Anais - Livro VI 2
O terror final de Tibério em Capri e a sua morte
Sempre que se aconselhava sobre tais assuntos, Tibério usava uma parte elevada da casa e a cumplicidade de um único liberto. Esse homem, analfabeto mas de corpo robusto, ia à frente, por caminhos sem trilha e escarpados (pois a casa se debruça sobre rochedos), conduzindo aquele cuja arte Tibério decidira pôr à prova; e, na volta, se surgisse suspeita de impostura ou de fraude, lançava-o ao mar embaixo, para que não restasse delator do segredo. Foi assim que Trasilo, levado por aqueles mesmos penhascos, depois de impressionar quem o consultava revelando com habilidade o poder imperial e o futuro, é interrogado se também conhecia a hora do próprio nascimento, que ano vivia, que tipo de dia tinha. Ele, calculadas as posições e distâncias dos astros, hesita a princípio, depois se assusta; e quanto mais examinava, mais trêmulo de espanto e medo ficava; por fim exclama que se aproxima dele um momento incerto e quase fatal. Então Tibério o abraça, felicita-o por prever os perigos e por estar a salvo, e, tomando como oráculo o que ele dissera, mantém-no entre os mais íntimos amigos.
Mas, ao ouvir essas coisas e outras semelhantes, fica incerto meu juízo: se os assuntos dos mortais giram pelo destino e por uma necessidade imutável, ou pelo acaso. De fato, entre os mais sábios dos antigos e os que seguem sua escola, encontrarás opiniões divergentes. Em muitos está arraigada a convicção de que os deuses não se importam nem com o início de nossa vida, nem com o fim, nem enfim com os homens; por isso, com muita frequência, recaem desgraças sobre os bons e prosperidade sobre os piores. Outros, ao contrário, acham que há de fato concordância entre o destino e os fatos, mas não a partir das estrelas errantes, e sim a partir dos princípios e dos encadeamentos das causas naturais. Ainda assim, deixam a nós a escolha da vida, e, uma vez feita, há uma ordem fixa do que está por vir. E nem o mal nem o bem são o que o vulgo pensa: muitos que parecem lutar com adversidades são felizes, e a maioria, ainda que em meio a grandes riquezas, é miserabilíssima, se uns suportam com firmeza o destino pesado e outros usam de forma imprudente a prosperidade. Quanto ao resto, para a maioria dos mortais não se retira a crença de que tudo o que está por vir é determinado já no nascimento de cada um, mas que algumas coisas acontecem de modo diferente do que foi dito, por causa das mentiras de quem fala sem saber; e que assim se corrompe o crédito de uma arte cujos provas claras tanto a época antiga quanto a nossa apresentaram. De fato, como o reinado de Nero foi predito por um filho desse mesmo Trasilo, contarei no momento certo, para não me afastar agora demais do que comecei.
Sob os mesmos cônsules divulga-se a morte de Asínio Galo, sobre quem não havia dúvida de que perecera por falta de alimento, mas era incerto se por vontade própria ou por força. Consultado se permitia que fosse sepultado, o César não se envergonhou de consentir, e ainda acusou o acaso que tirara o réu antes de ser condenado em sua presença: como se, em três anos, tivesse faltado tempo para um velho ex-cônsul, pai de tantos ex-cônsules, ser submetido a julgamento. Em seguida morre Druso, depois de se haver mantido vivo por nove dias com alimentos miseráveis, mastigando o enchimento do leito. Alguns relataram que Macro recebera a ordem de, caso Sejano tentasse pegar em armas, tirar da custódia o jovem (pois era mantido no Palácio) e colocá-lo à frente do povo como chefe. Depois, como corria o boato de que o César se reconciliaria com a nora e o neto, ele preferiu a crueldade ao arrependimento.
