Anais - Livro XI 1

Messalina, as intrigas da corte de Cláudio e a sua queda

No mesmo ano o povo dos queruscos pediu um rei a Roma, perdidos os nobres pelas guerras internas e restando um único da estirpe real, que vivia na cidade com o nome de Itálico. Sua linhagem paterna vinha de Flavo, irmão de Armínio, e a mãe era filha de Acumero, príncipe dos catos; ele próprio era belo de forma e exercitado nas armas e nos cavalos, à maneira pátria e à nossa. Por isso César, depois de enriquecê-lo com dinheiro e de acrescentar-lhe escolta, exorta-o a assumir com grande ânimo a honra de sua gente: ele era o primeiro nascido em Roma a ir, não como refém, mas como cidadão, a um trono estrangeiro. A princípio sua chegada foi grata aos germanos e, por não estar contaminado por nenhuma discórdia e agir com igual empenho para com todos, era celebrado e cultuado, ora usando da cortesia e da moderação, odiosas a ninguém, ora, mais frequentemente, da embriaguez e das devassidões, agradáveis aos bárbaros. E se tornava célebre entre os vizinhos, mais longe, quando aqueles que haviam prosperado pelas facções, suspeitando de seu poder, partem para os povos confinantes e testemunham que se tira da Germânia a antiga liberdade e que o poderio romano se ergue. Não havia, então, ninguém nascido nessas terras capaz de ocupar o lugar de chefe, a não ser que a prole do espião Flavo se elevasse acima de todos? Em vão se invocava o nome de Armínio: se o filho dele tivesse chegado ao trono depois de criado em solo hostil, poderia ser temido, corrompido pela alimentação, pela servidão e pelos costumes, todos estrangeiros; mas, se Itálico tivesse o espírito paterno, ninguém empunhara armas contra a pátria e os deuses penates mais hostilmente do que o pai dele.
Não lhe foi dada oportunidade de defender-se perante o senado: foi ouvido dentro do quarto, na presença de Messalina, com Suílio acusando-o de corromper os soldados, presos por dinheiro e devassidão a todo crime, depois de adultério com Popeia, e por fim de moleza do corpo. Diante disso o réu rompeu o silêncio e disse: "Pergunta, Suílio, a teus filhos: eles confessarão que sou homem." Iniciada a defesa, comoveu Cláudio em alto grau e arrancou lágrimas até de Messalina. Para enxugá-las, ao sair do quarto, ela adverte Vitélio a não deixar o réu escapar; e ela própria corre a destruir Popeia, instigando pessoas que, pelo terror do cárcere, a empurrassem à morte voluntária. César ignorava tudo a tal ponto que, poucos dias depois, ao jantar com Cipião, marido dela, perguntou-lhe por que se reclinara sem a esposa, e ele respondeu que ela cumprira seu destino.
Mas, deliberando Cláudio sobre a absolvição de Asiático, Vitélio, chorando, recordou a antiguidade da amizade e como ambos haviam honrado Antônia, mãe do príncipe; depois, passando pelos serviços de Asiático à república e por sua recente campanha contra a Britânia, e por tudo o mais que parecia próprio a despertar compaixão, concedeu-lhe a livre escolha da morte. E seguiram-se palavras de Cláudio no mesmo sentido de clemência. Como alguns o exortassem à inanição e a um fim suave, Asiático disse recusar esse favor; e, depois de praticar os exercícios a que estava habituado, banhado o corpo e tendo ceado alegremente, dizendo que pereceria com mais honra pela astúcia de Tibério ou pelo ímpeto de Caio César do que por fraude de mulher e pela boca impudica de Vitélio, abriu as veias, mas não antes de ter visto a pira e mandado transferi-la para outro lugar, para que a sombra das árvores não fosse diminuída pelo calor do fogo: tamanha foi sua serenidade no derradeiro instante.
