Anais - Livro XII 2

Agripina, o casamento com Cláudio e a adoção de Nero

Foram então prestados agradecimentos ao príncipe, com adulação ainda mais rebuscada em favor de Domício. Propôs-se uma lei pela qual ele passava para a família Cláudia e tomava o nome de Nero. Agripina também recebeu o sobrenome de Augusta. Cumprido isso, não houve ninguém tão destituído de compaixão que não se afligisse com a sorte de Britânico. Abandonado aos poucos até pelos próprios serviçais, ele transformava em escárnio as atenções inoportunas da madrasta, percebendo a falsidade delas. Pois dizem que sua índole não era de modo algum apática; seja isso verdade, seja que os perigos lhe granjearam simpatia, ele guardou essa reputação sem que houvesse prova.
Agripina, para exibir seu poder também às nações aliadas, conseguiu que se enviassem veteranos e se fundasse uma colônia na cidade dos úbios, onde havia nascido; a ela se deu o nome derivado do seu próprio. E por acaso acontecera que seu avô Agripa recebera sob proteção aquele povo quando atravessou o Reno. Por esse mesmo tempo houve alarme na Germânia Superior com a chegada dos catos, que andavam saqueando. Então Públio Pompônio, o legado, lançou contra eles os vângions e os nemetes, somando a cavalaria auxiliar, com a ordem de que se antecipassem aos saqueadores ou, se estes se dispersassem, os cercassem de surpresa. À estratégia do comandante seguiu-se a diligência dos soldados, e, divididos em duas colunas, os que tomaram o caminho da esquerda surpreenderam os inimigos recém-retornados, ainda usufruindo do saque em devassidão e pesados de sono. Acresceu a alegria por terem libertado da escravidão, quarenta anos depois, alguns sobreviventes do desastre de Varo.
os que seguiram pelos atalhos da direita, mais curtos, infligiram maior perda ao inimigo, que veio ao encontro e ousou enfrentá-los em combate, e carregados de despojos e de glória voltaram ao monte Tauno, onde Pompônio aguardava com as legiões, para o caso de os catos, levados pelo desejo de vingança, lhe darem ocasião de batalha. Estes, mas, com medo de serem cercados de um lado pelos romanos e do outro pelos queruscos, com quem vivem em discórdia perpétua, enviaram a Roma embaixadores e reféns. Decretou-se a Pompônio a honra do triunfo, parte modesta da sua fama entre a posteridade, junto à qual sobressai a glória dos seus poemas.
Por esse mesmo tempo, Vânio, que fora imposto aos suevos por Druso César, foi expulso do reino. No início do seu governo fora ilustre e querido dos seus, mas depois, com a longa duração do poder, mudou para a soberba, e foi derrubado pelo ódio dos vizinhos somado às discórdias internas. Os instigadores foram Vibílio, rei dos hermunduros, e Vângio e Sidão, nascidos da irmã de Vânio. Cláudio, embora muitas vezes solicitado, não interpôs as armas na contenda dos bárbaros, prometendo a Vânio refúgio seguro caso fosse expulso. Escreveu a Palpélio Histro, que governava a Panônia, que dispusesse à margem do rio uma legião e tropas auxiliares recrutadas na própria província, como apoio aos vencidos e ameaça contra os vencedores, para que estes, exaltados pela fortuna, não perturbassem também a nossa paz. Pois uma multidão imensa, os lúgios e outros povos, aproximava-se, atraída pela fama do rico reino que Vânio durante trinta anos enriquecera com pilhagens e tributos. Sua força própria era de infantaria, e a cavalaria vinha dos sármatas iáziges, desigual diante da multidão dos inimigos; por isso decidira defender-se em fortalezas e arrastar a guerra.