E mais, atacou o morto, lançando-lhe as torpezas do corpo, o ânimo funesto aos seus e hostil à república, e mandou ler o registro de seus atos e palavras anotados dia a dia, o que nada pareceu mais atroz: que durante tantos anos houvesse quem captasse o rosto, os gemidos e até o murmúrio secreto, e que o avô pudesse ouvir, ler e expor em público tudo isso, mal se acreditaria, não fosse o caso de que cartas do centurião Áfio e do liberto Dídimo traziam os nomes dos escravos, indicando quem golpeara ou aterrorizara Druso ao sair do quarto. Até suas próprias palavras o centurião, cheias de crueldade, acrescentara, como se fosse algo notável, e também as falas do moribundo: este, a princípio fingindo perturbação da mente, como se em delírio invocava maldições funestas sobre Tibério; depois, quando ficou sem esperança de vida, pronunciava imprecações premeditadas e elaboradas, para que, assim como ele enchera de mortes a nora, o filho do irmão, os netos e toda a casa, do mesmo modo pagasse as penas ao nome e à linhagem dos antepassados e aos descendentes. Os senadores faziam algum tumulto, fingindo abominar; mas os tomava o pavor e o espanto de ver que aquele que antes fora astuto e obscuro em ocultar crimes chegara a tal ponto de audácia que, como se afastadas as paredes, mostrava o neto sob o açoite do centurião, entre os golpes dos escravos, pedindo em vão o último alimento da vida.
Esse pesar ainda não se apagara quando se ouviu falar de Agripina. Penso que, morto Sejano, ela sobreviveu sustentada pela esperança, e, depois que nada se abrandava na crueldade, morreu por vontade própria, a menos que, negados os alimentos, se tenha simulado um fim que parecesse assumido espontaneamente. De fato, Tibério irrompeu em acusações torpíssimas, imputando-lhe impudicícia e tê-la tido Asínio Galo como adúltero, e que, pela morte dele, fora levada ao tédio da vida. Mas Agripina, impaciente com a igualdade e ávida de mandar, despira os vícios femininos com suas preocupações viris. O César acrescentou que ela morrera no mesmo dia em que, dois anos antes, Sejano pagara as penas, e mandou que isso fosse registrado para a memória, e se gabou de que ela não fora estrangulada pelo laço nem lançada nas Gemônias. Por isso foram decretados agradecimentos, e ficou estabelecido que no décimo quinto dia antes das calendas de novembro, dia da morte de ambos, se consagrasse a Júpiter, todos os anos, um presente.
Não muito depois, Cocceio Nerva, constante companheiro do príncipe, conhecedor de todo o direito divino e humano, em situação íntegra e com o corpo são, tomou a decisão de morrer. Logo que isso chegou ao conhecimento de Tibério, ele se sentou ao lado, perguntou as razões, juntou súplicas, confessou enfim que seria um peso para sua consciência e um peso para sua fama se o mais próximo dos amigos fugisse da vida sem motivo algum para morrer. Nerva, recusando a conversa, manteve a abstinência de alimento. Diziam os que conheciam seus pensamentos que, quanto mais de perto via os males da república, mais quis, por ira e medo, um fim honesto enquanto estava íntegro e ainda não atacado. Quanto ao resto, a ruína de Agripina, o que mal se acredita, arrastou Plancina. Casada antes com Cneu Pisão e abertamente alegre com a morte de Germânico, ela fora defendida, quando Pisão caiu, pelas súplicas da Augusta e não menos pelas inimizades de Agripina. Quando o ódio e o favor cessaram, prevaleceu a justiça; acusada por crimes bem conhecidos, pagou com a própria mão um castigo tardio mais que imerecido.