Depois disso convocaram-se os senadores, e Suílio prossegue acrescentando como réus cavaleiros romanos ilustres, de sobrenome Petra. A causa de sua morte estava em que haviam cedido sua casa para os encontros de Mnester e Popeia. Mas a um deles imputou-se uma visão do sono noturno: teria visto Cláudio cingido com uma coroa de espigas voltadas para trás, e por essa imagem predissera a carestia do trigo. Alguns transmitiram que ele vira uma coroa de pâmpanos de folhas esbranquiçadas e a interpretara assim: ao declinar do outono, anunciava-se a morte do príncipe. Disso não dúvida: por qualquer sonho que fosse, a ruína veio sobre ele e o irmão. A Crispino decretaram-se um milhão e quinhentos mil sestércios e as insígnias da pretura. Vitélio acrescentou um milhão de sestércios a Sosíbio, por ajudar Britânico com seus ensinamentos e Cláudio com seus conselhos. Pedida também a opinião de Cipião, ele disse: "Como penso sobre os atos de Popeia o que todos pensam, suponde que eu diga o que todos dizem", com elegante equilíbrio entre o amor conjugal e a necessidade senatorial.
Daí em diante Suílio foi contínuo e cruel em acusar réus, e muitos rivalizavam com sua audácia; pois o príncipe, atraindo a si todas as funções das leis e dos magistrados, abrira campo à pilhagem. Nada havia de tão venal entre as mercadorias públicas quanto a perfídia dos advogados, a tal ponto que Sâmio, ilustre cavaleiro romano, tendo dado a Suílio quatrocentos mil sestércios e descoberta a conluio dele, lançou-se sobre o próprio ferro na casa do advogado. Assim, ao iniciar Caio Sílio, cônsul designado, de cujo poder e queda falarei a seu tempo, levantam-se os senadores e reclamam a lei Cíncia, pela qual antigamente se proíbe que alguém receba dinheiro ou presente para defender uma causa.
Em seguida, protestando aqueles a quem se preparava tal afronta, Sílio, inimigo de Suílio, atacou-os com energia, citando os exemplos dos antigos oradores que tinham por prêmio da eloquência a fama e a posteridade. A mais bela das artes e a primeira das boas se aviltava com serviços sórdidos; nem sequer a boa-fé permanecia íntegra onde se visava à grandeza dos ganhos. Se as causas se tratassem sem proveito de ninguém, seriam menos numerosas; agora fomentavam-se inimizades, acusações, ódios e injúrias, de modo que, assim como a violência das doenças traz lucro aos médicos, a corrupção do foro traz dinheiro aos advogados. Lembrassem-se de Asínio, de Messala e, dos mais recentes, de Arrúncio e Aesernino, homens elevados às mais altas honras por uma vida íntegra e pela eloquência. Falando assim o cônsul designado, e concordando os demais, preparava-se uma sentença que sujeitaria os culpados à lei de concussão, quando Suílio, Cossuciano e os outros, que viam decretar-se não um julgamento, pois eram réus manifestos, mas uma pena, cercam César, suplicando perdão pelo passado.
E, depois que ele assentiu, começam a alegar: quem seria tão soberbo a ponto de antecipar pela esperança a eternidade da fama? A eloquência era preparada como recurso para as necessidades e os negócios, a fim de que ninguém, por falta de advogado, ficasse à mercê dos poderosos. E, contudo, a eloquência não vinha gratuitamente: os cuidados familiares eram deixados de lado para que alguém se dedicasse a negócios alheios. Muitos sustentavam a vida com o serviço militar, alguns cultivando os campos; ninguém buscava nada de que não tivesse antes previsto o fruto. Fácil fora a Asínio e Messala, cheios dos prêmios das guerras entre Antônio e Augusto, ou a Aesernino e Arrúncio, herdeiros de famílias ricas, assumir um espírito altivo. Tinham à mão exemplos: por que grandes honorários costumavam discursar Públio Clódio ou Caio Curião. Eles eram senadores modestos, que, estando a república em paz, não buscavam senão os proveitos da paz. Pensasse ele na plebe, que se distinguia pela toga: suprimidos os prêmios dos estudos, também os estudos pereceriam. O príncipe, achando esses argumentos menos dignos, mas não ditos em vão, fixou um limite para receber dinheiro, até dez mil sestércios, e quem o excedesse ficaria sujeito à lei de concussão.
