Anais - Livro XII 1

Agripina, o casamento com Cláudio e a adoção de Nero

A morte de Messalina abalou a casa do príncipe, pois surgiu entre os libertos uma disputa sobre quem escolheria uma esposa para Cláudio, que não suportava a vida de solteiro e se submetia ao domínio das mulheres. Também as mulheres se inflamaram com ambição não menor: cada uma alegava sua nobreza, sua beleza e suas riquezas, e exibia os méritos que a tornavam digna de tão alto casamento. A maior disputa, mas, dava-se entre Lólia Paulina, filha do consular Marco Lólio, e Júlia Agripina, filha de Germânico. Pallas apoiava esta; Calisto apoiava aquela; e Élia Petina, da família dos Tuberões, era favorecida por Narciso. O próprio Cláudio inclinava-se ora para um lado, ora para outro, conforme ouvia cada um dos que o aconselhavam, e convocou os que discordavam a uma reunião, ordenando que expusessem suas opiniões e apresentassem suas razões.
Narciso falava do antigo casamento, da filha que tinham em comum (pois Antônia era filha de Petina) e de que nada de novo entraria em sua casa se a esposa de costume retornasse, pois ela não veria com ódios de madrasta a Britânico e a Otávia, que lhe eram tão caros quanto os próprios filhos. Calisto argumentava que ela estava desacreditada pela longa separação, e que, se fosse tomada de novo, ficaria soberba por isso mesmo; era muito mais acertado trazer Lólia, que, por não ter gerado filho algum, estaria livre de rivalidade e ocuparia o lugar de mãe para os enteados. Pallas louvava em Agripina sobretudo o fato de ela trazer consigo o neto de Germânico, plenamente digno da dignidade imperial: assim uniria uma linhagem nobre e os descendentes das famílias Júlia e Cláudia, para que uma mulher de fecundidade comprovada e de juventude intacta não levasse a glória dos Césares para outra casa.
Prevaleceu esse conselho, favorecido pelos encantos de Agripina. A pretexto do parentesco, ela visitava o tio com frequência e o seduziu de tal modo que, preferida às demais e ainda sem ser esposa, exercia o poder de esposa. Pois, logo que se viu certa de seu casamento, começou a tramar planos maiores e empenhou-se nas núpcias de Domício, filho que tivera de Cneu Enobarbo, com Otávia, filha de César. Isso não podia realizar-se sem crime, pois César havia prometido Otávia a Lúcio Silano, jovem ilustre por outros motivos, a quem dera destaque diante do favor popular com a honra das insígnias triunfais e com a magnificência de um espetáculo de gladiadores. Nada, mas, parecia difícil para o ânimo de um príncipe que não tinha juízo nem ódio senão os que lhe eram incutidos e ordenados.
Por isso Vitélio, encobrindo com o título de censor as trapaças de um escravo e prevendo as tiranias que se aproximavam, para granjear o favor de Agripina envolveu-se em seus planos e passou a lançar acusações contra Silano, cuja irmã, Júnia Calvina, de fato bela e travessa, fora pouco antes nora de Vitélio. Daí o início da acusação; e ele torceu para a infâmia o amor entre os irmãos, não incestuoso, mas pouco vigiado. César dava ouvidos, mais inclinado a aceitar suspeitas contra o genro pelo afeto à filha. Silano, ignorando a cilada e sendo por acaso pretor naquele ano, foi de repente removido da ordem senatorial por um edito de Vitélio, embora o senado tivesse sido revisto pouco antes e o censo encerrado. Ao mesmo tempo Cláudio rompeu o parentesco, Silano foi forçado a renunciar à magistratura, e o dia restante de sua pretura foi transferido a Éprio Marcelo.