Estando a cidade funesta por tantos lutos, parte do pesar foi o fato de Júlia, filha de Druso e antes esposa de Nero, ter se casado dentro da família de Rubélio Blando, cujo avô a maioria se lembrava como um cavaleiro romano de Tíbur. No fim do ano, a morte de Élio Lâmia foi celebrada com funeral censório; ele, enfim liberado da aparência de governar a Síria, fora prefeito da cidade. Tinha linhagem honrada e velhice vigorosa; e a província não concedida lhe acrescentara dignidade. Em seguida, morto Flaco Pompônio, propretor da Síria, foram lidas cartas do César, nas quais ele acusava cada homem ilustre e apto a comandar exércitos de recusar essa função, e que ele próprio era levado a súplicas por essa necessidade, pelas quais alguns dos ex-cônsules eram forçados a assumir províncias, esquecido de que Arrúncio era retido para não seguir à Hispânia já havia dez anos. Morreu no mesmo ano também Mânio Lépido, sobre cuja moderação e sabedoria me detive o bastante nos livros anteriores. Não preciso demonstrar por mais tempo a nobreza: a estirpe dos Emílios foi fecunda de bons cidadãos, e mesmo os dessa família de costumes corrompidos viveram, ainda assim, com fortuna ilustre.
Sendo cônsules Paulo Fábio e Lúcio Vitélio, depois de um longo ciclo de séculos, a ave fênix veio ao Egito e ofereceu aos mais doutos dos nativos e dos gregos muita matéria para discutir sobre aquele prodígio. Sobre essas coisas há acordo, e há muitas dúvidas, mas é agradável expor o que não é absurdo de conhecer. Que esse animal é sagrado ao Sol e diferente das demais aves pelo bico e pela variedade das penas, concordam os que descreveram sua forma; sobre o número de anos, transmitem-se relatos variados. O mais divulgado é o espaço de quinhentos anos; há quem afirme que se interpõem mil quatrocentos e sessenta e um, e que as aves anteriores voaram, primeiro sob o reinado de Sesóstris, depois de Amásis, e em seguida de Ptolomeu, que reinou em terceiro lugar entre os macedônios, para a cidade de nome Heliópolis, com grande cortejo de outras aves que admiravam a nova figura. Mas a antiguidade é, sem dúvida, obscura: entre Ptolomeu e Tibério houve menos de duzentos e cinquenta anos. Por isso alguns acreditaram que essa fênix era falsa e não vinha das terras dos árabes, e que nada possuía daquilo que a antiga tradição confirmou. Pois, completado o número de anos, quando a morte se aproxima, ela constrói um ninho em sua própria terra e nele infunde uma força geradora da qual nasce um filhote; e o primeiro cuidado deste, já adulto, é sepultar o pai. E não faz isso ao acaso, mas, levantando um peso de mirra e tendo-o testado por longa viagem, quando está à altura da carga e do trajeto, carrega o corpo paterno, leva-o ao altar do Sol e o queima. Isso é incerto e aumentado por fábulas; quanto ao resto, não se duvida que essa ave às vezes seja vista no Egito.
Mas em Roma, em meio à matança contínua, Pompônio Labeão, que, como relatei, governara a Mésia, derramou o sangue pelas veias rompidas; e sua esposa Paxeia o imitou. Pois o medo do carrasco tornava prontas tais mortes, e, porque os condenados, confiscados os bens, eram proibidos de sepultura, os corpos dos que decidiam sobre si mesmos eram enterrados e seus testamentos permaneciam válidos, recompensa por se apressarem. Mas o César, enviadas cartas ao senado, expôs que fora costume dos antepassados, sempre que rompiam amizades, proibir alguém de entrar em casa e pôr fim ao favor; ele renovara isso no caso de Labeão; e este, porque era pressionado por má administração da província e outros crimes, encobrira a culpa com a inveja, tendo aterrorizado em vão a esposa, que, embora culpada, ficara fora de perigo. Em seguida Mamerco Escauro é de novo acusado, insigne pela nobreza e por defender causas, mas de vida torpe. Não o derrubou a amizade de Sejano, mas o ódio de Macro, não menos forte para causar a ruína, que praticava as mesmas artes de modo mais oculto e apresentara como prova o argumento de uma tragédia escrita por Escauro, juntando versos que pudessem ser voltados contra Tibério; mas os acusadores Servílio e Cornélio lhe imputavam adultério com Lívia e ritos de magos. Escauro, como digno dos antigos Emílios, antecipou-se à condenação, incitado pela esposa Séxtia, que foi o estímulo da morte e dela participou.
