Anais - Livro XII 3

Agripina, o casamento com Cláudio e a adoção de Nero

A princípio Radamisto lançou-se nos braços de Mitrídates, fingindo submissão e chamando-o de sogro e pai. Acrescentou um juramento de que não lhe faria violência nem pelo ferro nem pelo veneno. Ao mesmo tempo o levou para um bosque próximo, repetindo que ali estava preparado o sacrifício previsto, para que a paz fosse firmada com os deuses por testemunhas. É costume desses reis, sempre que firmam aliança, unir as mãos direitas, atar entre si os polegares e prendê-los com um apertado; depois, quando o sangue se acumula nas extremidades, fazem-no escorrer com um golpe leve e o lambem um do outro. Esse pacto é tido por sagrado e secreto, como que consagrado pelo sangue mútuo. Mas, naquela ocasião, aquele que ajustava esses laços, fingindo que o se soltara, agarrou de súbito os joelhos de Mitrídates e o derrubou ao chão. No mesmo instante, com a corrida de muitos, lançaram-lhe correntes. Foi arrastado por uma cadeia nos pés, o que é vergonhoso para os bárbaros; e logo, porque o povo fora mantido sob domínio duro, lançava-lhe insultos e ameaças. Havia, ao contrário, os que se compadeciam de tamanha reviravolta da sorte. Sua esposa o seguiu com os filhos pequenos e enchia tudo de lamentos. Foram escondidos em carros separados e cobertos, até que se conhecessem as ordens de Farasmanes. Para ele, o desejo de reinar valia mais que o irmão e a filha, e seu ânimo estava pronto para crimes; cuidou, no entanto, da própria vista, para não os matar diante dele. E Radamisto, como se lembrado do juramento, não recorreu ao ferro nem ao veneno contra a irmã e o tio, mas, lançando-os ao chão e cobrindo-os com muitas e pesadas vestes, sufocou-os. Os filhos de Mitrídates também foram mortos, porque tinham chorado pelo assassinato dos pais.
Quadrato, ao saber que Mitrídates fora traído e que o reino estava nas mãos dos assassinos, convocou um conselho, expôs o ocorrido e deliberou se devia vingar-se. Poucos se importavam com a honra do Estado; a maioria defendeu o caminho seguro: todo crime cometido em país estrangeiro devia ser recebido com alegria; convinha até semear discórdias, assim como os príncipes romanos muitas vezes haviam entregue essa mesma Armênia, sob aparência de generosidade, para perturbar os ânimos dos bárbaros. Que Radamisto ficasse com o que mal adquirira, enquanto fosse odiado e infame, pois isso era mais útil a Roma do que se ele tivesse alcançado o reino com glória. Adotou-se essa opinião. Para que não parecesse, mas, que aprovavam o crime, e caso o imperador ordenasse o contrário, enviaram mensageiros a Farasmanes para que se retirasse das fronteiras da Armênia e levasse embora o filho.
Era procurador da Capadócia Júlio Peligno, desprezível tanto pela covardia do ânimo quanto pelo ridículo do corpo, mas muito íntimo de Cláudio, que, quando ainda era cidadão comum, distraía o tédio do seu ócio na companhia de bufões. Esse Peligno, reunindo tropas auxiliares dos provincianos, como se fosse reconquistar a Armênia, mais saqueava os aliados do que os inimigos; e, com a deserção dos seus e os ataques dos bárbaros, ficou sem proteção e foi até Radamisto. Vencido pelos presentes dele, chegou a exortá-lo a tomar as insígnias reais, e assistiu como autor e cúmplice quando ele as assumiu. Quando esse fato vergonhoso se espalhou, para que os demais governadores não fossem julgados pelo exemplo de Peligno, foi enviado o legado Helvídio Prisco com uma legião, para resolver a situação conturbada conforme as circunstâncias. Atravessou então depressa o monte Tauro e organizou as coisas mais pela moderação que pela força; mas, ao retornar para a Síria, recebeu ordem para que não surgisse um começo de guerra contra os partos.