Mas os iáziges, impacientes com o cerco, dispersando-se pelos campos próximos, tornaram inevitável o combate, pois ali os lúgios e os hermunduros tinham avançado. Então Vânio, descendo das fortalezas, foi derrotado em batalha, embora, apesar do revés, fosse louvado por ter lutado com a própria mão e recebido ferimentos no peito. Por fim refugiou-se na frota que o aguardava no Danúbio; logo o seguiram os seus dependentes, que, recebendo terras, foram instalados na Panônia. Vângio e Sidão dividiram o reino entre si, com fidelidade notável para conosco, e muito amados pelos súditos enquanto buscavam o domínio, seja por índole própria, seja pela natureza da servidão, e mais odiados depois que o alcançaram.
Mas na Britânia o propretor Públio Ostório encontrou uma situação turbulenta: os inimigos haviam irrompido no território dos aliados com tanto mais violência quanto julgavam que um general novo, com um exército desconhecido e em começo de inverno, não marcharia contra eles. Ele, sabendo que os primeiros acontecimentos geram medo ou confiança, arrebatou as coortes ligeiras, abateu os que resistiram e perseguiu os dispersos, para que não se reagrupassem e uma paz hostil e infiel não negasse descanso nem ao general nem ao soldado. Preparou-se para tirar as armas dos suspeitos e conter todo o território entre os rios Ávon e Sabrina com acampamentos. Os icenos foram os primeiros a recusar isso, povo forte e não abatido por combates, pois tinham aderido de boa vontade à nossa aliança. Por instigação deles, as nações vizinhas escolheram para campo de batalha um lugar cercado por uma muralha rústica, com acesso estreito, para que não fosse transitável à cavalaria. O general romano, embora conduzisse tropas aliadas sem a força das legiões, dispôs-se a romper essas defesas e, distribuídas as coortes, equipou também os esquadrões de cavalaria para tarefas de infantaria. Então, dado o sinal, romperam a muralha e dispersaram os inimigos, estorvados pelos próprios obstáculos. E estes, com a consciência da rebelião e cortadas as fugas, realizaram muitos feitos célebres; nessa batalha Marco Ostório, filho do legado, mereceu a honra de ter salvado a vida de um cidadão.
De resto, com a derrota dos icenos, acalmaram-se os que hesitavam entre a guerra e a paz, e o exército foi conduzido contra os decangos. Devastaram-se os campos, recolheu-se saque por toda parte, sem que os inimigos ousassem dar batalha; e, se tentavam fustigar a coluna de emboscada, o ardil era punido. tinham chegado não longe do mar que olha para a ilha da Hibérnia, quando discórdias surgidas entre os brigantes fizeram recuar o general, decidido a não empreender nada de novo antes de consolidar o que conquistara. Os brigantes, mortos os poucos que iniciavam as hostilidades e perdoados os demais, sossegaram; mas o povo dos siluros não se deixava mudar nem pela ferocidade nem pela clemência, e teria de ser dominado com legiões acampadas em seu território. Para que isso se desse com mais prontidão, fundou-se a colônia de Camuloduno, com um forte contingente de veteranos, nas terras tomadas, como apoio contra os rebeldes e meio de habituar os aliados ao cumprimento das leis.
Marchou-se daí contra os siluros, que, além da própria ferocidade, confiavam nas forças de Carataco. A este muitos combates incertos, e muitos favoráveis, haviam elevado de modo a sobressair acima dos demais comandantes dos britanos. Mas então, superior pela astúcia e pela vantagem do terreno, inferior em força militar, transferiu a guerra para os ordovices e, somados os que temiam a nossa paz, arriscou o lance derradeiro. Escolheu para o combate um lugar tal que os acessos, as saídas e tudo nos fossem desfavoráveis e melhores para os seus: de um lado, montanhas escarpadas, e onde quer que se pudesse subir por declive suave, ele empilhou pedras à maneira de muralha. Diante corria um rio de vau incerto, e bandos de armados se postavam à frente das defesas.