Por essa mesma época, Mitrídates, que, como referi, reinara na Armênia e fora aprisionado por ordem de Caio César, voltou ao reino por sugestão de Cláudio, confiando nos recursos de Farasmanes. Esse rei dos iberos, irmão do próprio Mitrídates, anunciava que os partos estavam em discórdia e que, sendo incertas as questões supremas do império, as menores eram tratadas sem cuidado. Pois Gotarzes, entre muitas crueldades, preparara a morte do irmão Artabano, da esposa e do filho dele; daí o temor que inspirava nos demais, e chamaram Vardanes. Este, como era pronto para grandes audácias, em dois dias percorre três mil estádios e expulsa Gotarzes, surpreso e aterrorizado; e não hesita em apoderar-se das prefeituras vizinhas, recusando-lhe o domínio apenas os habitantes de Selêucia. Contra eles, mais inflamado pela ira do que pela conveniência presente, por terem também desertado de seu pai, envolve-se no cerco de uma cidade forte, protegida por fortificações, pelo rio que se lhe antepunha, por muralha e por provisões. Entrementes Gotarzes, reforçado pelos recursos dos daas e dos hircanos, renova a guerra, e Vardanes, obrigado a abandonar Selêucia, assentou acampamento nas planícies da Báctria.
Então, divididas as forças do Oriente e incertas para que lado se inclinariam, ofereceu-se a Mitrídates a oportunidade de ocupar a Armênia, com a força do soldado romano para arrasar as alturas dos fortes e, ao mesmo tempo, com o exército ibero percorrendo as planícies. Pois os armênios não resistiram, depois de derrotado Demonacte, prefeito que ousara o combate. Causou alguma demora Cotis, rei da Armênia Menor, ao qual se voltaram alguns dos nobres; depois, contido por uma carta de César, tudo passou a Mitrídates, mais cruel do que convinha a um reino novo. Mas os comandantes partos, quando preparavam a batalha, lançam de súbito um pacto, ao conhecerem as ciladas de seus compatriotas que Gotarzes revelou ao irmão; e, encontrando-se a princípio com hesitação, depois apertando as mãos junto aos altares dos deuses, juraram vingar a fraude dos inimigos e ceder um ao outro. Vardanes pareceu mais apto a conservar o reino; e Gotarzes, para que não surgisse rivalidade alguma, retirou-se para o fundo da Hircânia. Ao regressar Vardanes, Selêucia rende-se a ele no sétimo ano após a deserção, não sem desonra dos partos, a quem uma única cidade por tanto tempo iludira.
Em seguida visitou as prefeituras mais poderosas e ansiava por recuperar a Armênia, se não tivesse sido contido por Víbio Marso, legado da Síria, que ameaçava com a guerra. Entretanto Gotarzes, arrependido de ter cedido o reino e chamado pela nobreza, para quem a servidão é mais dura na paz, reúne tropas. Daqui partiu-se contra ele até o rio Erindes; em cuja travessia, depois de muito combater, Vardanes venceu, e, com batalhas favoráveis, submeteu os povos intermédios até o rio Sindes, que separa os daas dos ários. Ali se pôs o limite a seus sucessos: pois os partos, embora vencedores, recusavam uma campanha distante. Assim, erguidos monumentos com que atestava seu poder e o tributo que nenhum dos arsácidas antes obtivera daqueles povos, regressa coberto de imensa glória, e por isso mais feroz e mais intolerante com os súditos. Estes, por dolo antes tramado, mataram-no descuidado e atento à caça, na primeira juventude, mas que pela fama estaria entre os poucos reis idosos célebres, se houvesse buscado o amor de seus compatriotas tanto quanto o temor de seus inimigos. Com a morte de Vardanes, perturbaram-se os assuntos dos partos, incertos sobre quem receberiam no reino. Muitos inclinavam-se a Gotarzes, alguns a Meérdates, descendente de Frates, entregue a nós como refém; depois prevaleceu Gotarzes, que, apoderado do palácio, pela crueldade e pelo luxo forçou os partos a enviar súplicas secretas ao príncipe romano, com que rogavam que se permitisse a Meérdates ascender ao trono paterno.