Pois Vologeses, julgando que se lhe oferecia a ocasião de invadir a Armênia, que fora possessão de seus antepassados e era agora ocupada de modo criminoso por um rei estrangeiro, reuniu suas tropas e preparou-se para conduzir ao trono o irmão Tirídates, para que nenhum membro da sua casa ficasse sem poder. Diante do avanço dos partos, os iberos foram expulsos sem combate, e as cidades armênias de Artaxata e Tigranocerta aceitaram o jugo. Em seguida, um inverno terrível, suprimentos mal providos e a doença surgida de ambos forçaram Vologeses a abandonar os planos do momento. Radamisto invadiu de novo a Armênia, agora sem rei, mais cruel que antes, como se contra desertores prontos a se rebelar na primeira oportunidade. E eles, embora acostumados à servidão, romperam a paciência e cercaram o palácio com armas.
Não houve para Radamisto outro recurso senão a rapidez dos cavalos, com os quais salvou a si e à esposa. Mas a esposa, grávida, suportou de algum modo a primeira parte da fuga, por medo do inimigo e por amor ao marido; depois, com a pressa contínua, quando o ventre é sacudido e as entranhas estremecem, suplicou que ele a livrasse com uma morte honrosa das humilhações do cativeiro. Ele a princípio a abraçava, a amparava, a animava, ora admirando sua coragem, ora aflito de medo de que algum homem a possuísse se a deixasse para trás. Por fim, pela violência do amor e por não ser inexperiente em crimes, desembainhou a cimitarra e, depois de feri-la, arrastou-a até a margem do Araxes e a entregou ao rio, para que o corpo também fosse levado pela corrente. Ele próprio fugiu de cabeça baixa para a Ibéria, seu reino paterno. Enquanto isso, Zenóbia (esse era o nome da mulher), respirando ainda na água calma e dando sinais de vida, foi avistada por pastores, que, julgando-a de origem nobre pela dignidade da figura, ataram-lhe a ferida e aplicaram remédios rústicos. Conhecidos o nome e o ocorrido, levaram-na à cidade de Artaxata; de foi conduzida por conta pública até Tirídates, recebida com cortesia e tratada com fausto de rainha.
No consulado de Fausto Sula e Sálvio Otão, Fúrio Escriboniano foi enviado ao exílio, sob a acusação de consultar os caldeus sobre o fim do imperador. À acusação ligava-se Víbia, sua mãe, como inconformada com o infortúnio anterior, pois fora relegada. O pai de Escriboniano, Camilo, movera armas pela Dalmácia; e o imperador atribuía à própria clemência o fato de conservar mais uma vez uma estirpe inimiga. O desterrado, mas, não teve vida longa depois disso: se foi extinto por morte natural ou por veneno, cada um divulgava conforme acreditava. Aprovou-se um decreto do senado para expulsar os matemáticos da Itália, severo e inútil. Foram em seguida elogiados, num discurso do príncipe, os que, por estreiteza de recursos, espontaneamente se retiravam da ordem senatorial, e foram afastados os que, permanecendo nela, somavam à pobreza o descaramento.
Nesse meio-tempo, ele submeteu aos senadores a questão da pena das mulheres que se unissem a escravos; decidiu-se que, se assim caíssem sem o senhor saber, fossem reduzidas à servidão, mas, se ele consentisse, fossem tidas por libertas. A Palas, que o imperador apontara como autor dessa proposta, o cônsul designado Bareia Sorano propôs as insígnias pretorianas e quinze milhões de sestércios. Cornélio Cipião acrescentou que se lhe deviam dar graças publicamente, porque, descendente dos reis da Arcádia, antepunha o bem público à sua antiquíssima nobreza e consentia em ser contado entre os servidores do príncipe. Cláudio afirmou que Palas, satisfeito com a honra, permanecia em sua antiga pobreza. E foi fixado em bronze público um decreto do senado em que um liberto, possuidor de trezentos milhões de sestércios, era cumulado de louvores por sua antiga parcimônia.