No consulado de Caio Pompeu e Quinto Verânio, o casamento ajustado entre Cláudio e Agripina se firmava pela fama e pelo amor ilícito; mas ainda não ousavam celebrar as solenidades das núpcias, pois não havia exemplo de uma sobrinha, filha do irmão, levada à casa do tio. Temia-se até que fosse incesto e que, se desprezado, irrompesse em desgraça pública. A hesitação não cessou antes que Vitélio tomasse a si realizar a coisa por suas artes. Tendo perguntado a César se cederia às ordens do povo e à autoridade do senado, e respondendo este que era apenas um dos cidadãos e incapaz de resistir ao consenso, Vitélio ordenou-lhe que aguardasse dentro do palácio. Ele próprio entrou na cúria e, protestando que estava em jogo o interesse supremo da república, pediu licença para falar antes dos outros e começou: os gravíssimos trabalhos do príncipe, com que governa o mundo inteiro, exigiam auxílio para que, livre dos cuidados domésticos, ele velasse pelo bem comum. E que alívio mais honesto havia para o ânimo de um censor do que tomar uma esposa, companheira na prosperidade e na adversidade, a quem confiar os pensamentos mais íntimos e os filhos pequenos, sendo ele não habituado ao luxo nem aos prazeres, mas obediente às leis desde a primeira juventude.
Depois de antepor esses argumentos em discurso favorável, e seguindo-se muita aprovação dos senadores, Vitélio retomou o início: que todos aconselhavam o casamento do príncipe, convinha escolher uma mulher notável por nobreza, por filhos e por pureza. Não era preciso longa busca para ver que Agripina sobressaía pelo esplendor da linhagem: ela dera prova de fecundidade e tinha qualidades morais condizentes. Era, de fato, algo singular que, por providência dos deuses, uma viúva se unisse a um príncipe que conhecera os próprios casamentos. Tinham ouvido dos pais e visto eles mesmos esposas serem arrebatadas ao capricho dos Césares: isso era alheio à moderação presente. Que se estabelecesse, ao contrário, um modelo de como um imperador deve tomar esposa. Mas dirão que para nós o casamento com filhas de irmãos é novidade: contudo, é comum entre outros povos e não é proibido por lei alguma; e os casamentos entre primos, por muito tempo ignorados, com o passar do tempo tornaram-se frequentes. O costume adapta-se conforme convém, e também isto viria a estar entre as práticas que em breve seriam adotadas.
Não faltaram os que, em disputa, irromperam da cúria declarando que, se César hesitasse, agiriam à força. Reuniu-se uma multidão mista que clamava que o povo romano pedia o mesmo. Cláudio, sem esperar mais, apresentou-se no foro aos que o felicitavam e, entrando no senado, pediu um decreto que estabelecesse legítimos, também para o futuro, os casamentos entre tios e filhas de irmãos. Ainda assim, achou-se apenas um único desejoso de tal matrimônio, Aledio Severo, cavaleiro romano, que muitos diziam impelido pelo favor de Agripina. Desde então a cidade mudou, e tudo obedecia a uma mulher, que não brincava com os assuntos de Roma por lascívia, como Messalina. Era uma servidão rígida e, por assim dizer, viril: em público, severidade e muitas vezes soberba; em casa, nada de impudico, a não ser que conviesse ao domínio. Uma cobiça imensa de ouro tinha por pretexto que se acumulavam riquezas como apoio ao trono.
No dia das núpcias Silano deu-se a morte, fosse porque até então prolongara a esperança de vida, fosse porque escolhera aquele dia para aumentar o ódio público. Sua irmã Calvina foi expulsa da Itália. Cláudio acrescentou que sacrifícios segundo as leis do rei Túlio e expiações deviam ser oferecidos pelos pontífices no bosque de Diana, com a zombaria geral por se buscarem penas e ritos de purificação para o incesto naquele momento. Agripina, para não se tornar conhecida apenas por más ações, obteve o perdão do exílio para Aneu Sêneca e, ao mesmo tempo, a pretura, julgando isso bem-vindo ao público pela fama de seus estudos, e para que a infância de Domício crescesse sob tal mestre e ambos se servissem de seus conselhos para a esperança de domínio, pois acreditava-se que Sêneca era leal a Agripina pela memória do benefício e hostil a Cláudio pelo ressentimento da injúria.
