lhes honras fora da ordem usual; mas faltava-lhes a firmeza da idade madura, já que assumiam esse cargo como primeiro passo. Por isso Nero escolheu antigos pretores, aprovados pela experiência.
Sob os mesmos cônsules, Vipsânio Lena foi condenado por administrar com avareza a província da Sardenha. Céstio Próculo foi absolvido da acusação de extorsão, desistindo os acusadores. Clódio Quirinal, por haver, como prefeito dos remadores estacionados em Ravena, afligido a Itália com luxúria e crueldade, como se fosse a mais ínfima das nações, antecipou-se à condenação com veneno. Caninio Rebilo, um dos primeiros na perícia das leis e na grandeza da riqueza, fugiu aos tormentos de uma velhice enferma soltando o sangue pelas veias, embora não se acreditasse que tivesse firmeza bastante para uma morte voluntária, por ser de uma efeminação infame. Já Lúcio Volúsio partiu com fama excelente, ele que teve noventa e três anos de vida, riquezas notáveis adquiridas por meios honestos e a amizade ininterrupta de tantos imperadores.
No segundo consulado de Nero, tendo por colega Lúcio Pisão, pouca coisa digna de memória ocorreu, a menos que alguém quisesse encher volumes louvando os alicerces e as vigas sobre os quais o César ergueu o enorme anfiteatro no Campo de Marte. Mas reconheceu-se que convém à dignidade do povo romano reservar os anais para feitos ilustres e confiar tais pormenores aos registros diários da cidade. De resto, as colônias de Cápua e Nucéria foram reforçadas com o acréscimo de veteranos, distribuiu-se à plebe um donativo de quatrocentos sestércios por cabeça e recolheram-se quarenta milhões de sestércios ao erário para manter o crédito do povo. Suprimiu-se também o imposto da vigésima quinta parte sobre a venda de escravos, mais na aparência que na realidade, porque, ordenando-se que o vendedor o pagasse, ele se acrescentava aos compradores como parte do preço. E o César decretou por edito que nenhum magistrado ou procurador, na província que governasse, exibisse espetáculo de gladiadores, de feras ou qualquer outro divertimento. Pois antes não afligiam menos os súditos com tal liberalidade do que arrancando-lhes dinheiro, ao defenderem com bajulação os delitos que haviam cometido por capricho.
Aprovou-se também um senatusconsulto, voltado tanto à vingança quanto à segurança: se alguém fosse morto por seus próprios escravos, também os que tivessem sido libertados pelo testamento e morassem sob o mesmo teto pagariam o suplício entre os escravos. Foi restituído à ordem Lúrio Varo, ex-cônsul, antes derrubado por acusações de avareza. E Pompônia Grecina, mulher distinta, casada com Aulo Pláucio, que, como relatei, recebeu uma ovação pela campanha na Britânia, acusada de uma superstição estrangeira, foi entregue ao julgamento do marido. Este, segundo o antigo costume, na presença dos parentes, instruiu a causa que envolvia a vida e a reputação da esposa, e declarou-a inocente. Essa Pompônia teve uma vida longa e de contínua tristeza: pois, depois que Júlia, filha de Druso, foi morta pela traição de Messalina, durante quarenta anos não usou senão vestes de luto, nem teve senão ânimo aflito; e isso, no reinado de Cláudio, ficou impune, e mais tarde se converteu em glória para ela.
O mesmo ano teve muitos réus, dos quais Públio Céler, acusado pela Ásia, o César, não podendo absolvê-lo, arrastou o processo até que ele morresse de velhice; pois Céler, depois de assassinar, como referi, o procônsul Silano, encobria com a magnitude desse crime os demais delitos. Cossuciano Capitão foi denunciado pelos cilícios, homem maculado e infame, que julgou ter na província o mesmo direito à audácia que exercera na cidade; mas, esmagado por uma acusação tenaz, por fim abandonou a defesa e foi condenado pela lei de extorsão. Em favor de Éprio Marcelo, de quem os lícios reclamavam compensação, prevaleceu a tal ponto a corrupção que alguns de seus acusadores foram punidos com o exílio, como se tivessem posto em perigo um inocente.