O irmão dele, de sobrenome Félix, não agia com igual moderação. Havia algum tempo posto à frente da Judeia, julgava que podia cometer impunemente toda maldade, apoiado por tão grande poder. É verdade que os judeus tinham dado mostras de agitação numa revolta, depois que, conhecida a morte de Caio, não houve submissão, pois persistia o medo de que algum dos príncipes ordenasse o mesmo. Entretanto, Félix, com remédios inoportunos, atiçava os delitos, tendo como rival na pior maldade Ventídio Cumano, a quem cabia parte da província, dividida de tal modo que a este obedecia a nação dos galileus e a Félix os samaritanos, povos havia muito em discórdia e então, por desprezo aos governantes, menos contidos no ódio. Por isso saqueavam-se mutuamente, lançavam bandos de salteadores, armavam emboscadas e às vezes travavam combates, e levavam aos procuradores os despojos e as presas. Estes a princípio se alegravam, mas, com o mal crescendo, quando interpuseram a força militar, os soldados foram massacrados; e a província teria ardido em guerra, se Quadrato, governador da Síria, não tivesse intervindo. Quanto aos judeus que se haviam lançado à matança dos soldados, não houve muita dúvida de que pagassem com a vida; Cumano e Félix causavam demora, porque Cláudio, ouvidas as causas da rebelião, dera também o direito de julgar sobre os procuradores. Mas Quadrato colocou Félix entre os juízes, recebendo-o no tribunal para desencorajar o ardor dos acusadores; Cumano foi condenado pelos crimes que os dois tinham cometido, e a tranquilidade foi devolvida à província.
Não muito depois, as tribos dos cilícios montanheses, chamados clitas, muitas vezes agitadas, ocuparam então, sob o comando de Troxóboro, montes ásperos com acampamentos e, descendo dali até o litoral ou às cidades, ousavam violentar lavradores e habitantes, e na maioria das vezes mercadores e armadores de navios. Foi sitiada a cidade de Anemúrio, e os cavaleiros enviados da Síria em socorro, com o prefeito Cúrcio Severo, foram postos em desordem, porque os lugares acidentados ao redor, próprios para o combate de infantaria, não permitiam o combate de cavalaria. Depois, Antíoco, rei daquela costa, tendo dissociado as tropas dos bárbaros com lisonjas ao povo e traição contra o chefe, matou Troxóboro e poucos dos principais, e apaziguou os demais com clemência.
Por essa mesma época, perfurada a montanha entre o lago Fucino e o rio Líris, e para que a magnificência da obra fosse vista por muitos, organizou-se no próprio lago um combate naval, como antes Augusto exibira, construindo um tanque do outro lado do Tibre, mas com embarcações leves e em menor número. Cláudio armou trirremes e quadrirremes e dezenove mil homens, cercando o perímetro com jangadas para que não houvesse fugas dispersas, mas deixando ainda espaço para a força dos remadores, a perícia dos pilotos, o ímpeto dos navios e o que é usual num combate. Nas jangadas postaram-se os manípulos e esquadrões das coortes pretorianas, com parapeitos à frente, dos quais se disparavam catapultas e balistas. O resto do lago era ocupado por marinheiros em navios cobertos. As margens, as colinas e os cumes dos montes, à maneira de um teatro, foram preenchidos por uma multidão incontável, vinda dos municípios próximos e da própria cidade, por desejo de ver o espetáculo ou em homenagem ao príncipe. Ele presidiu com um insigne manto militar e, não longe, Agripina, com uma capa de ouro. Combateu-se com o ânimo de homens valentes, embora fossem condenados, e, depois de muitos ferimentos, foram poupados da morte.