Decidiu-se então não adiar mais. Induziram o cônsul designado Mâmio Polião, com grandes promessas, a apresentar uma proposta em que se pedia a Cláudio que prometesse Otávia a Domício, o que não destoava da idade de ambos e abriria caminho para coisas maiores. Polião opinou em termos não muito diferentes dos que Vitélio usara pouco antes; e Otávia foi prometida, de modo que Domício, além do parentesco anterior, tornou-se noivo e genro do imperador, igualado a Britânico pelos esforços da mãe e pela astúcia daqueles que, por terem acusado Messalina, temiam a vingança de seu filho.
Pelo mesmo tempo, os embaixadores dos partos, enviados para pedir Meérdates, como referi, entram no senado e iniciam sua mensagem deste modo: não vinham por ignorarem o tratado nem por defecção da família dos Arsácidas, mas para reclamar o filho de Vonones, neto de Frátes, contra a tirania de Gotarzes, igualmente intolerável à nobreza e à plebe. irmãos, parentes, os mais afastados haviam sido consumidos por matanças; a isso se acrescentavam esposas grávidas e filhos pequenos, enquanto, indolente em casa e infeliz na guerra, ele encobria a covardia com a crueldade. Havia entre eles e nós uma amizade antiga e iniciada por acordo público, e era preciso socorrer aliados que rivalizavam conosco em força e cediam por respeito. Por isso eram dados como reféns os filhos dos reis, para que, se enjoasse o governo doméstico, houvesse retorno ao príncipe e aos senadores, e, acostumado a seus costumes, se aceitasse um rei melhor.
Quando expuseram essas coisas e outras semelhantes, César começa um discurso sobre a grandeza romana e a submissão dos partos, igualando-se ao divino Augusto e lembrando que dele se pedira um rei, omitindo a memória de Tibério, embora também este lhes tivesse enviado soberanos. Acrescentou conselhos (pois Meérdates estava presente), para que não pensasse em tirania e escravos, mas em governar como chefe entre concidadãos, e praticasse a clemência e a justiça, tanto mais gratas aos bárbaros quanto menos conhecidas. Depois, voltando-se aos embaixadores, exaltou com louvores o protegido de Roma, de moderação até então notável: ainda assim, era preciso suportar a índole dos reis, e as frequentes mudanças não eram úteis. O Estado romano chegara a tal saciedade de glória que desejava o sossego até para os povos estrangeiros. Encarregou-se em seguida Caio Cássio, que governava a Síria, de conduzir o jovem à margem do Eufrates.
Naquele tempo Cássio sobressaía aos demais pelo conhecimento das leis: pois as artes militares ficam esquecidas no ócio, e a paz iguala os diligentes e os indolentes. Ainda assim, na medida em que era possível sem guerra, restaurava o antigo costume, exercitava as legiões e agia com cuidado e previdência como se um inimigo o ameaçasse: assim se mostrava digno de seus antepassados e da família Cássia, célebre também naquelas regiões. Tendo então convocado aqueles por cujo conselho se pedira um rei, e instalado o acampamento em Zeugma, onde o rio é mais transponível, depois de chegarem os partos ilustres e Acbaro, rei dos árabes, adverte Meérdates de que os ímpetos dos bárbaros, agudos no início, definham com a demora ou se transformam em perfídia: por isso apressasse o empreendimento. Esse conselho foi desprezado pela fraude de Acbaro, que reteve por muitos dias na cidade de Edessa o jovem inexperiente, que julgava a suprema fortuna estar no luxo. E, embora Carenes os chamasse e mostrasse a empresa fácil se chegassem depressa, não se dirigiram à Mesopotâmia, próxima, mas, por um desvio, à Armênia, então inadequada por começar o inverno.
