Capítulos

Um senador romano de toga escreve com estilete numa tábua de cera, um rolo de papiro na outra mão

Anais - Livro VI

O terror final de Tibério em Capri e a sua morte

Sobre a obra

Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.

Este é o Livro VI, que vai de 32 a 37 d.C. e termina com a morte de Tibério. É o último livro conservado sobre esse reinado: os livros VII a X, que traziam Calígula e o começo de Cláudio, estão perdidos. Vale lembrar que a fronteira entre o Livro V e o Livro VI é uma decisão de editor, não uma marca do manuscrito: a divisão usada hoje vem de Justo Lípsio, no século 16, e há quem sustente que o fragmento impresso no fim do Livro V pertence na verdade ao começo deste.

Capri e a repressão depois de Sejano

O livro abre com o imperador em Capri e com as acusações sobre a conduta dele na ilha, para as quais Tácito diz que se cunharam palavras novas. Convém tratar essas passagens com cuidado: são relatos hostis, ampliados depois por Suetônio, e não há como verificá-los. O que o texto documenta melhor é o mecanismo político.

Esse mecanismo aparece em 33 d.C., quando são mortos de uma vez todos os presos acusados de ligação com Sejano. Tácito descreve a pilha de corpos, homens e mulheres, conhecidos e obscuros, arrastados para o Tibre sem sepultura. No mesmo período uma crise de crédito abala Roma, com credores exigindo os empréstimos ao mesmo tempo, e Tibério intervém distribuindo cem milhões de sestércios pelos bancos para emprestar sem juros.

(Anais - Livro VI 1:17)

(Anais - Livro VI 1:19)

A família imperial e a fênix

Em 33 d.C. morrem Druso César, mantido preso no Palácio, e Agripina, a viúva de Germânico, no exílio. Tácito diz que Druso morreu de fome, e registra que as maldições que ele proferiu foram lidas em voz alta no Senado a partir das anotações dos guardas. É um dos poucos casos em que ele indica a fonte documental do que narra.

No meio dessas mortes entra uma digressão curiosa: a aparição da fênix no Egito. Tácito relata a tradição, discute os intervalos propostos para o retorno da ave, quinhentos anos ou mil quatrocentos e sessenta e um, e observa que os antigos discordam entre si. Ele não afirma o prodígio; expõe o que se conta e onde as versões divergem.

(Anais - Livro VI 2:23)

(Anais - Livro VI 2:25)

(Anais - Livro VI 2:28)

A Pártia e a sucessão

A parte final do livro alterna processos em Roma e política externa. Nobres partos pedem apoio romano contra o rei Artabano, e Tibério envia Lúcio Vitélio ao Oriente com Tiridates como candidato ao trono. Tiridates chega a reinar com respaldo romano e depois perde o apoio, e Artabano retoma o poder. É a demonstração mais clara, nos livros de Tibério, de como Roma operava por reis clientes em vez de conquista direta.

Sobre a sucessão, Tácito apresenta um Tibério que hesita entre o neto Tibério Gemelo e o sobrinho-neto Caio, o futuro Calígula, e acaba não decidindo: deixa a escolha ao destino. Registra que, quando Caio zombou de Lúcio Sula, Tibério lhe predisse que teria todos os vícios de Sula e nenhuma de suas virtudes. Segundo Suetônio, o testamento deixou Caio e Gemelo como co-herdeiros. Como toda fala reportada na historiografia antiga, a predição é reconstrução do autor, não transcrição.

(Anais - Livro VI 2:32)

(Anais - Livro VI 3:46)

A morte de Tibério

Em março de 37 d.C. Tibério adoece em Miseno, com setenta e sete anos completos, no septuagésimo oitavo ano de vida. Tácito conta que o médico Cáricles, ao tomar-lhe a mão em despedida, percebeu que o pulso falhava, e que a notícia correu. Dado como morto, o imperador voltou a si, e então Macro, prefeito do pretório, mandou sufocá-lo sob um monte de roupas de cama. Essa é a versão de Tácito, seguida por Dião Cássio; Sêneca e Fílon, que escreveram ainda sob Tibério, registram morte natural, e Josefo narra a doença e a morte sem mencionar sufocamento. A historiografia moderna se divide.

O livro fecha com o juízo de Tácito sobre o personagem, dividido em fases: exemplar enquanto foi cidadão particular e exerceu cargos sob Augusto, dissimulado enquanto viveram Germânico e Druso, misturado entre bem e mal enquanto viveu a mãe, cruel mas com os vícios encobertos enquanto amou ou temeu Sejano, e por fim entregue sem disfarce ao crime e à torpeza quando caíram o pudor e o medo. O esquema é uma tese do autor, não um dado neutro, e é discutido pelos historiadores modernos.

(Anais - Livro VI 3:50)

(Anais - Livro VI 3:51)

Por que este livro importa

Com a morte de Tibério em 37 d.C. termina o relato conservado de Tácito sobre o imperador em cujo reinado os evangelhos situam a execução de Jesus. O que vem depois, os anos de Calígula e o início de Cláudio, está perdido, e por isso não há em Tácito nenhuma narrativa contemporânea da primeira geração cristã. A menção dele a Cristo aparece muito adiante, no Livro XV, escrita em retrospecto ao tratar do incêndio de Roma em 64.

(Anais - Livro XV 3:44)