Além disso, os chefes das tribos percorriam as fileiras, exortando, firmando os ânimos ao diminuir o medo e atiçar a esperança e os demais incentivos da guerra. E Carataco, voando de um lado para outro, jurava que aquele dia e aquela batalha seriam o começo ou da recuperação da liberdade ou da escravidão eterna. Invocava os nomes dos antepassados que tinham repelido o ditador César, por cuja coragem, livres dos machados e dos tributos, conservavam intactos os corpos das esposas e dos filhos. Enquanto dizia isso e coisas semelhantes, a multidão o aclamava, e cada um se ligava pelo juramento da sua tribo a não ceder nem às armas nem aos ferimentos.
Aquele ardor pasmou o general romano; ao mesmo tempo o rio que se interpunha, a muralha acrescentada, os cumes ameaçadores, nada havia que não fosse temível e repleto de defensores. Mas os soldados pediam combate, gritando que tudo se podia conquistar pelo valor; e os prefeitos e tribunos, dizendo o mesmo, aumentavam o ardor do exército. Então Ostório, examinando o que era intransponível e o que era acessível, conduziu os homens enfurecidos e atravessou o rio sem dificuldade. Quando chegaram à muralha, enquanto se lutava com projéteis, mais ferimentos e mortes recaíam sobre os nossos; mas depois que se formou a tartaruga e se desfez a tosca e informe construção de pedras, e o combate ficou igual no corpo a corpo, os bárbaros retiraram-se para os cumes dos montes. Mas também ali irromperam tanto a infantaria ligeira quanto a pesada, aqueles atacando com dardos, estes em fileira cerrada, enquanto se desordenavam por outro lado as fileiras dos britanos, que não tinham proteção alguma de couraças nem de elmos. Se resistiam aos auxiliares, eram abatidos pelas espadas e pelos pilos dos legionários; se se voltavam para estes, pelas espadas largas e lanças dos auxiliares. Foi uma vitória célebre, e capturaram-se a esposa e a filha de Carataco, e seus irmãos foram aceitos em rendição.
Ele próprio, como em geral acontece nas adversidades, ao buscar a proteção de Cartimandua, rainha dos brigantes, foi acorrentado e entregue aos vencedores, no nono ano depois de iniciada a guerra na Britânia. Daí sua fama, espalhada pelas ilhas e províncias vizinhas, era celebrada também pela Itália, e desejavam ver quem era aquele que durante tantos anos desprezara o nosso poder. Nem mesmo em Roma o nome de Carataco era desconhecido; e o imperador, ao exaltar a própria glória, acrescentou renome ao vencido. Convocou-se o povo como para um grande espetáculo: as coortes pretorianas postaram-se em armas no campo que se estende diante do acampamento. Então, avançando os dependentes do rei, exibiram-se os ornamentos, os colares e os despojos que ele conquistara em guerras estrangeiras; em seguida os irmãos, a esposa e a filha, e por fim ele próprio foi mostrado. As súplicas dos demais foram aviltadas pelo medo; mas Carataco, sem rosto abatido nem palavras que buscassem compaixão, ao postar-se diante do tribunal, falou desta maneira:
"Se a moderação na prosperidade tivesse sido tão grande quanto foram a minha nobreza e a minha fortuna, eu teria vindo a esta cidade antes como amigo que como cativo, e não terias desdenhado receber em aliança de paz um homem descendente de ilustres antepassados e que comandava muitos povos. A minha sorte presente, se para mim é vergonhosa, para ti é magnífica. Tive cavalos, homens, armas e riquezas: que admira que eu os tenha perdido contra a vontade? Pois se vós quereis dominar a todos, segue-se que todos aceitem a servidão? Se eu fosse entregue logo, rendido, nem a minha sorte nem a tua glória teriam ganhado renome, e o esquecimento se seguiria ao meu suplício; mas se me preservares vivo, serei exemplo eterno da tua clemência." A isso o imperador concedeu perdão a ele, à esposa e aos irmãos. E eles, soltos das cadeias, veneraram também Agripina, visível não longe dali em outro estrado, com os mesmos louvores e agradecimentos que ao príncipe. Coisa nova, na verdade, e estranha aos costumes dos antigos, uma mulher presidir às insígnias romanas: ela própria se apresentava como sócia do império conquistado pelos seus antepassados.