Em seguida, fatigados pelas neves e pelos montes, depois de se aproximarem das planícies, juntam-se às tropas de Carenes e, tendo atravessado o rio Tigre, percorrem o país dos adiabenos, cujo rei Izates abraçara abertamente a aliança de Meérdates, mas em segredo e com mais fidelidade inclinava-se para Gotarzes. No trajeto, foi tomada a cidade de Nínive, sede antiquíssima da Assíria, e um forte famoso pela tradição, por ali terem ruído as forças dos persas na última batalha entre Dario e Alexandre. Entretanto Gotarzes, num monte chamado Sambulos, fazia votos aos deuses do lugar, com especial devoção a Hércules, que em tempo certo, em sonho, avisa os sacerdotes para porem junto ao templo cavalos preparados para a caça. Quando os cavalos recebem as aljavas carregadas de flechas, vagueiam pelos bosques e enfim, à noite, voltam com as aljavas vazias, ofegando muito. De novo o deus, em visão noturna, indica por onde percorreu as florestas, e encontram-se feras abatidas por toda parte.
De resto, Gotarzes, cujo exército ainda não estava suficientemente reforçado, usava o rio Corma como defesa e, embora fosse provocado ao combate por insultos e mensageiros, urdia delongas, mudava de posição e, enviando corruptores, tentava comprar a deserção dos inimigos. Por isso, Izates dos adiabenos e logo Acbaro dos árabes retiram-se com seus exércitos, por leviandade própria de sua gente e porque a experiência mostrara que os bárbaros preferem pedir reis a Roma a tê-los de fato. Meérdates, despojado dos auxílios poderosos e suspeitando da traição dos demais, resolveu, como único recurso restante, entregar tudo ao acaso e tentar a sorte em batalha. Nem Gotarzes recusou o combate, ousado pela diminuição dos inimigos; travou-se com grande matança e resultado incerto, até que Carenes, vencidos os que tinha pela frente, avançou longe demais e foi cercado por trás por um destacamento intacto. Então, perdida toda esperança, Meérdates, seguindo as promessas de Parraces, cliente de seu pai, foi vencido pelo dolo deste e entregue ao vencedor. E aquele, censurando-o por não ser parente nem da raça de Arsaces, mas estrangeiro e romano, mandou-o viver com as orelhas cortadas, como ostentação de sua própria clemência e como desonra para nós. Depois Gotarzes morreu de doença, e foi chamado ao trono Vonones, então governador dos medos. Nada de próspero ou adverso a recordar dele: cumpriu um reinado breve e sem glória, e o poder dos partos passou a seu filho Vologeso.
Entretanto Mitrídates do Bósforo, perdidas as forças e andando errante, depois de saber que o general romano Dídio e o grosso do exército haviam partido, e que ficaram no novo reino Cótis, jovem inexperiente, e poucas coortes com Júlio Áquila, cavaleiro romano, desprezando a ambos, sublevou os povos vizinhos e atraiu desertores; por fim, reunido um exército, expulsa o rei dos dandárides e apodera-se de seu domínio. Quando isso foi conhecido e se julgava iminente a invasão do Bósforo, Áquila e Cótis, desconfiados das próprias forças por Zorsines, rei dos siracos, ter retomado as hostilidades, também eles buscaram apoios externos, enviando embaixadores a Eunones, que chefiava o povo dos aorsos. Não foi difícil a aliança, ao mostrarem o poder de Roma contra o rebelde Mitrídates. Combinaram, pois, que Eunones combatesse com a cavalaria e os romanos se encarregassem do cerco das cidades.
Então avançam em formação ordenada, cuja frente e retaguarda os aorsos protegiam, e o centro, as coortes e os do Bósforo armados à nossa maneira. Assim o inimigo foi rechaçado, e chegou-se a Soza, cidade da Dandárica, que, abandonada por Mitrídates por causa dos ânimos incertos dos habitantes, pareceu conveniente ocupar, deixando ali uma guarnição. Em seguida marcham contra os siracos e, atravessado o rio Panda, cercam a cidade de Uspe, situada em lugar alto e defendida por muralhas e fossos; que as muralhas não eram de pedra, mas de grades e vime com terra no meio, e eram fracas contra os que irrompiam. As torres, erguidas mais alto, perturbavam os sitiados com tochas e lanças. E, se a noite não tivesse interrompido o combate, o assalto teria sido iniciado e concluído num dia.
