Anais - Livro XI 2

Messalina, as intrigas da corte de Cláudio e a sua queda

Em Roma, nesse meio-tempo, sem nenhuma causa então conhecida nem averiguada depois, Cneu Nônio, cavaleiro romano, foi encontrado armado com uma espada em meio à multidão que saudava o príncipe. Quando o despedaçavam sob tortura, não negou a própria culpa, mas não denunciou cúmplices, sem que se soubesse se nada tinha a esconder ou se os ocultava. Sob esses mesmos cônsules, Públio Dolabela propôs que se celebrasse todos os anos um espetáculo de gladiadores, custeado por aqueles que obtivessem a questura. Entre os antigos, esse cargo fora prêmio do mérito, e a todos os cidadãos, se confiassem em suas boas qualidades, era lícito disputar as magistraturas; nem mesmo a idade os distinguia, de modo que na primeira juventude assumiam o consulado e a ditadura. Os questores, contudo, foram instituídos ainda no tempo dos reis, como mostra a lei curiata restaurada por Lúcio Bruto. Aos cônsules permaneceu o poder de escolhê-los, até que o povo passou a conferir também essa honra. Os primeiros eleitos foram Valério Potito e Emílio Mamerco, sessenta e três anos depois da expulsão dos Tarquínios, para servir junto ao departamento militar. Depois, como os negócios cresciam, dois outros foram acrescentados para cuidar dos assuntos de Roma; em seguida o número foi duplicado, quando a Itália pagava tributos e a estes se somavam as rendas das províncias. Mais tarde, por uma lei de Sula, vinte foram eleitos para completar o senado, ao qual ele entregara as funções judiciais. E embora os cavaleiros tivessem depois recuperado esses tribunais, a questura ainda era concedida sem custo, conforme o mérito dos candidatos ou a benevolência dos eleitores, até que, pela proposta de Dolabela, passou por assim dizer a ser posta à venda.
No consulado de Aulo Vitélio e Lúcio Vipstano, quando se discutia completar o senado, os principais chefes da Gália chamada Comata, que havia muito haviam obtido tratados e a cidadania romana, reivindicaram o direito de alcançar magistraturas na cidade. Sobre o tema houve muito rumor e de toda espécie. Diante do príncipe debatia-se com paixões opostas, e os que se opunham asseveravam que a Itália não estava tão debilitada que não pudesse fornecer um senado à própria capital. Antes bastavam os naturais para povos do mesmo sangue, e ninguém se arrependia da antiga república. Até hoje se recordavam os exemplos que, segundo os costumes antigos, o caráter romano dera em valor e glória. não bastava que os vênetos e os ínsubres tivessem irrompido na cúria, sem que se impusesse ainda uma turba de estrangeiros, como que um cativeiro? Que honra restaria aos remanescentes da nobreza, ou a algum senador pobre vindo do Lácio? Tudo seria ocupado por aqueles ricaços, cujos avós e bisavós, à frente de nações inimigas, haviam destroçado nossos exércitos a ferro e fogo, e cercado o divino Júlio em Alésia. Essas eram lembranças recentes. E se reavivasse a memória dos que pereceram sob o Capitólio e na cidadela de Roma pelas mãos desses mesmos bárbaros? Que desfrutassem, pois, do título de cidadãos; mas que não vulgarizassem as insígnias dos pais nem as honras das magistraturas.