No terceiro consulado de Nero, assumiu com ele o consulado Valério Messala, de cujo bisavô, o orador Corvino, poucos anciãos já se lembravam de ter sido colega do Divino Augusto, bisavô de Nero, nessa mesma magistratura. Mas a honra da nobre família foi acrescida com a oferta de quinhentos mil sestércios anuais, com que Messala sustentasse sua pobreza honrada. Também a Aurélio Cota e a Hatério Antonino o príncipe fixou uma quantia anual, embora tivessem dissipado por luxo as riquezas dos antepassados. No início desse ano, a guerra entre partos e romanos pela posse da Armênia, até então arrastada com começos frouxos, foi retomada com vigor, porque Vologeso não permitia que o irmão Tirídates ficasse privado do reino que ele próprio lhe dera nem o tivesse como dádiva de um poder estrangeiro, e Corbulão julgava digno da grandeza do povo romano recuperar o que tempos antes Luculo e Pompeu haviam conquistado. Além disso, os armênios, de fidelidade ambígua, convidavam as armas de ambos os lados, mais próximos dos partos pela situação das terras, pela semelhança dos costumes e pelos laços de casamento, e, ignorando a liberdade, inclinavam-se mais para a servidão.
Mas Corbulão tinha mais trabalho contra a indolência dos soldados do que contra a perfídia dos inimigos: pois as legiões transferidas da Síria, entorpecidas por uma longa paz, suportavam com extrema dificuldade os deveres do acampamento. Constou bastante que havia naquele exército veteranos que nunca tinham feito guarda nem vigília, que olhavam a paliçada e o fosso como coisas novas e estranhas, sem elmos, sem couraças, elegantes e dados ao lucro, tendo cumprido o serviço militar pelas cidades. Por isso, dispensados os que estavam abatidos pela velhice ou pela má saúde, ele pediu reforço. E fizeram-se recrutamentos pela Galácia e pela Capadócia, e acrescentou-se uma legião vinda da Germânia com a cavalaria das alas e a infantaria das coortes. E todo o exército foi mantido sob as tendas, embora o inverno fosse tão rigoroso que, coberta de gelo a terra, só dava lugar às tendas depois de cavada. Os membros de muitos congelaram pela força do frio, e alguns morreram durante as sentinelas. Notou-se um soldado que carregava um feixe de lenha, cujas mãos enrijeceram a tal ponto que, presas à carga, caíram dos braços, agora meros tocos. O próprio general, com traje leve e cabeça descoberta, estava sempre presente na marcha e nos trabalhos, mostrando louvor aos esforçados, consolo aos fracos e exemplo a todos. Depois, como muitos recuassem e desertassem pela dureza do clima e do serviço, buscou-se remédio no rigor. Pois não, como em outros exércitos, o primeiro e o segundo delito eram acompanhados de perdão, mas quem abandonava as fileiras pagava de imediato com a vida. E isso, pela prática, mostrou-se salutar e melhor que a clemência: pois desertaram menos daquele acampamento do que daqueles em que se perdoava.
Entretanto, Corbulão, mantendo as legiões dentro do acampamento até que a primavera amadurecesse, e dispondo coortes auxiliares por lugares convenientes, ordenou que não fossem os primeiros a ousar o combate. Confiou o cuidado dos postos a Pácio Orfito, que exercera a honra de primeiro centurião. Embora este houvesse escrito que se oferecia uma ocasião de bom êxito contra bárbaros descuidados, recebeu ordem de manter-se nas fortificações e esperar maiores forças. Mas, rompida a ordem, depois que chegaram alguns esquadrões dos fortins mais próximos, que por inexperiência exigiam combate, ele se chocou com o inimigo e foi derrotado. E, aterrorizados com a perda dele, os que deviam prestar socorro voltaram cada um em trêmula fuga para seu acampamento. Corbulão recebeu isso com gravidade e, censurando Pácio, ordenou que os prefeitos e os soldados acampassem fora da paliçada; e nessa humilhação foram mantidos, e só pelas súplicas de todo o exército foram libertados.