No dia seguinte enviaram embaixadores pedindo clemência para os homens livres: ofereciam dez mil escravos. Os vencedores rejeitaram isso, porque massacrar os que se rendiam era cruel e cercar com guarda tão grande multidão era difícil: que antes caíssem pelo direito da guerra, e deu-se o sinal de matança aos soldados que haviam subido pelas escadas. A destruição de Uspe lançou o medo sobre os demais, que julgaram nada seguro, pois armas, fortificações, lugares de difícil acesso ou elevados, rios e cidades por igual eram rompidos. Por isso Zorsines, depois de muito ponderar se atenderia à fortuna extrema de Mitrídates ou ao reino paterno, quando prevaleceu o interesse de seu povo, deu reféns e prostrou-se diante da imagem de César, para grande glória do exército romano, que, segundo se sabe, vencedor e sem derramamento de sangue, chegara a três dias de marcha do rio Tánais. No regresso, mas, a sorte não foi igual, pois alguns dos navios que voltavam pelo mar foram levados às costas dos tauros e cercados pelos bárbaros, com a morte do prefeito de uma coorte e da maior parte dos auxiliares.
Entretanto Mitrídates, sem nenhum recurso nas armas, considerava de quem experimentaria a misericórdia. Temia o irmão Cótis, antes traidor, depois inimigo declarado: nenhum romano de autoridade suficiente para que suas promessas valessem muito estava presente. Voltou-se para Eunones, que não lhe era hostil por ódios pessoais e era forte pela amizade recém-firmada conosco. Por isso, ajustando o traje e a expressão o mais possível à fortuna presente, entra no palácio e, lançando-se aos joelhos dele, diz: "Eu, Mitrídates, procurado por tantos anos pelos romanos por terra e por mar, apresento-me por minha própria vontade: usa, como quiseres, do descendente do grande Aquêmenes, a única coisa que os inimigos não me arrebataram."
Mas Eunones, comovido pela fama do homem, pela mudança das coisas e por uma súplica nada indigna, ergue o suplicante e o louva por ter escolhido o povo dos aorsos e a sua própria mão para pedir clemência. Ao mesmo tempo envia embaixadores e uma carta a César deste teor: entre os imperadores do povo romano e os reis de grandes nações, a primeira amizade nasce da semelhança de fortuna, e entre ele e Cláudio havia também a comunhão da vitória. Os fins das guerras são gloriosos sempre que se resolvem pelo perdão: assim, nada fora tirado a Zorsines vencido. Quanto a Mitrídates, que merecia castigo mais pesado, não pedia para ele poder nem reino, mas apenas que não fosse levado em triunfo nem pagasse a pena com a cabeça.
Cláudio, ainda que clemente com os príncipes estrangeiros, hesitou se seria mais acertado receber o cativo com promessa de salvação ou reclamá-lo pelas armas. A isto o impeliam a dor das ofensas e o desejo de vingança; mas, em contrário, argumentava-se que se empreenderia uma guerra por caminho sem trilhas, num mar sem portos; e ainda havia reis ferozes, povos errantes, solo pobre de cereais, o tédio da demora, os perigos da pressa, glória modesta para os vencedores e muita infâmia se fossem repelidos. Por que não aproveitar o que se oferecia e poupar o exilado, para quem, na pobreza, quanto mais longa a vida, tanto maior o suplício? Movido por isso, escreveu a Eunones que Mitrídates merecia, de fato, exemplos extremos, e que não lhe faltava força para executá-los; mas assim agradara aos antepassados: usar de tanta benevolência para com os suplicantes quanta a obstinação contra o inimigo, pois os triunfos se ganham sobre povos e reinos íntegros.