Nada comovido com esses e outros argumentos semelhantes, o príncipe respondeu de imediato e, convocado o senado, assim começou: "Meus antepassados, dos quais o mais antigo, Clauso, de origem sabina, foi admitido ao mesmo tempo na cidadania romana e nas famílias patrícias, me incitam a governar com a mesma política, transferindo para tudo o que houver de notável em qualquer parte. Pois não ignoro que os Júlios vieram de Alba, os Corâncios de Camério, os Pórcios de Túsculo, e, para não esquadrinhar coisas antigas, que da Etrúria, da Lucânia e de toda a Itália foram chamados homens ao senado, e que enfim a própria Itália foi estendida até os Alpes, de modo que não indivíduos, mas terras e povos se fundissem no nosso nome. Tivemos paz sólida em casa e prosperamos diante do exterior quando os Transpadanos foram recebidos na cidadania, quando, sob o pretexto de fundar colônias de legiões por todo o orbe, acrescentando os mais vigorosos dos provincianos, socorremos um império exausto. Acaso nos arrependemos de que os Balbos tenham vindo da Hispânia, e homens não menos ilustres da Gália Narbonense? Seus descendentes permanecem entre nós e não nos cedem em amor a esta pátria. Que outra coisa levou à ruína os lacedemônios e os atenienses, por mais fortes que fossem nas armas, senão repelirem como estrangeiros os que haviam vencido? nosso fundador Rômulo teve tanta sabedoria que, a muitos povos, no mesmo dia, teve por inimigos e logo por cidadãos. Estrangeiros reinaram sobre nós. Confiar magistraturas a filhos de libertos não é, como muitos se enganam em crer, novidade súbita, mas prática comum no antigo povo. Mas, dirão, lutamos com os senones. Como se os volscos e os équos jamais tivessem formado linha de batalha contra nós. Fomos tomados pelos gauleses; mas também demos reféns aos toscanos e passamos sob o jugo dos samnitas. E, contudo, se revisares todas as guerras, nenhuma foi concluída em prazo mais curto do que a travada contra os gauleses; desde então houve paz contínua e fiel. misturados a nós pelos costumes, pela educação e pelos casamentos, que tragam seu ouro e suas riquezas em vez de as possuírem em separado. Tudo, ó pais conscritos, que hoje se tem por antiquíssimo, foi um dia novo: as magistraturas plebeias vieram depois das patrícias, as latinas depois das plebeias, as dos demais povos da Itália depois das latinas. Isto também envelhecerá, e o que hoje defendemos com exemplos estará ele próprio entre os exemplos."
Ao discurso do príncipe seguiu-se um decreto do senado, e os éduos foram os primeiros a obter o direito de senadores na cidade. Isso lhes foi concedido em razão da antiga aliança e por serem os únicos dos gauleses a usar o nome de irmãos do povo romano. Nesses mesmos dias o César admitiu ao número dos patrícios os senadores mais antigos e aqueles cujos pais haviam sido ilustres, restando poucas das famílias que Rômulo chamara das gentes maiores e Lúcio Bruto das menores, esgotadas até mesmo as que o ditador César, pela lei Cássia, e o príncipe Augusto, pela lei Sênia, haviam escolhido para preenchê-las; e esses encargos, gratos à república, eram cumpridos pelo censor com grande satisfação. Ansioso por saber de que modo afastaria do senado os marcados por infâmia, recorreu a um método brando e recém-inventado, em vez do rigor antigo: aconselhou que cada um deliberasse consigo a seu próprio respeito e pedisse o direito de deixar a ordem; a tal pedido daria fácil licença; e exporia juntos os expulsos do senado e os dispensados, para que o juízo dos censores e o pudor dos que se retiravam por vontade própria, misturados, abrandassem a desonra. Por isso o cônsul Vipstano propôs que Cláudio fosse chamado pai do senado, pois o título de pai da pátria era atribuído indistintamente, e novos serviços à república deviam ser honrados com termos não usuais; mas o próprio Cláudio conteve o cônsul, por adular em excesso. Encerrou o lustro, no qual se recensearam cinco milhões, novecentos e oitenta e quatro mil e setenta e dois cidadãos. E esse foi o fim da sua cegueira quanto à própria casa: pouco depois foi forçado a conhecer e punir as infâmias da mulher, para em seguida arder por um casamento incestuoso.
Messalina, enfastiada pela própria facilidade dos adultérios, lançava-se a libidinagens desconhecidas, quando o próprio Sílio, fosse por uma loucura fatal, fosse por julgar que o remédio dos perigos iminentes estava nos próprios perigos, instava para que se rompesse o disfarce: pois não haviam chegado a tal ponto para ficar à espera da velhice do príncipe. Para os inocentes cabiam planos inofensivos; para os crimes manifestos, o socorro devia ser buscado na audácia. Tinham cúmplices que temiam o mesmo destino. Ele, sem mulher nem filhos, estava pronto para o casamento e para adotar Britânico. A Messalina permaneceria o mesmo poder, acrescido de segurança, se se antecipassem a Cláudio, tão incauto diante das ciladas quanto pronto para a ira. Tais palavras foram recebidas com frieza, não por amor ao marido, mas por temer que Sílio, alcançado o auge, desprezasse a adúltera e logo avaliasse pelo verdadeiro preço o crime aprovado entre incertezas. Ainda assim ela cobiçou o nome de matrimônio, pela grandeza da infâmia, que é o último prazer dos perdulários. E sem esperar mais do que enquanto Cláudio partia para Óstia a fim de um sacrifício, celebrou todas as solenidades das núpcias.