Ainda assim, os acusadores, se surgisse a ocasião, eram punidos com penas: assim Servílio e Cornélio, famosos por terem arruinado Escauro, porque tinham recebido dinheiro de Vário Lígure para desistir da delação, foram banidos para ilhas, interditados do fogo e da água. E Abúdio Ruso, que exercera a edilidade, enquanto criava perigo a Lêntulo Getúlico, sob quem comandara uma legião, alegando que ele destinara o filho de Sejano como genro, foi por sua vez condenado e expulso da cidade. Getúlico naquela época cuidava das legiões da Germânia Superior e alcançara um amor admirável, de clemência transbordante, moderado na severidade, e nem mesmo desagradável ao exército vizinho graças a Lúcio Aprônio, seu sogro. Daí o boato persistente de que ousara enviar cartas ao César: que o parentesco com Sejano começara não por vontade própria, mas por conselho de Tibério; que tanto ele quanto Tibério tinham podido se enganar, e que o mesmo erro não devia ser tido como inocente para o príncipe e como ruína para os outros. Que sua lealdade estava íntegra e assim permaneceria, se não fosse atacado por nenhuma cilada; que receberia um sucessor não de outro modo que um anúncio de morte. Que firmassem como que um pacto, pelo qual o príncipe dispusesse de tudo o mais e ele mesmo retivesse a província. Essas coisas, ainda que estranhas, ganhavam crédito pelo fato de que ele, único de todos os parentes de Sejano, permaneceu intato e com muito favor, ponderando Tibério o ódio público, sua idade extrema, e que seus assuntos se mantinham mais pela fama que pela força.
Sendo cônsules Caio Cestio e Marco Servílio, partos nobres vieram à cidade sem o conhecimento do rei Artabano. Esse, por medo de Germânico, fora fiel aos romanos e justo com os seus; depois assumiu soberba contra nós e crueldade contra os compatriotas, confiante nas guerras que travara com êxito contra as nações vizinhas, e, desprezando como inerme a velhice de Tibério, ávido da Armênia, à qual, morto o rei Artáxias, impôs Arsaces, o mais velho de seus filhos, acrescentando o ultraje de enviar quem reclamasse o tesouro deixado por Vonones na Síria e na Cilícia; ao mesmo tempo, evocava as antigas fronteiras dos persas e dos macedônios, e jactava-se, com palavras vãs e ameaças, de que invadiria o que fora possuído por Ciro e depois por Alexandre. Mas, entre os partos, o mais forte autor de enviar mensageiros secretos foi Sinaces, de família ilustre e de riquezas correspondentes, e o mais próximo dele, Abdo, privado da virilidade. Isso não é desprezado entre os bárbaros, e até tem poder. Eles, agregados outros chefes, porque não podiam impor à suprema autoridade ninguém da estirpe dos Arsácidas (mortos a maioria por Artabano, ou ainda não adultos), pediam de Roma Fraates, filho do rei Fraates: bastava só o nome e o respaldo, para que, com o consentimento do César, um descendente de Arsaces fosse visto na margem do Eufrates.
Isso era desejado por Tibério: ele equipa Fraates e o prepara para o trono paterno, mantendo seus planos, manejar os assuntos externos por meio de conselhos e astúcia, manter a guerra à distância. Entretanto, conhecida a cilada, Artabano ora se retardava pelo medo, ora se inflamava no desejo de vingança. E, entre os bárbaros, a hesitação parece servil; agir de imediato, próprio de rei. Prevaleceu, no entanto, a conveniência: chamando Abdo, sob aparência de amizade, a um banquete, prendeu-o com um veneno lento; a Sinaces enrolou com dissimulação e presentes e, ao mesmo tempo, com encargos. E Fraates, na Síria, ao abandonar o modo de vida romano a que por tantos anos se acostumara e adotar os costumes dos partos, incapaz de suportar os hábitos da pátria, foi consumido por uma doença. Mas Tibério não abandonou os planos começados: escolheu Tiridates, rival do mesmo sangue de Artabano, e, para recuperar a Armênia, o ibero Mitridates, e o reconciliou com o irmão Farasmanes, que detinha o reino daquele povo; e a tudo o que se preparava no Oriente pôs à frente Lúcio Vitélio. Sobre esse homem não ignoro a fama sinistra na cidade, e que se recordam muitas coisas torpes; quanto ao resto, no governo das províncias agiu com virtude antiga. Tendo dali regressado, e por medo de Caio César e pela intimidade com Cláudio, mudado para uma servidão vergonhosa, é tido entre a posteridade como exemplo de desonra aduladora; e as primeiras coisas cederam às últimas, e uma velhice infame apagou os bons feitos da juventude.