Convocados depois disso os senadores, discorreram muito e com grandeza sobre o cativeiro de Carataco, dizendo que aquilo não era menos glorioso do que quando Públio Cipião exibiu Sífax, ou Lúcio Paulo exibiu Perseu, ou quaisquer outros generais mostraram reis acorrentados ao povo romano. Decretaram-se a Ostório as insígnias do triunfo. Até então suas coisas haviam sido prósperas, mas logo se tornaram incertas: seja porque, afastado Carataco, como se a guerra estivesse encerrada, a nossa atividade militar afrouxou, seja porque os inimigos, pela compaixão de tão grande rei, arderam com mais força para a vingança. Cercaram o prefeito do acampamento e as coortes legionárias deixadas para erguer fortalezas entre os siluros. E se não se tivesse acudido depressa, com socorros vindos das fortalezas próximas, teriam sucumbido à destruição total no cerco; ainda assim, o prefeito, oito centuriões e os mais valentes dos manípulos caíram. E não muito depois puseram em fuga os nossos que andavam forrageando e os esquadrões enviados em socorro.
Então Ostório opôs-lhes as coortes ligeiras, mas nem assim deteve a fuga, até que as legiões assumiram o combate. Com a força destas, a batalha equilibrou-se, e depois pendeu a nosso favor. Os inimigos escaparam com pequena perda, porque o dia declinava. Daí em diante houve combates frequentes, e mais à maneira de pilhagem, por bosques e por pântanos, conforme a sorte ou o valor de cada um, ao acaso, por ira ou por saque, ora por ordem, ora à revelia dos comandantes. Especial era a obstinação dos siluros, a quem inflamava uma frase divulgada do general romano: assim como antes os sicambros foram exterminados ou transferidos para as Gálias, do mesmo modo o nome dos siluros devia ser de todo extinto. Por isso interceptaram duas coortes auxiliares que, pela ganância dos prefeitos, saqueavam sem cautela; e, distribuindo despojos e prisioneiros, arrastavam também as outras nações à deserção, quando Ostório, esgotado pelo peso das preocupações, deixou a vida, com alegria dos inimigos, como se, ainda que não uma batalha, ao menos uma campanha tivesse consumido um general nada desprezível.
Mas o imperador, sabida a morte do legado, para que a província não ficasse sem governante, nomeou Aulo Dídio em seu lugar. Este, embora transportado com rapidez, não encontrou a situação restabelecida, pois entretanto fora desfavorável o combate da legião que Mânlio Valente comandava; e a fama do feito fora ampliada também entre os inimigos para aterrorizar o general que chegava, e ampliada por ele próprio ao ouvi-la, para que se lhe atribuísse maior louvor se restabelecesse a ordem e desculpa mais justa se ela perdurasse. Os siluros tinham infligido também esse dano e percorriam o território em larga extensão, até que foram repelidos com a chegada de Dídio. Mas, depois da captura de Carataco, o mais hábil na arte militar era Venúcio, da cidade dos brigantes, como acima mencionei, e por muito tempo fiel e defendido pelas armas romanas, enquanto manteve em matrimônio a rainha Cartimandua. Logo, surgida a separação e imediatamente a guerra, assumiu atitude hostil também contra nós. No princípio, mas, se combatia entre eles, e Cartimandua, por astúcias hábeis, capturou o irmão e os parentes de Venúcio. Daí inflamados, os inimigos, açoitados pela ignomínia de se submeterem ao domínio de uma mulher, invadiram o reino dela com mocidade forte e escolhida em armas. Isso fora por nós previsto, e as coortes enviadas em socorro travaram dura batalha, cujo início foi incerto mas o fim mais feliz. Com resultado não diferente lutou a legião comandada por Césio Násica; pois Dídio, pesado pela velhice e farto de honras, contentava-se em agir por meio de oficiais e em conter o inimigo. Esses fatos, embora realizados por dois propretores ao longo de vários anos, reuni-os para que, divididos, não valessem tanto para a memória; volto agora à ordem cronológica.