Não ignoro que parecerá fábula que tamanha despreocupação tivesse havido em mortais, numa cidade que tudo sabe e nada cala, e muito menos num cônsul designado e na mulher do príncipe, que, em dia marcado, chamadas testemunhas para selar o contrato, se tenham reunido como que para gerar filhos legítimos, e que ela tenha ouvido as palavras dos áugures, tomado o lugar, sacrificado aos deuses; que tenham se reclinado entre os convidados, trocado beijos e abraços, e enfim passado a noite na liberdade conjugal. Mas nada compus para causar espanto: relato apenas o que ouvi e o que os mais velhos registraram.
A casa do príncipe, pois, estremeceu, e sobretudo os que tinham o poder nas mãos e, se as coisas mudassem, teriam o que temer, não mais em conversas secretas, mas abertamente murmuravam que, enquanto um histrião insultara o leito do príncipe, houvera de fato desonra, mas a ruína estivera longe; agora um jovem nobre, distinto pela beleza, pelo vigor do espírito e pelo consulado próximo, preparava-se para esperança ainda maior; pois não era oculto o que restava depois de tal matrimônio. Sem dúvida lhes vinha o medo, ao ponderarem que Cláudio era obtuso e submisso à mulher, e que muitas mortes haviam sido executadas por ordem de Messalina; por outro lado, a própria fraqueza do imperador lhes dava a confiança de que, se prevalecessem pela atrocidade da acusação, poderiam esmagá-la, condenada antes de ser acusada. Mas o ponto crítico estava nisto: que ele não ouvisse a defesa, e que seus ouvidos ficassem fechados até mesmo à confissão dela.
A princípio Calisto, de quem falei a propósito da morte de Caio César, e Narciso, autor da queda de Ápio, e Palas, então no auge do favor, debateram se afastariam Messalina do amor por Sílio com ameaças secretas, dissimulando todo o resto. Depois, com medo de serem eles próprios arrastados à perdição, desistiram: Palas por covardia, e Calisto, conhecedor também da corte anterior, por saber que o poder se conserva com mais segurança por conselhos prudentes do que arrojados. Narciso persistiu, mudando apenas isto: não dar a ela, com nenhuma palavra, conhecimento prévio da acusação nem do acusador. Atento às ocasiões, durante a longa demora do César em Óstia, induziu, com presentes, promessas e mostrando-lhes que seu poder cresceria com a queda da esposa, duas concubinas a cujo trato Cláudio mais se acostumara, a assumirem o papel de delatoras.
Em seguida Calpúrnia (esse era o nome da concubina), assim que lhe foi dado o encontro reservado, prostrou-se aos joelhos do César e gritou que Messalina se casara com Sílio; e ao mesmo tempo perguntou a Cleópatra, que estava ali à espera disso, se tinha apurado o fato, e, com a anuência dela, exigiu que se chamasse Narciso. Este, pedindo perdão pelo passado, por ter ocultado os casos com um Vétio e um Pláucio, disse que nem agora lhe imputaria adultérios, para não parecer reclamar de volta a casa, os escravos e os demais bens da fortuna imperial. Que Sílio os desfrutasse, mas devolvesse a esposa e rasgasse o contrato nupcial. "Sabes do teu divórcio?", perguntou. "Pois o povo, o senado e os soldados viram o casamento de Sílio; e, se não agires depressa, o marido é dono da cidade."