Depois disso, Mitrídates foi entregue e levado a Roma por Júnio Cilo, procurador do Ponto. Dizia-se que ele falara diante de César com mais altivez do que convinha à sua fortuna, e uma frase sua espalhou-se entre o povo nestas palavras: "Não fui enviado de volta a ti, mas voltei: ou, se não acreditas, deixa-me ir e procura-me." Manteve também o semblante impassível quando, cercado de guardas junto à Rostra, foi exposto ao olhar do povo. A Cilo foram decretadas as insígnias consulares; a Áquila, as pretorianas.
Sob os mesmos cônsules, Agripina, atroz em seu ódio e hostil a Lólia por ter competido com ela pelo casamento do príncipe, urdiu acusações e um acusador que a incriminasse de ter consultado caldeus, magos e a imagem de Apolo Clário sobre as núpcias do imperador. Cláudio, então, sem ouvir a ré, depois de muito falar ao senado sobre o esplendor dela, dizendo que era filha da irmã de Lúcio Volúsio, que tinha por tio-avô Cota Messalino e que fora antes casada com Mêmio Régulo (pois sobre o casamento com Caio César calava de propósito), acrescentou que ela tinha planos perniciosos contra a república e que se lhe deviam tirar os meios de crime: por isso, confiscados os bens, deixasse a Itália. Assim, de riquezas imensas, restaram à exilada cinco milhões de sestércios. Também Calpúrnia, mulher ilustre, foi arruinada, porque o príncipe lhe louvara a beleza, sem nenhuma paixão, mas em conversa casual, donde a ira de Agripina parou aquém do extremo. Contra Lólia foi enviado um tribuno para forçá-la à morte. Também foi condenado pela lei contra a extorsão Cádio Rufo, sob a acusação dos bitínios.
À Gália Narbonense, por sua notável reverência aos senadores, concedeu-se que os senadores daquela província pudessem visitar seus bens sem buscar a aprovação do príncipe, pelo mesmo direito de que gozava a Sicília. Os itureus e os judeus, mortos seus reis Sohemo e Agripa, foram anexados à província da Síria. Decidiu-se que o augúrio da Salvação, omitido por setenta e cinco anos, fosse retomado e dali em diante mantido. César ampliou também o pomério da cidade, segundo o costume antigo, pelo qual se concede aos que dilataram o império estender também os limites da cidade. Contudo, nenhum general romano, ainda que tivesse subjugado grandes nações, usara desse direito, exceto Lúcio Sila e o divino Augusto.
A ambição ou a glória dos reis nesse ponto foi divulgada de modos variados; mas conhecer o início da fundação e o pomério que Rômulo traçou não julgo absurdo. Pois, a partir do foro boário, onde vemos a estátua de bronze de um touro, por ser esse tipo de animal posto ao arado, começou-se o sulco que demarcava a cidade de modo a abranger a grande ara de Hércules; daí, a intervalos certos, foram colocadas pedras ao longo do do monte Palatino até a ara de Conso, depois às cúrias antigas, em seguida ao santuário dos Lares, dali ao foro romano; e creram que o foro e o Capitólio foram acrescentados à cidade não por Rômulo, mas por Tito Tácio. Depois, com a fortuna, o pomério foi ampliado. E os limites que então Cláudio fixou são fáceis de conhecer, registrados nos atos públicos.
No consulado de Caio Antístio e Marco Suílio, a adoção de Domício foi apressada pela influência de Pallas, que, ligado a Agripina como promotor de seu casamento e depois preso por seu adultério, instigava Cláudio a cuidar da república e cercar de apoio a infância de Britânico: assim, junto ao divino Augusto, embora amparado por netos, tinham prosperado os enteados; e Tibério, além da própria linhagem, adotara Germânico; também ele se preparasse com um jovem que assumisse parte dos cuidados. Vencido por esses argumentos, antepõe ao próprio filho Domício, mais velho três anos, e proferiu no senado um discurso do mesmo teor que recebera do liberto. Os entendidos notavam que não se encontrava antes nenhuma adoção entre os patrícios Cláudios, e que estes haviam durado em linha contínua desde Ato Clauso.