No quinto consulado de Tibério Cláudio, com Sérvio Cornélio Órfito como colega, antecipou-se a Nero a toga viril, para que parecesse apto a assumir os assuntos públicos. E o imperador cedeu de boa vontade às adulações do senado, de modo que aos vinte anos de idade Nero assumisse o consulado e, entretanto, como cônsul designado, tivesse poder proconsular fora da cidade e fosse chamado príncipe da juventude. Acrescentou-se um donativo aos soldados em seu nome e uma distribuição à plebe. E nos jogos do circo, celebrados para conquistar o favor do povo, Britânico desfilou com a pretexta e Nero com a veste triunfal: que o povo visse este com o adorno imperial e aquele com o traje infantil, e assim antecipasse a sorte de cada um. Ao mesmo tempo, os centuriões e tribunos que se compadeciam da sorte de Britânico foram afastados sob pretextos forjados, e outros sob aparência de honra; até dos libertos, se algum era de fidelidade incorrupta, foi expulso na seguinte ocasião: encontrando-se, Nero saudou Britânico por esse nome, e este saudou Nero como Domício. Agripina, com muita queixa, levou isso ao marido como começo de discórdia: desprezava-se a adoção, e o que os senadores decretaram e o povo ordenou era anulado dentro de casa; e, se não se reprimisse a perversidade tão hostil dos que assim o ensinavam, ela irromperia em ruína pública. Comovido com essas como que acusações, Cláudio puniu com o exílio ou a morte os melhores educadores do filho e pôs sob sua guarda homens designados pela madrasta.
Ainda assim, Agripina não ousava empreender o plano supremo, a menos que se afastassem do comando das coortes pretorianas Lúsio Geta e Rufrio Crispino, que ela cria leais à memória de Messalina e ligados aos filhos dela. Por isso, afirmando a esposa que as coortes se dividiam pela rivalidade dos dois e que a disciplina seria mais rigorosa se fossem regidas por um só, o comando das coortes foi transferido para Burro Afrânio, de excelente reputação militar, mas ciente de a quem devia a sua nomeação. Agripina também elevava mais alto a própria grandeza: entrava no Capitólio em carro, honra concedida desde a antiguidade aos sacerdotes e aos objetos sagrados, o que aumentava a veneração por uma mulher que, gerada de um imperador, fora irmã, esposa e mãe de quem deteve o poder, exemplo único até hoje. Entre isso, o seu principal defensor, Vitélio, no auge do favor, em extrema velhice (tão incertas são as coisas dos poderosos), foi atacado por uma acusação que tinha como autor o senador Júnio Lupo. Este lhe imputava crimes de lesa-majestade e ambição do poder. E o imperador teria dado ouvidos, se não tivesse sido demovido por Agripina, mais por ameaças que por súplicas, a interditar ao acusador a água e o fogo. Até Vitélio quisera chegar.
Muitos prodígios ocorreram naquele ano. O Capitólio foi pousado por aves de mau agouro, casas desabaram com frequentes tremores de terra e, à medida que o medo se alastrava, os mais fracos foram esmagados no pânico da multidão; também a falta de colheitas e a fome dela nascida eram recebidas como prodígio. E não houve apenas queixas ocultas: cercaram com clamores turbulentos Cláudio, que administrava a justiça, e, empurrando-o à força para a extremidade do foro, pressionaram-no até que ele rompeu por entre os enfurecidos com um pelotão de soldados. Constatou-se que à cidade não restavam alimentos para mais de quinze dias, e foi pela grande benevolência dos deuses e pela brandura do inverno que se acudiu à situação extrema. Pois, na verdade, no passado a Itália levava mantimentos para as legiões em províncias distantes, e nem agora se sofre por esterilidade do solo; mas preferimos cultivar a África e o Egito, e a vida do povo romano foi confiada a navios e aos seus acasos.