Concluído o espetáculo, abriu-se a saída das águas. Tornou-se evidente o descuido da obra, escavada pouco abaixo do fundo ou do meio do lago. Por isso, decorrido algum tempo, o túnel foi escavado mais fundo, e, para atrair de novo a multidão, exibiu-se um espetáculo de gladiadores, com pontes colocadas para um combate de infantaria. Houve até um banquete junto ao escoadouro do lago, que encheu a todos de grande pavor, porque a força das águas, irrompendo, arrastava o que estava próximo, abalava o que estava mais longe e aterrorizava com o estrondo e o ruído. Ao mesmo tempo, Agripina, aproveitando o susto do príncipe, acusou de cobiça e roubo Narciso, o encarregado da obra. Ele não se calou, censurando a arrogância da mulher e suas esperanças desmedidas.
No consulado de Décimo Júnio e Quinto Hatério, Nero, com dezesseis anos de idade, recebeu em casamento Otávia, filha do imperador. E, para sobressair em ocupações honrosas e na glória da eloquência, tomou a causa dos habitantes de Ílion e, recordando com eloquência que Roma descendia de Troia e que Eneias era o fundador da estirpe Júlia, e outras tradições antigas próximas das fábulas, conseguiu que os de Ílion fossem livres de todo encargo público. Pelo mesmo orador socorreu-se a colônia de Bonônia, devastada por um incêndio, com uma doação de dez milhões de sestércios. Devolveu-se a liberdade aos ródios, muitas vezes tirada ou confirmada conforme tivessem merecido nas guerras externas ou faltado em casa por sedição; e remitiu-se por cinco anos o tributo aos habitantes de Apameia, abalados por um terremoto.
Cláudio, por sua vez, era levado a tomar as medidas mais cruéis pelos artifícios da mesma Agripina, que arruinou Estatílio Tauro, célebre pela riqueza, por cobiçar os jardins dele, sob a acusação de Tarquício Prisco. Esse Tarquício, legado de Tauro quando governava a África com poder proconsular, depois que voltaram, imputou-lhe poucos crimes de extorsão, mas sobretudo práticas mágicas e supersticiosas. E Tauro, não suportando por mais tempo um acusador falso e uma humilhação indigna, pôs fim violento à própria vida antes da decisão do senado. Tarquício, contudo, foi expulso da cúria, o que os senadores conseguiram por ódio ao delator, contra a influência de Agripina.
No mesmo ano, ouviu-se muitas vezes a voz do príncipe declarando que as decisões julgadas por seus procuradores deviam ter a mesma força que se ele próprio as tivesse estabelecido. E, para que não parecesse ter caído nisso por acaso, garantiu-se também por decreto do senado, de modo mais completo e amplo que antes. Pois o divino Augusto ordenara que os cavaleiros que governassem o Egito julgassem por lei e que seus decretos fossem tidos como se os magistrados romanos os tivessem estabelecido; depois, em outras províncias e na cidade, foram concedidas muitas atribuições que antes cabiam aos pretores. Cláudio entregou todo o direito por que tantas vezes se lutou em sedição ou em armas, quando, pelas leis Semprônias, a ordem equestre era posta na posse dos tribunais, ou, de novo, as leis Servílias devolviam os julgamentos ao senado, e Mário e Sula antes combateram por isso acima de tudo. Mas então havia interesses opostos das ordens, e o que vencia valia oficialmente. Caio Ópio e Cornélio Balbo foram os primeiros a poder, com os recursos de César, tratar das condições de paz e das decisões de guerra. Mencionar depois deles os Mácios, os Védios e outros nomes poderosos de cavaleiros romanos não teria sentido, visto que Cláudio igualou a si mesmo e às leis os libertos que pusera à frente do seu patrimônio.
Em seguida, propôs conceder isenção aos habitantes de Cós e discorreu muito sobre a antiguidade deles: os argivos, ou Ceu, pai de Latona, foram os mais antigos habitantes da ilha; depois, com a chegada de Esculápio, introduziu-se a arte de curar, muito célebre entre seus descendentes, dos quais citou os nomes um a um e as épocas em que cada um florescera. Disse ainda que Xenofonte, de cuja ciência ele próprio se servia, era da mesma família, e que se devia atender a seu pedido para que os de Cós, livres de todo tributo daí em diante, habitassem a ilha sagrada, dedicada ao serviço do deus. Não dúvida de que muitos serviços deles ao povo romano e vitórias conjuntas poderiam ter sido recordados; mas Cláudio, com sua habitual facilidade, não disfarçou com motivos externos o que concedera a um homem.