Então Cláudio convocou os mais poderosos dos amigos e interrogou primeiro Turrânio, prefeito da anona, depois Lúsio Geta, posto à frente dos pretorianos. Confessando ambos a verdade, os demais clamavam em disputa ao redor que ele fosse ao acampamento, assegurasse as coortes pretorianas e cuidasse da segurança antes que da vingança. É bem sabido que Cláudio ficou tão tomado de pavor que perguntava repetidamente se ele próprio ainda dominava o império e se Sílio era um simples particular. Messalina, por sua vez, nunca mais entregue à devassidão, celebrava pela casa, no auge do outono, um simulacro de vindima. Espremiam-se os lagares, transbordavam os tonéis; e mulheres cingidas de peles saltavam como sacerdotisas em sacrifício ou bacantes em delírio; ela mesma, de cabelos soltos, agitava o tirso, e ao seu lado Sílio, coroado de hera, calçava os coturnos e sacudia a cabeça, enquanto à volta estrugia um coro lascivo. Contam que Vétio Valente, por brincadeira, subiu a uma árvore altíssima e, perguntando-lhe o que via, respondeu: "Uma tempestade terrível vinda de Óstia", fosse porque começava tal aparência, fosse porque uma palavra escapada por acaso se converteu em presságio.
Entretanto, não rumores, mas mensageiros chegavam de toda parte, anunciando que tudo era conhecido de Cláudio e que ele vinha disposto à vingança. Por isso Messalina retirou-se para os jardins de Luculo, e Sílio, para dissimular o medo, foi aos seus afazeres no foro. Os outros convidados dispersavam-se por toda parte quando surgiram os centuriões e puseram a ferros cada um que encontravam, fosse em público, fosse nos esconderijos. Messalina, contudo, embora a adversidade lhe tirasse o discernimento, decidiu sem demora ir ao encontro do marido e mostrar-se a ele, recurso que muitas vezes lhe valera, e mandou que Britânico e Otávia corressem a abraçar o pai. E suplicou a Vibídia, a mais idosa das virgens vestais, que fosse aos ouvidos do pontífice máximo implorar clemência. Nesse ínterim, com apenas três acompanhantes (tão repentina fora a solidão), atravessou a a extensão da cidade e, num carro com que se retira o lixo dos jardins, entrou na via Ostiense, sem que ninguém a compadecesse, pois prevalecia a torpeza de seus crimes.
Não havia menos sobressalto do lado do César, pois não confiavam bastante em Geta, prefeito do pretório, igualmente propenso ao bem e ao mal. Assim, Narciso, com outros que tinham o mesmo medo, afirmou que não havia outra esperança de salvação para o César senão transferir, por aquele dia, o comando dos soldados a um dos libertos, e ofereceu-se para assumi-lo. E, para que Cláudio, enquanto era conduzido à cidade, não fosse levado ao arrependimento por Lúcio Vitélio e Largo Cecina, pediu e obteve um lugar na mesma carruagem.
Correu depois disso o boato persistente de que, entre as falas contraditórias do príncipe, ora acusando as infâmias da mulher, ora voltando à lembrança do casamento e à infância dos filhos, Vitélio nada mais proferiu senão: "Que crime! Que perversidade!". Narciso, de fato, insistia em que ele esclarecesse os rodeios e desse acesso à verdade; mas nem por isso conseguiu evitar que Cláudio respondesse de modo vago e inclinado para qualquer lado a que o quisessem conduzir, e que, a seu exemplo, Largo Cecina fizesse o mesmo. estava à vista Messalina, e ela gritava que ele ouvisse a mãe de Otávia e de Britânico, quando o acusador a interrompia, narrando o caso de Sílio e o casamento; ao mesmo tempo entregou-lhe os documentos que registravam suas devassidões, para desviar o olhar do César. Pouco depois, à entrada da cidade, apresentavam-se a ele os filhos comuns, mas Narciso ordenou que os afastassem. A Vibídia não conseguiu repelir, pois ela exigia com grande indignação que a esposa não fosse entregue à morte sem defesa. Narciso respondeu, então, que o príncipe a ouviria e que haveria oportunidade de refutar a acusação; entretanto, que a virgem fosse cumprir os seus ritos sagrados.
