Capítulos

Anais - Livro XII
Agripina, o casamento com Cláudio e a adoção de Nero
Sobre a obra
Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.
Este é o Livro XII, que vai de 49 a 54 d.C. e é o livro do arranjo que produziu Nero. Ele começa com a corte escolhendo uma nova esposa para Cláudio, depois da queda de Messalina, e termina com o mesmo Cláudio morto e o enteado aclamado imperador. Entre um ponto e outro estão a campanha na Britânia, a guerra pela Armênia e a única passagem dos Anais sobrevivente sobre a administração romana da Judeia.
Agripina, Sêneca e a adoção de Nero
Os libertos imperiais disputam quem será a próxima esposa. Vence Agripina, a Jovem, filha de Germânico e sobrinha do próprio Cláudio. O parentesco era impedimento legal, e o senado aprova um decreto autorizando o casamento entre tio e sobrinha, mudança de direito que Tácito registra com secura.
Agripina age em sequência. Faz Sêneca voltar do exílio na Córsega e o encarrega da educação do filho, cálculo que Tácito descreve como busca de prestígio junto à opinião pública. Em seguida obtém a adoção do menino por Cláudio, que passa a se chamar Nero e é posto à frente de Britânico, filho natural do imperador. Agripina recebe o título de Augusta.
Cáratac diante de Cláudio
Na Britânia, o chefe Cáratac resiste por nove anos, é derrotado no país dos ordovices e, ao buscar refúgio entre os brigantes, é entregue aos romanos pela rainha Cartimândua. Levado a Roma, é exibido acorrentado diante do imperador.
Tácito lhe põe na boca um discurso que se tornou célebre: o prisioneiro não pede misericórdia, argumenta que a glória de Roma seria maior poupando um inimigo digno do que exibindo sua execução, e pergunta se um império que possui tudo precisava também das cabanas dele. Cláudio o perdoa. A fala é, como todos os discursos da historiografia antiga, composição do historiador, e o Livro XI oferece a prova disso no caso do discurso sobre os gauleses. Mas o episódio em si, a captura e o perdão, é tratado como histórico.
A Judeia e o procurador Félix
No capítulo 54 Tácito trata de distúrbios na Judeia e nomeia Antônio Félix, irmão do liberto Palas, dizendo que exercia poder de rei com alma de escravo. É a mesma figura diante de quem, segundo Atos 23 e 24, Paulo é julgado em Cesareia.
Há aqui um problema de fontes que convém enunciar sem enfeite. Tácito descreve Félix e Vêntidio Cumano governando ao mesmo tempo, com a província dividida, Cumano na Galileia e Félix na Samaria. Josefo, nas Antiguidades, faz Félix suceder a Cumano depois que este é deposto. Os relatos não se conciliam facilmente. A maioria dos estudiosos segue Josefo, por sua proximidade com os assuntos judaicos; outros observam que o relato de Tácito é circunstanciado e que um mandato mais longo de Félix combinaria melhor com a expressão de Paulo em Atos 24:10 sobre o governador estar há muitos anos julgando a nação. A questão segue em aberto.
O lago Fucino e os cogumelos
Cláudio inaugura o dreno do lago Fucino com uma batalha naval encenada entre dezenove mil condenados. A obra falha na primeira tentativa, e Tácito trata o episódio como exemplo de um reinado em que a engenharia e a exibição andavam junto do descontrole.
O livro fecha com a morte do imperador em outubro de 54. Tácito relata que o veneno foi preparado pela envenenadora Locusta, servido em um prato de cogumelos pelo eunuco Haloto, e que, como o efeito demorava, um médico cúmplice concluiu o serviço. Ele apresenta isso como o que era corrente, não como fato apurado. Suetônio e Dião Cássio contam versões parecidas mas divergem nos detalhes, e parte dos historiadores modernos considera possível que Cláudio tenha morrido de causa natural e que a acusação seja construção posterior. O que é certo é o resultado: Nero foi apresentado à guarda pretoriana e aclamado, e Britânico ficou de fora.
Por que este livro importa
O Livro XII cobre exatamente os anos das viagens missionárias de Paulo e traz o único governador romano da Judeia nomeado nos Anais sobreviventes que também aparece no Novo Testamento. Isso o torna útil de duas maneiras. Ele dá o retrato romano de Félix, escrito por um autor sem interesse cristão algum, e oferece um caso concreto de como fontes antigas independentes divergem sobre datas e cargos sem que nenhuma delas seja descartável.
Uma ressalva de método vale registrar. A expulsão de judeus de Roma sob Cláudio, ligada por muitos a Atos 18:2, não é notícia de Tácito: ela vem de Suetônio, na Vida de Cláudio. Nenhum livro sobrevivente dos Anais a menciona. E a passagem sobre Cristo, que muitos procuram em Tácito, não está aqui: está no Livro XV, capítulo 44, depois do incêndio de 64.