Aos bizantinos, dada licença de falar, ao suplicarem ao senado pela magnitude dos encargos, recapitularam toda a sua história. Começando pelo tratado que fizeram conosco na época em que guerreamos contra o rei dos macedônios, a quem, como bastardo, foi dado o nome de Falso Filipe, lembraram as tropas enviadas depois contra Antíoco, Perseu e Aristônico, e o auxílio prestado a Antônio na guerra contra os piratas, e o que tinham oferecido a Sula, a Luculo ou a Pompeu, e, mais recentemente, os serviços prestados aos Césares, que ocupavam aqueles lugares que eram convenientes para a travessia, por terra e por mar, de generais e exércitos, e ao mesmo tempo para o transporte de suprimentos.
Pois no estreitíssimo ponto de separação entre a Europa e a Ásia, na extremidade da Europa, os gregos fundaram Bizâncio. Quando consultaram o Apolo Pítico sobre onde fundar a cidade, o oráculo respondeu que procurassem uma sede defronte à terra dos cegos. Esse enigma apontava os calcedônios, que, tendo chegado ali antes, escolheram o pior lugar, embora vissem a vantagem da posição. Pois Bizâncio tem solo fértil e mar abundante, porque uma imensa quantidade de peixes, irrompendo do Ponto e assustada pelos rochedos oblíquos sob as ondas, abandona a curva da outra margem e se dirige para esses portos. Por isso os habitantes foram a princípio prósperos e ricos; depois, pressionados pela magnitude dos encargos, pediam um fim ou uma medida, com o apoio do príncipe, que alegou estarem recentemente exaustos pela guerra da Trácia e do Bósforo e merecerem ajuda. Assim, os tributos foram remitidos por cinco anos.
No consulado de Marco Asínio e Mânio Acílio, soube-se, por frequentes prodígios, que se anunciava uma mudança das coisas para pior. As insígnias e tendas dos soldados arderam com fogo do céu; no alto do Capitólio pousou um enxame de abelhas; nasceram seres meio homens e foi parida uma porca cuja cria tinha garras de gavião. Contava-se entre os presságios a redução do número de todos os magistrados, pois um questor, um edil, um tribuno, um pretor e um cônsul morreram em poucos meses. Mas, no auge do pavor, estava Agripina, temendo uma palavra que Cláudio, embriagado, deixara escapar: que era seu destino suportar as infâmias das esposas e depois puni-las. Resolveu agir e apressar-se, depois de destruir antes Domícia Lépida por motivos femininos, pois Lépida, filha da Antônia mais jovem, com Augusto por tio-avô, prima de Agripina e irmã de Cneu, marido dela, julgava-se de igual nobreza. Nem em beleza, nem em idade, nem em riqueza diferiam muito; e, sendo ambas impudicas, infames e violentas, rivalizavam não menos nos vícios que no que tinham recebido da fortuna favorável. A disputa mais acirrada era se a tia ou a mãe prevaleceria junto a Nero: Lépida cativava o ânimo do jovem com lisonjas e dádivas, enquanto Agripina, ao contrário, era feroz e ameaçadora, ela que podia dar ao filho o império, mas não suportava vê-lo imperar.
Acusaram Lépida, ademais, de ter atentado contra a esposa do príncipe com encantamentos mágicos e de perturbar a paz da Itália por manter mal contidos os bandos de escravos pela Calábria. Por isso foi sentenciada à morte, com forte oposição de Narciso, o qual, suspeitando cada vez mais de Agripina, dizia ter declarado aos íntimos que sua ruína era certa, quer Britânico, quer Nero alcançasse o poder; mas que devia tanto ao imperador que empenharia a vida em seu bem. Messalina e Sílio tinham sido condenados; havia agora de novo iguais motivos de acusação, se Nero imperasse. Com Britânico como sucessor, nenhum temor restava ao príncipe; mas, pelas insídias da madrasta, toda a casa imperial estava abalada, com maior infâmia do que se ele tivesse calado a devassidão da esposa anterior. Aliás, nem agora faltava devassidão, sendo Palas o adúltero, para que ninguém duvidasse de que ela tinha por mais vil que o reino a honra, o pudor, o corpo, tudo. Repetindo isso e coisas semelhantes, abraçava Britânico, rogava que chegasse o mais depressa possível à força da idade, ora estendia as mãos aos deuses, ora ao próprio jovem, para que crescesse, expulsasse os inimigos do pai e vingasse também os assassinos da mãe.