Sob os mesmos cônsules, no octingentésimo ano após a fundação de Roma e no sexagésimo quarto desde que Augusto os celebrara, foram exibidos os jogos seculares. Omito os cálculos de ambos os príncipes, suficientemente narrados nos livros em que compus os feitos do imperador Domiciano; pois ele também exibiu jogos seculares, e a eles assisti com particular empenho, investido do sacerdócio dos quindecênviros e então pretor: o que refiro não por jactância, mas porque desde a antiguidade esse cuidado pertencia ao colégio dos quindecênviros, e os magistrados desempenhavam principalmente os ofícios das cerimônias. Estando Cláudio sentado nos jogos circenses, quando jovens nobres a cavalo iniciavam o brinquedo de Troia, e entre eles Britânico, filho do imperador, e Lúcio Domício, logo adotado para o império e admitido ao sobrenome de Nero, o favor mais ardente da plebe por Domício foi recebido como presságio. E divulgava-se que serpentes haviam estado junto à sua infância, à maneira de guardiãs, coisa fabulosa e semelhante a milagres estrangeiros: pois ele próprio, nada propenso a diminuir-se, costumava contar que apenas uma cobra fora vista em seu quarto.
Mas restava-lhe a inclinação do povo, pela memória de Germânico, de quem ele era o único descendente varão; e a compaixão por sua mãe Agripina aumentava por causa da crueldade de Messalina, que, sempre hostil e então mais agitada, deixava de tramar acusações e suborná-las apenas porque um amor novo e próximo do furor a desviava. Pois por Caio Sílio, o mais belo da juventude romana, ela se inflamara a tal ponto que expulsou Júnia Silana, mulher nobre, do casamento dele, e tomou para si o amante livre. Sílio não ignorava a infâmia nem o perigo; mas, certo da morte se recusasse, e com alguma esperança de iludir, juntamente com grandes recompensas, tinha por consolo encobrir o futuro e gozar o presente. Ela, não às escondidas, mas com numeroso séquito, frequentava a casa dele, acompanhava-o em suas saídas, prodigalizava-lhe riquezas e honras; por fim, como se a fortuna tivesse passado a outro, viam-se na casa do amante escravos, libertos e os aparatos do príncipe.
Mas Cláudio, ignorante do próprio casamento e exercendo as funções de censor, censurou com éditos severos a licença do povo no teatro, porque lançara injúrias contra Públio Pompônio, ex-cônsul (que fornecia versos para a cena), e contra mulheres ilustres. E, promulgada uma lei, conteve a crueldade dos credores, proibindo que emprestassem a juros aos filhos de família dinheiro pagável com a morte dos pais. Conduziu até a cidade as fontes de água trazidas das colinas de Simbruino. E acrescentou e divulgou novas formas de letras, tendo descoberto que também a escrita grega não fora ao mesmo tempo começada e concluída.
Os primeiros a representar os pensamentos da mente foram os egípcios, por meio de figuras de animais (esses são os mais antigos monumentos da memória humana, vistos gravados nas pedras), e eles se dizem inventores das letras; daí os fenícios, por prevalecerem no mar, as introduziram na Grécia e alcançaram a glória, como se tivessem descoberto o que haviam recebido. Pois conta-se que Cadmo, transportado por uma frota dos fenícios, foi o autor dessa arte entre os povos da Grécia ainda rudes. Alguns referem que Cécrops de Atenas, ou Lino de Tebas, e, nos tempos troianos, Palamedes de Argos, inventaram as formas de dezesseis letras, e que depois outros, e sobretudo Simônides, descobriram as restantes. Na Itália, os etruscos aprenderam-nas com o coríntio Demarato, e os aborígenes com o arcádio Evandro; e as letras latinas têm a forma das mais antigas dos gregos. Mas também entre nós foram poucas no início, e depois acrescentaram-se outras. Por esse exemplo, Cláudio acrescentou três letras, que tiveram uso enquanto ele reinou e depois caíram em esquecimento; veem-se ainda agora no bronze público afixado nos foros e templos com os plebiscitos.
