Capítulos

Um senador romano de toga escreve com estilete numa tábua de cera, um rolo de papiro na outra mão

Anais - Livro XI

Messalina, as intrigas da corte de Cláudio e a sua queda

Sobre a obra

Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.

Este é o Livro XI, e ele começa mutilado. Os livros VII a X se perderam por inteiro, e junto com eles foi o início deste: cerca de dez anos de narrativa, de 37 a 47 d.C., sumiram. Isso inclui todo o reinado de Calígula e os primeiros anos de Cláudio. O texto que temos entra no meio do ano de 47, sem introdução, com um processo já em curso. O leitor cai dentro da corte de Cláudio sem que Tácito tenha apresentado ninguém.

A corte de Cláudio e o poder de Messalina

O livro abre com a destruição de Valério Asiático, senador rico e duas vezes cônsul, acusado por manobra de Messalina, terceira esposa de Cláudio. Julgado dentro do palácio e não no senado, ele obtém permissão para escolher a própria morte. A cena define o tom do volume: as decisões que importam são tomadas no quarto do imperador, por libertos e pela imperatriz, e o senado ratifica.

(Anais - Livro XI 1:1)

Tácito intercala episódios de outra natureza. Registra a censura de Cláudio, os Jogos Seculares de 47, a campanha de Corbulão contra os caucos e os frísios no baixo Reno, e uma digressão sobre a origem da escrita, motivada pelas três letras novas que Cláudio acrescentou ao alfabeto latino. As letras foram usadas em seu reinado e abandonadas depois. Aparecem em inscrições da época, o que permite conferir Tácito contra a epigrafia.

(Anais - Livro XI 1:14)

O discurso sobre os gauleses e a Tábua de Lyon

Nos capítulos 23 a 25, notáveis da Gália Comata pedem o direito de ocupar magistraturas em Roma. Tácito reproduz o discurso em que Cláudio defende o pedido, argumentando que Roma sempre cresceu absorvendo estrangeiros, inclusive antigos inimigos.

Este é um dos poucos pontos dos Anais em que se pode comparar Tácito com o documento. Uma placa de bronze com a transcrição oficial do mesmo discurso foi encontrada em Lyon em 1528 e é conhecida como Tábua de Lyon. A comparação mostra que o conteúdo e a linha do argumento coincidem, mas a redação não: Tácito reescreveu o discurso em estilo próprio, mais enxuto, cortando as digressões eruditas de Cláudio. Quanto ele alterou também a ênfase do argumento segue em discussão entre os estudiosos. É evidência direta de como um historiador antigo tratava discursos, e vale para ler as demais falas da obra com essa medida.

(Anais - Livro XI 2:24)

A queda de Messalina

A segunda metade do livro narra o episódio mais conhecido do reinado. Messalina, ainda casada com o imperador, celebra um casamento público com o cônsul designado Caio Sílio, com testemunhas, dote e sacrifícios. Tácito antecipa a incredulidade do leitor e insiste que não inventou nada, que ouviu de mais velhos e leu nos autores anteriores.

(Anais - Livro XI 2:26)

Os libertos imperiais, com Narciso à frente, agem antes que Cláudio decida. Sílio e seus cúmplices são executados no mesmo dia. Messalina é morta nos jardins de Lúculo por um tribuno, sem ordem expressa do imperador, e Cláudio recebe a notícia à mesa sem perguntar nada. O senado manda apagar o nome dela das inscrições e retirar suas estátuas.

(Anais - Livro XI 2:37)

Convém tratar o retrato com cautela. A tradição romana sobre Messalina é uniformemente hostil e escrita depois da condenação oficial de sua memória, e Tácito escreve mais de sessenta anos após os fatos. Os episódios centrais, o casamento com Sílio e a execução, são confirmados por outras fontes. Os detalhes de escândalo sexual são de outra ordem, e há quem os leia como tópica moralizante da historiografia senatorial.

Por que este livro importa

O Livro XI não menciona cristãos nem judeus, e não há razão para forçar uma ponte. Seu valor é de contexto. Ele mostra por dentro o funcionamento do império na década de 40 do primeiro século, exatamente o período em que as primeiras comunidades cristãs se formavam nas províncias do Oriente: o poder concentrado no palácio, os libertos como máquina administrativa, o senado reduzido a ratificar, a justiça criminal decidida em audiências privadas. É o mundo em que Paulo viajava e diante de cujos representantes provinciais os julgamentos de Atos aconteceriam poucos anos depois.

Uma ressalva de método vale registrar. A expulsão de judeus de Roma sob Cláudio, ligada por muitos a Atos 18:2, não é notícia de Tácito: ela vem de Suetônio, na Vida de Cláudio, e não aparece em nenhum livro sobrevivente dos Anais. Atribuir a Tácito o que é de Suetônio é um erro comum, e a lacuna do texto tem culpa: os anos iniciais de Cláudio estão justamente na parte perdida.