Sob tão grande peso de cuidados, Cláudio foi acometido de doença e, para restaurar as forças com a suavidade do clima e a salubridade das águas, dirigiu-se a Sinuessa. Então Agripina, decidida havia muito ao crime e ansiosa pela ocasião que se lhe oferecia, e não carecendo de executores, deliberou sobre o tipo de veneno, para que o ato não se revelasse por algo súbito e fulminante; e, se escolhesse um veneno lento e consumptivo, temia que Cláudio, perto do fim, percebendo o engano, voltasse ao amor pelo filho. Agradou-lhe algo refinado, que perturbasse a mente e adiasse a morte. Escolheu-se uma especialista nessas artes, de nome Locusta, pouco condenada por envenenamento e por muito tempo mantida entre os instrumentos do poder. Pelo engenho dessa mulher preparou-se o veneno, cujo aplicador foi Haloto, um dos eunucos, encarregado de servir os pratos e de prová-los.
Tudo isso depois se tornou tão conhecido que os escritores daquele tempo registraram que o veneno foi posto num saboroso cogumelo, e que a força do tóxico não foi logo percebida, fosse por torpor, fosse pela embriaguez de Cláudio; ao mesmo tempo, um afrouxamento do ventre pareceu socorrê-lo. Aterrorizada, então, Agripina, e, que se temia o pior, desprezando o ódio do momento, recorreu à cumplicidade garantida do médico Xenofonte. Crê-se que ele, como se ajudasse os esforços de quem vomitava, introduziu na garganta de Cláudio uma pena untada de veneno rápido, bem ciente de que os maiores crimes começam com perigo e se consumam com recompensa.
Enquanto isso, convocava-se o senado, e os cônsules e sacerdotes faziam votos pela saúde do príncipe, quando o corpo sem vida era coberto com mantas e compressas, ao mesmo tempo que se tomavam as providências para firmar o império de Nero. Primeiro Agripina, como que vencida pela dor e em busca de consolo, retinha Britânico num abraço, chamava-o de verdadeira imagem do rosto paterno e o detinha por vários artifícios para que não saísse do quarto. Reteve também as irmãs dele, Antônia e Otávia, fechou todos os acessos com guardas e divulgava com frequência que a saúde do príncipe melhorava, para que os soldados se mantivessem na esperança e chegasse o momento favorável previsto pelos caldeus.
Por fim, ao meio-dia do terceiro dia antes dos Idos de Outubro, abertas de súbito as portas do palácio, Nero saiu acompanhado de Burro até a coorte que, segundo o costume militar, estava de guarda. Ali, por sugestão do prefeito, foi recebido com aclamações favoráveis e posto numa liteira. Conta-se que alguns hesitaram, olhando em volta e perguntando onde estava Britânico; depois, como ninguém liderasse a oposição, seguiram o que lhes era oferecido. Levado ao acampamento, Nero, depois de dizer o que convinha à ocasião e de prometer uma doação à maneira da generosidade paterna, foi saudado como imperador. As decisões do senado seguiram a voz dos soldados, e não houve hesitação nas províncias. Decretaram-se honras divinas a Cláudio, e seus funerais foram celebrados com a mesma solenidade dos de Augusto, com Agripina a emular a magnificência de sua bisavó Lívia. O testamento, mas, não foi lido em público, para que a preferência dada ao enteado sobre o filho não perturbasse os ânimos do povo com sentimento de injustiça e indignação.