Em seguida levou ao senado a questão do colégio dos arúspices, para que a mais antiga disciplina da Itália não se extinguisse por negligência: muitas vezes, em tempos adversos à república, eles haviam sido convocados, e, por seu conselho, as cerimônias tinham sido restauradas e mais corretamente observadas dali em diante; e os principais da Etrúria, por vontade própria ou por impulso dos senadores romanos, haviam conservado esse saber e propagado nas famílias; isso agora se fazia com menos zelo, pela indiferença pública para com as boas artes e porque as superstições estrangeiras prevaleciam. E tudo, na verdade, ia bem no presente, mas era preciso retribuir a graça à benignidade dos deuses, para que os ritos sagrados, cultivados em tempos incertos, não fossem esquecidos na prosperidade. Disso resultou um decreto do senado, para que os pontífices examinassem o que devia ser conservado e firmado quanto aos arúspices.
No mesmo ano, o povo dos queruscos pediu um rei a Roma, perdidos os nobres pelas guerras internas e restando um único da estirpe régia, que era mantido na cidade com o nome de Itálico. A linhagem paterna dele vinha de Flavo, irmão de Armínio; a mãe descendia de Actúmero, chefe dos catos; ele próprio era belo de forma e exercitado nas armas e nos cavalos, segundo o costume pátrio e o nosso. Por isso César, dando-lhe dinheiro e acrescentando-lhe guardas, exorta-o a assumir com grande ânimo a glória de sua linhagem: ele era o primeiro nascido em Roma a ir, não como refém, mas como cidadão, a um trono estrangeiro. A princípio sua chegada foi grata aos germanos e, por não estar maculado por nenhuma discórdia e agir com igual zelo para com todos, era celebrado e cortejado, ora exercendo a afabilidade e a moderação, odiosas a ninguém, mais frequentemente a embriaguez e os prazeres, agradáveis aos bárbaros. E entre os vizinhos, mais longe, crescia em fama, quando os que haviam florescido pelas facções, suspeitando de seu poder, retiram-se para os povos limítrofes e atestam que a antiga liberdade da Germânia estava sendo tirada e que o poderio de Roma se erguia. Não havia então ninguém nascido naquelas terras capaz de ocupar o primeiro lugar, sem que a prole do espião Flavo fosse elevada acima de todos? Em vão se invocava Armínio: se o filho dele, criado em solo hostil, tivesse chegado ao trono, poderia ser temido, corrompido pelo sustento, pela servidão e pelos costumes, todos estrangeiros; mas, se Itálico tivesse o espírito do pai, ninguém empunhara as armas mais hostilmente contra a pátria e os deuses penates do que o próprio pai dele.
Com estes e tais discursos reuniram grandes tropas, e não eram menos os que seguiam Itálico. Pois ele recordava que não irrompera entre relutantes, mas fora chamado, por exceder os demais em nobreza: experimentassem o seu valor, se mostrava digno do tio Armínio e do avô Actúmero; e o pai não era motivo de vergonha, por nunca ter abandonado a lealdade aos romanos, assumida com o consentimento dos germanos. Falsamente se invocava o nome da liberdade por aqueles que, degenerados na vida privada e perniciosos na pública, nada esperavam senão das discórdias. A multidão aplaudia-o com ardor; e, vencedor numa grande batalha entre os bárbaros, depois, deslizando para a soberba por sua boa fortuna, foi expulso e de novo restabelecido com o auxílio dos lombardos, e, na prosperidade como na adversidade, afligia os assuntos dos queruscos.
Pela mesma época, os caucos, sem dissensão em casa e animados pela morte de Sanquínio, enquanto Corbulão se aproximava, invadiram a Germânia Inferior sob a chefia de Ganasco. Este, da nação dos canninefates, depois de servir como auxiliar a soldo e em seguida desertar, com embarcações ligeiras devastava sobretudo a costa dos gauleses, sabendo bem que era rica e pouco aguerrida. Mas Corbulão, ao entrar na província com grande cuidado e logo com glória (pois aquela campanha foi o seu começo), conduziu as trirremes pelo leito do Reno e as demais naus, conforme cada uma era própria, pelos estuários e canais; e, afundadas as barcas dos inimigos e expulso Ganasco, depois de bastante restabelecida a ordem presente, restituiu ao antigo costume as legiões, que andavam preguiçosas para as obras e o trabalho e alegres com as pilhagens, para que ninguém saísse da coluna nem entrasse em combate senão por ordem. Os postos, as vigílias, os deveres diurnos e noturnos eram cumpridos em armas; e contam que um soldado foi punido com a morte por cavar o vala sem estar cingido, e outro por cavar cingido apenas com o punhal. Essas histórias, excessivas e talvez falsas, tiraram contudo origem da severidade do general; e podes crer que era atento e inexorável para com as grandes faltas quem, mesmo quanto às leves, era tido por tão áspero.