Tirídates, por sua vez, ajudado, além de suas próprias clientelas, pelo poder do irmão Vologeso, já não atacava a Armênia furtivamente, mas em guerra aberta, devastando os que julgava fiéis a nós e, se tropas eram conduzidas contra ele, escapando e, voando de um lado para outro, espalhando mais terror pelo boato do que pelo combate. Por isso Corbulão, frustrado por muito tempo na busca de uma batalha e forçado a levar a guerra por toda parte à maneira do inimigo, dividiu suas forças, para que os legados e os prefeitos invadissem ao mesmo tempo lugares diversos; ao mesmo tempo, advertiu o rei Antíoco a buscar as prefeituras vizinhas a ele. Pois Farasmanes, depois de matar o filho Radamisto como traidor, exercia mais prontamente, para testemunhar sua fidelidade a nós, o antigo ódio contra os armênios. E então, pela primeira vez, foram atraídos os moscos, povo aliado dos romanos mais que outros, que invadiu as regiões inacessíveis da Armênia. Assim os planos de Tirídates voltavam-se ao contrário, e ele enviava emissários que, em nome próprio e dos partos, reclamavam por que, tendo sido dados há pouco reféns e renovada a amizade, que abriria caminho também a novos benefícios, ele era expulso da Armênia, sua antiga posse. Por isso o próprio Vologeso ainda não se movera, porque preferiam agir pela razão a pela força; mas, se se persistisse na guerra, não faltaria aos Arsácidas a coragem e a fortuna já tantas vezes experimentadas com desastre dos romanos. A isso Corbulão, depois de averiguar bastante que Vologeso estava preso pela revolta da Hircânia, persuadiu Tirídates a apelar ao César por súplicas: poderia obter um reino estável e coisas sem sangue, se, abandonando uma esperança distante e tardia, seguisse a presente e mais segura.
Decidiu-se então, já que pelo vaivém de mensageiros nada se adiantava quanto à paz total, marcar tempo e lugar para um encontro entre eles próprios. Tirídates dizia que se faria acompanhar de uma escolta de mil cavaleiros; quanto à força de qualquer espécie que estaria com Corbulão, não estabelecia, contanto que, depostas as couraças e os elmos, se viesse com aparência de paz. A qualquer mortal, e muito mais a um general velho e prudente, a astúcia bárbara teria ficado evidente: por isso de um lado se fixava número reduzido e do outro se oferecia maior, para que se preparasse a cilada; pois, se corpos descobertos fossem expostos a uma cavalaria treinada no uso das flechas, de nada serviria a multidão. Dissimulando, contudo, ter compreendido, respondeu que era mais correto que se discutissem na presença de todos os exércitos as questões de interesse público, e escolheu um lugar cuja parte de um lado eram colinas que se erguiam suavemente, próprias para receber as fileiras de infantaria, e cuja outra parte se estendia em planície, para desdobrar os esquadrões de cavalaria. No dia combinado, Corbulão, chegando primeiro, dispôs as coortes aliadas e os auxiliares dos reis nas alas, e no centro postou a sexta legião, à qual, chamados durante a noite de outros acampamentos, misturara três mil soldados da terceira, com uma só águia, para que parecesse uma única legião. Tirídates, já ao cair do dia, postou-se ao longe, donde podia mais ser visto do que ouvido. E assim, sem encontro, o general romano ordenou ao soldado que se recolhesse cada um ao seu acampamento.