Mas, dos régulos, Mitridates foi o primeiro a convencer Farasmanes a ajudar suas tentativas com astúcia e força, e foram encontrados corruptores que, com muito ouro, forçaram ao crime os servos de Arsaces; ao mesmo tempo os iberos irrompem na Armênia com grandes tropas e se apoderam da cidade de Artaxata. Depois que isso ficou conhecido por Artabano, ele prepara o filho Orodes como vingador; dá-lhe as tropas dos partos e envia quem contrate auxiliares por paga. Farasmanes, por sua vez, junta os albanos e convoca os sármatas, cujos cetúcos, recebidos presentes de ambos os lados, conforme o costume do povo, tomaram partidos opostos. Mas os iberos, senhores das posições, lançam rapidamente os sármatas sobre os armênios pela via Cáspia. Já os que chegavam em socorro dos partos eram facilmente barrados, pois o inimigo fechara os outros acessos, e o único restante, entre o mar e os últimos montes dos albanos, o verão tornava difícil, porque os baixios se enchem com os sopros dos ventos etésios; o vento sul, no inverno, faz recuar as ondas e, repelido o mar para dentro, os rasos do litoral ficam descobertos.
Entretanto, Farasmanes, reforçado por tropas auxiliares, chamava Orodes, desprovido de aliados, ao combate, e, ante a recusa, o provocava, cavalgava até o acampamento, atacava os abastecimentos; e muitas vezes, à maneira de cerco, o cercava com postos avançados, até que os partos, não acostumados a ultrajes, cercaram o rei e exigiram batalha. E a força deles estava só na cavalaria; Farasmanes era forte também na infantaria. Pois os iberos e os albanos, habitando lugares cheios de matas, mais se acostumaram à dureza e à resistência; e dizem-se descendentes dos tessálios, do tempo em que Jasão, depois de levar embora Medeia e de gerar dela os filhos, voltou logo ao palácio vazio de Eetes e à terra dos colcos desabitada. Celebram muitas tradições ligadas ao seu nome e ao oráculo de Frixo; e ninguém ali sacrificaria um carneiro, por se crer que ele carregou Frixo, fosse esse animal ou o emblema de um navio. Quanto ao resto, formada de ambos os lados a linha de batalha, o parto discorria sobre o império do Oriente, a glória dos Arsácidas, e, em contraste, o ignóbil ibero com seu soldado mercenário; Farasmanes lembrava que os seus estavam livres do domínio parto, e que, quanto maiores fossem suas metas, mais glória teriam se vencessem, ou mais vergonha e perigo se dessem as costas; ao mesmo tempo mostrava a temível linha dos seus e as fileiras dos medos enfeitadas de ouro, de um lado homens, de outro despojos.