Estranho foi, em meio a isso, o silêncio de Cláudio; Vitélio parecia alheio a tudo: tudo obedecia ao liberto. Este mandou abrir a casa do adúltero e conduzir o imperador até lá. Primeiro, no vestíbulo, mostrou-lhe a estátua do pai de Sílio, que um decreto do senado mandara destruir, e em seguida tudo o que pertencera aos Neros e aos Drusos por herança, cedido como preço da infâmia. Inflamado e prorrompendo em ameaças, Cláudio foi levado ao acampamento, onde os soldados estavam reunidos; diante deles, sob advertência de Narciso, proferiu poucas palavras, pois, embora justa fosse a dor, o pudor a impedia. Seguiu-se contínuo o clamor das coortes, que reclamavam os nomes dos réus e os castigos; e Sílio, levado ao tribunal, não tentou defesa nem adiamento, mas suplicou que se apressasse a sua morte. A mesma firmeza, e o mesmo desejo de morte rápida, mostraram ilustres cavaleiros romanos. E Cláudio mandou entregar ao suplício Tício Próculo, posto por Sílio como guarda de Messalina e que oferecia denúncia, Vétio Valente, que confessou, e Pompeu Úrbico e Saufeio Trogo, dentre os cúmplices. Também Décrio Calpurniano, prefeito dos vigias, Sulpício Rufo, procurador dos jogos, e Junco Vergiliano, senador, foram punidos com a mesma pena.
Mnester causou hesitação. Rasgando as vestes, gritava que olhasse as marcas dos açoites e se lembrasse das palavras com que o submetera às ordens de Messalina: aos outros a culpa viera por suborno ou pela grandeza da esperança, a ele por necessidade; e ninguém teria perecido antes dele, se Sílio se apoderasse do poder. Comovido com isso e inclinado à misericórdia, o César foi persuadido pelos libertos a não poupar um histrião quando tantos homens ilustres haviam sido mortos: pouco importava se ele pecara tão gravemente por vontade ou por coação. Nem mesmo a defesa de Traulo Montano, cavaleiro romano, foi aceita. De juventude recatada, mas de corpo notável, ele fora chamado por Messalina por iniciativa dela e, numa única noite, expulso, pois ela era igualmente desregrada no desejo e no enfado. A Suílio Cesonino e a Pláucio Laterano a morte foi remitida: a este, pelo serviço notável do tio; Cesonino foi protegido pelos próprios vícios, por ter, naquela reunião imundíssima, sofrido o papel de mulher.
Enquanto isso, Messalina, nos jardins de Luculo, prolongava a vida, compunha súplicas, ora com alguma esperança, ora com ira: tanta soberba conservava ainda em meio aos extremos. E, se Narciso não tivesse apressado a sua morte, a perdição teria recaído sobre o acusador. Pois Cláudio, voltado para casa e abrandado por um banquete antecipado, quando o vinho o aqueceu, mandou que fossem dizer à infeliz (dizem que usou essa palavra) que comparecesse no dia seguinte para defender a causa. Ouvido isso, e temendo que a ira esmorecesse e o amor retornasse, e que, em caso de demora, a noite próxima e a lembrança do leito conjugal pesassem, Narciso lançou-se para fora e ordenou aos centuriões e ao tribuno que estava presente que executassem a morte: assim mandava o imperador. Como guarda e executor foi designado o liberto Évodo; e este, correndo adiante aos jardins, encontrou-a estendida no chão, sentada a seu lado a mãe Lépida, que, mal-avinda com a filha enquanto esta florescia, comovera-se de piedade em sua extrema necessidade e a aconselhava a não esperar pelo assassino: a vida estava acabada, e nada mais restava buscar senão a honra na morte. Mas, num espírito corrompido pelas libidinagens, nada de nobre havia; lágrimas e lamentos inúteis se arrastavam, quando, com o ímpeto dos que chegavam, as portas foram arrombadas, e ali se postou o tribuno em silêncio, enquanto o liberto a injuriava com muitos e servis insultos.
Então, pela primeira vez, ela contemplou a própria sorte e tomou o ferro, que, em vão levando à garganta ou ao peito na sua agitação, foi atravessado pelo golpe do tribuno. O corpo foi cedido à mãe. Anunciaram a Cláudio, que banqueteava, que Messalina perecera, sem distinguir se por própria mão ou alheia. E ele não perguntou, pediu a taça e prosseguiu como de costume no convívio. Nem nos dias seguintes deu sinal de ódio ou alegria, de ira ou tristeza, enfim de nenhum afeto humano, nem ao olhar os acusadores que se rejubilavam, nem ao ver os filhos que choravam. O senado ajudou-lhe o esquecimento, decretando que o nome e as estátuas dela fossem removidos dos lugares públicos e privados. A Narciso foram votadas as insígnias da questura, leve indicação do seu desdém, que ele se punha acima de Palas e de Calisto; honrosas, sim, mas das quais nasceriam coisas piores, em meio a muitas tristezas.