No mesmo ano, irrompeu uma guerra entre os armênios e os íberos, que foi causa de gravíssimos distúrbios também entre os partos e os romanos. Sobre o povo dos partos reinava Vologeses, de origem materna nascido de uma concubina grega, que obteve o reino pela renúncia dos irmãos. Os íberos eram possuídos por Farasmanes, em domínio antigo, e os armênios por seu irmão Mitridates, com o nosso apoio. Farasmanes tinha um filho chamado Radamisto, de bela estatura, notável pelo vigor do corpo e instruído nas artes da pátria, com fama célebre entre os vizinhos. Ele proclamava com ferocidade e frequência demasiadas que o pequeno reino da Ibéria era retido pela velhice do pai, e fazia isso de modo a não ocultar a sua ambição. Por isso Farasmanes, temendo em seus anos declinantes o jovem pronto para o poder e cercado pelo apoio popular, arrastou-o para outra esperança e lhe apontou a Armênia, lembrando que, expulsos os partos, ele a dera a Mitridates; mas que a violência devia ser adiada, e era preferível o ardil com que o esmagassem desprevenido. Assim Radamisto, simulando discórdia contra o pai, como se incapaz de suportar os ódios da madrasta, foi ter com o tio, e, tratado por ele com muita afabilidade, à imitação da afeição entre livres, atraiu os principais dos armênios a planos de revolta, sem que Mitridates soubesse, e até o cumulando de honras.
Assumida a aparência de reconciliação e regressado ao pai, anunciou que estava pronto o que se podia conseguir por fraude, e o restante devia executar-se pelas armas. Entretanto Farasmanes forjou pretextos de guerra: quando lutava contra o rei dos albanos e pedia auxílio aos romanos, seu irmão se opusera a ele, e essa injúria ele iria vingar com a destruição do próprio irmão; ao mesmo tempo entregou ao filho grandes tropas. Este, com súbita invasão, aterrou Mitridates, despojou-o dos campos abertos e o empurrou para a fortaleza de Górneas, segura pela posição e pela guarnição de soldados, que tinham por comandantes o prefeito Célio Pólio e o centurião Caspério. Nada é tão desconhecido dos bárbaros quanto as máquinas e a arte dos cercos, ao passo que para nós essa parte da arte militar é a mais conhecida. Assim Radamisto, tentadas em vão ou com perda as fortificações, iniciou o bloqueio; e, como a força fosse desprezada, comprou a ganância do prefeito, embora Caspério protestasse para que um rei aliado e a Armênia, dádiva do povo romano, não fossem entregues por crime e dinheiro. Por fim, como Pólio alegava a multidão dos inimigos e Radamisto as ordens do pai, Caspério, pactuada uma trégua, retirou-se, com a intenção, se não dissuadisse Farasmanes da guerra, de informar Úmidio Quadrato, governador da Síria, sobre o estado em que se achava a Armênia.
Com a partida do centurião, o prefeito, como que livre de vigilância, instou Mitridates a firmar um tratado, lembrando o laço entre irmãos, a precedência de idade de Farasmanes e os demais vínculos de parentesco, pois tinha a filha dele em matrimônio e era ele próprio sogro de Radamisto: os íberos não recusavam a paz, embora fossem no momento mais fortes; era bem conhecida a perfídia dos armênios, e não havia outro recurso senão uma fortaleza carente de mantimentos; por isso, que não preferisse arriscar-se às armas, de resultado duvidoso, em vez de condições incruentas. Como Mitridates hesitasse diante disso e suspeitasse dos conselhos do prefeito, porque este maculara uma concubina real e era tido por venal para toda devassidão, Caspério entrementes chegou até Farasmanes e exigiu que os íberos levantassem o cerco. Aquele, em público, respondia com vaguezas e muitas vezes com palavras mais brandas, mas por mensagens secretas advertia Radamisto a apressar o assalto por todos os meios. Aumentou-se o preço da infâmia, e Pólio, por suborno oculto, impeliu os soldados a reclamarem a paz e a ameaçarem abandonar a guarnição. Forçado por essa necessidade, Mitridates aceitou dia e lugar para o tratado e saiu da fortaleza.