De fato, entre os sármatas não havia uma só voz de chefe: cada um incitava a si mesmo a não deixar a luta às flechas, mas a se antecipar com o ímpeto e o corpo a corpo. Daí surgiram variadas formas de combate, pois o parto, habituado a perseguir ou fugir com igual perícia, dispersava os esquadrões e buscava espaço para os disparos, enquanto os sármatas, abandonado o arco, com que são mais fortes a curta distância, se lançavam com lanças e espadas; ora, à maneira de combate de cavalaria, alternavam-se frente e retaguarda; ora, como em linha cerrada, repeliam e eram repelidos com os corpos e o impacto das armas. E já os albanos e os iberos agarravam, derrubavam, faziam a luta dupla para os inimigos, que a cavalaria pressionava do alto e a infantaria afligia com golpes mais próximos. Em meio a isso, Farasmanes e Orodes, enquanto assistiam aos valentes ou socorriam os hesitantes, sendo visíveis e por isso reconhecidos, lançam-se um contra o outro com gritos, dardos e cavalos; Farasmanes com mais ardor, pois cravou um golpe através do elmo. Mas não pôde repetir, levado pelo cavalo, e o ferido foi protegido pelos mais bravos de seus guardas; ainda assim, o boato falso de que fora morto aterrorizou os partos, e eles cederam a vitória.
Logo Artabano partiu para se vingar com toda a força do reino. Pela perícia dos lugares, os iberos lutaram melhor; e ele não se afastava, não fosse Vitélio ter reunido as legiões e, espalhado o boato de que invadiria a Mesopotâmia, ter criado o medo de uma guerra com Roma. Então, abandonada a Armênia, viraram-se os assuntos de Artabano, com Vitélio incitando os súditos a abandonar o rei, cruel na paz e desastroso nos resultados das batalhas. Assim, Sinaces, que antes mencionei como hostil, arrasta à revolta o pai Abdageses e outros cúmplices secretos do plano, agora, pelas contínuas derrotas, mais prontos à deserção, afluindo aos poucos os que, submetidos mais por medo que por benevolência, ganharam ânimo ao encontrar quem os liderasse. E já nada restava a Artabano além dos estrangeiros que serviam de guarda-costas, todos exilados de suas próprias terras, que não têm noção do bem nem cuidado com o mal, mas se alimentam por paga, servidores de crimes. Tomados estes, apressou a fuga para terras distantes e vizinhas da Cítia, na esperança de auxílio, porque estava ligado por parentesco aos hircânios e aos carmânios; e que entretanto os partos, brandos com os ausentes e inconstantes com os presentes, pudessem mudar para o arrependimento.
Mas Vitélio, fugido Artabano e voltados os ânimos dos compatriotas para o novo rei, exortou Tiridates a tomar o que estava preparado e conduziu a força das legiões e dos aliados à margem do Eufrates. Enquanto sacrificavam, oferecendo um deles, ao modo romano, a suovetaurília, e o outro um cavalo enfeitado para aplacar o rio, os habitantes vizinhos anunciaram que o Eufrates, sem nenhuma força de chuvas, subia por si mesmo e a uma altura imensa, e ao mesmo tempo, com espumas alvejantes, formava círculos à maneira de um diadema, presságio de uma travessia próspera. Alguns interpretavam com mais sutileza que os inícios da empresa seriam favoráveis, mas não duradouros, porque havia crédito mais seguro nas coisas anunciadas pela terra ou pelo céu, ao passo que a natureza instável dos rios ao mesmo tempo mostrava os presságios e os arrebatava. Mas, feita uma ponte de barcos e atravessado o exército, o primeiro a chegar ao acampamento foi Ornospades, com muitos milhares de cavaleiros, antes exilado e auxiliar nada inglório de Tibério quando este concluía a guerra dálmata, e por isso agraciado com a cidadania romana; depois, retomada a amizade do rei e com muita honra junto a ele, fora nomeado prefeito das planícies que, cercadas pelos famosos rios Eufrates e Tigre, receberam o nome de Mesopotâmia. E não muito depois Sinaces aumenta as tropas, e Abdageses, esteio do partido, acrescenta o tesouro e os aprestos régios. Vitélio, julgando bastante ter exibido as armas romanas, adverte Tiridates e os chefes: este, que se lembrasse do avô Fraates e do César, seu protetor, e de tudo o que de belo havia em ambos; aqueles, que mantivessem a obediência ao rei, o respeito por nós, e cada um a própria honra e lealdade. Em seguida retornou com as legiões à Síria.