De resto, esse terror afetou de modo oposto os soldados e os inimigos: a nós aumentou-nos o valor, aos bárbaros quebrou-lhes a ferocidade. E o povo dos frísios, hostil ou pouco leal desde a rebelião iniciada com a derrota de Lúcio Aprônio, deu reféns e estabeleceu-se nos campos demarcados por Corbulão, que também lhes impôs um senado, magistrados e leis. E, para que não rejeitassem as ordens, fortificou ali uma guarnição, enviando quem atraísse à rendição os caucos maiores e, ao mesmo tempo, atacasse Ganasco por dolo. Nem foram vãs nem indignas as ciladas contra um desertor e violador da palavra. Mas a morte dele agitou os ânimos dos caucos, e Corbulão lançava sementes de nova rebelião, com fama grata para muitos, sinistra para alguns. Por que provocava o inimigo? Os reveses recairiam sobre a república; e, se agisse com êxito, um homem ilustre seria temível para a paz e pesado para um príncipe pusilânime. Por isso Cláudio proibiu de tal modo nova ofensiva nas Germânias que ordenou que as guarnições fossem recolhidas para aquém do Reno.
Quando Corbulão dispunha o acampamento em solo hostil, foi-lhe entregue essa carta. Diante do fato súbito, embora muitas coisas o assaltassem ao mesmo tempo, o temor do imperador, o desprezo dos bárbaros, o escárnio dos aliados, nada disse senão: "Felizes os generais romanos de outros tempos", e deu o sinal de retirada. Para que, contudo, o soldado se livrasse do ócio, abriu, entre o Mosa e o Reno, um canal com extensão de vinte e três mil passos, com que se evitassem os perigos incertos do Oceano. César concedeu-lhe ainda as insígnias do triunfo, embora lhe tivesse negado a guerra. Não muito depois, Cúrcio Rufo alcançou a mesma honra, ele que abrira galerias no território mático em busca de veios de prata; daí proveio um lucro escasso e não duradouro; mas para as legiões foi trabalho com prejuízo, escavar canais e mover sob a terra coisas que, a céu aberto, são pesadas. Esgotado por esse trabalho, e porque por várias províncias se suportavam fadigas semelhantes, o soldado compõe uma carta secreta em nome dos exércitos, suplicando ao imperador que, àqueles a quem fosse confiar exércitos, concedesse de antemão as insígnias triunfais.
Sobre a origem de Cúrcio Rufo, que alguns afirmaram ter nascido de um gladiador, não exporia falsidades, mas tenho vergonha de seguir a verdade. Depois que cresceu, como acompanhante de um questor a quem coubera a África, enquanto, na cidade de Adrumeto, passava o tempo sozinho pelos pórticos vazios em pleno meio-dia, apareceu-lhe uma figura de mulher de tamanho mais que humano, e ouviu uma voz: "Tu, Rufo, és quem virá a esta província como procônsul." Erguido em esperança por tal presságio, regressou à cidade e, pela liberalidade dos amigos e ao mesmo tempo por seu engenho vivo, obteve a questura e logo, entre candidatos nobres, a pretura pelo voto do príncipe, tendo Tibério velado a desonra de seu nascimento com estas palavras: "Cúrcio Rufo me parece nascido de si mesmo." Depois disso teve longa velhice, e, com triste adulação para com os superiores, arrogante com os inferiores, difícil entre os iguais, obteve o império consular, as insígnias do triunfo e por fim a África; e, falecendo ali, cumpriu o presságio fatal.