Anais - Livro VI 1

O terror final de Tibério em Capri e a sua morte

Cneu Domício e Camilo Escriboniano haviam assumido o consulado quando o imperador, depois de cruzar o estreito que separa Capri de Surrento, navegou ao longo da Campânia, indeciso se entraria em Roma ou se, por ter resolvido o contrário, fingia a aparência de quem viria. Muitas vezes desembarcou em pontos vizinhos e visitou os jardins junto ao Tibre, mas voltava de novo aos rochedos e à solidão do mar, envergonhado dos crimes e devassidões em que ardia tão desenfreadamente que, à maneira de um déspota, corrompia com estupros a juventude livre. Não era a beleza e os corpos bem-feitos que excitavam sua luxúria, mas em uns a modéstia da infância, em outros as imagens dos antepassados. Foi então que, pela primeira vez, se inventaram nomes antes desconhecidos, derivados da torpeza do lugar e das múltiplas formas de submissão. Encarregaram-se escravos de procurar e arrastar essas vítimas, com presentes para os que se dispunham e ameaças contra os que recusavam; e, se um parente ou pai os retivesse, exerciam violência e rapto, satisfazendo seus próprios apetites como se lidassem com prisioneiros.
Em Roma, entretanto, no início do ano, como se os crimes de Lívia tivessem sido recém-descobertos e não muito punidos, propunham-se sentenças atrozes até contra suas estátuas e sua memória, e que os bens de Sejano fossem retirados do erário e transferidos para o fisco imperial, como se houvesse alguma diferença. Homens como os Cipiões, os Silanos e os Cássios decretavam isso com muita ênfase, quase nas mesmas palavras ou com leves mudanças, quando de repente Togônio Galo, ao intrometer sua obscuridade entre nomes ilustres, foi ouvido com escárnio. Pois pedia ao príncipe que escolhesse senadores dos quais vinte, tirados à sorte e munidos de espada, defendessem sua segurança sempre que entrasse na cúria. O homem, com efeito, acreditara numa carta em que o imperador pedia um dos cônsules como apoio, para que pudesse ir seguro de Capri à cidade. Tibério, no entanto, habituado a misturar zombaria e seriedade, agradeceu a boa vontade dos senadores, mas perguntou: quais poderiam ser dispensados, quais escolhidos? Sempre os mesmos ou sucessivamente outros? Os que exerceram cargos ou jovens, cidadãos comuns ou magistrados? E que espetáculo seria o de homens empunhando espadas à porta da cúria? Sua vida não valia tanto, se tivesse de ser protegida por armas. Isso disse contra Togônio, moderando as palavras, sem insistir em nada além da rejeição da proposta.
A Júnio Galião, por sua vez, que propusera que os pretorianos, cumprido o tempo de serviço, adquirissem o direito de sentar-se nas quatorze fileiras do teatro, repreendeu com violência, perguntando como se estivesse diante dele o que tinha ele com os soldados, que não deviam receber ordens nem recompensas senão do próprio imperador. Com certeza descobrira algo que o divino Augusto não previra! Ou não buscava antes um sequaz de Sejano semear discórdia e sedição, para com o pretexto de honraria impelir espíritos ingênuos a corromper a disciplina militar? Foi esse o prêmio que Galião recebeu por sua bajulação calculada: expulso logo da cúria, depois da Itália; e, como se queixavam de que suportaria o exílio com facilidade, tendo escolhido Lesbos, ilha famosa e amena, foi trazido de volta à cidade e mantido sob custódia nas casas dos magistrados. Na mesma carta o imperador derrubou Séxtio Paconiano, ex-pretor, para grande alegria dos senadores, homem audaz e malfeitor, que devassava os segredos de todos e fora escolhido por Sejano como instrumento da cilada que se preparava contra Caio César. Quando isso veio à tona, irromperam ódios muito reprimidos, e ter-se-ia decretado o supremo suplício, se ele não tivesse declarado fazer uma delação.
Mas quando se procedeu contra Latínio Latiar, acusador e réu, ambos igualmente odiados, ofereceram o mais agradável dos espetáculos. Latiar, como relatei, fora antes o principal na trama para enredar Tício Sabino, e agora era o primeiro a pagar a pena. Nesse meio-tempo Hatério Agripa atacou os cônsules do ano anterior, perguntando por que, depois de se ameaçarem mutuamente com acusações, agora se calavam: era o medo, com certeza, e a consciência da culpa que tomavam por um pacto; mas os senadores não deviam silenciar o que tinham ouvido. Régulo respondeu que esperava o momento da vingança e que a executaria diante do príncipe; Trião respondeu que era melhor apagar a rivalidade entre colegas e o que tivessem dito em suas desavenças. Como Agripa insistisse, Sanquínio Máximo, dos ex-cônsules, suplicou ao senado que não aumentasse as preocupações do imperador com mais amarguras rebuscadas: ele bastava para estabelecer os remédios. Assim se obteve a salvação de Régulo e o adiamento da ruína de Trião. Hatério tornou-se ainda mais odioso, pois, lânguido de sono ou de vigílias devassas e, por preguiça, não temendo um príncipe ainda que cruel, tramava entre orgias e estupros a perdição de homens ilustres.
Em seguida, Cota Messalino, autor de toda sentença mais cruel e por isso alvo de ódio antigo, logo que houve ocasião foi acusado: dissera muitas coisas contra Caio César, como se duvidasse de sua virilidade, e, quando ceava entre os sacerdotes no aniversário de Augusta, chamara aquele banquete de banquete fúnebre; e, queixando-se do poder de Mânio Lépido e de Lúcio Arrúncio, com quem disputava por causa de dinheiro, acrescentara: 'A esses o senado os protegerá, mas a mim o meu Tiberiozinho.' De tudo isso era convencido pelos principais cidadãos e, ante a insistência deles, apelou ao imperador. Não muito depois chegou uma carta em que, a modo de defesa, recordado o princípio da amizade entre ele e Cota e enumerados os frequentes serviços deste, pediu que palavras maldosamente distorcidas e a franqueza das conversas de mesa não fossem tomadas por crime.
Notável pareceu o início daquela carta do imperador, pois começou com estas palavras: 'O que vos escreverei, senadores, ou de que modo escreverei, ou o que não escreverei de modo algum neste momento, que os deuses e as deusas me destruam pior do que sinto perecer a cada dia, se o sei.' De tal modo seus próprios crimes e infâmias se tinham voltado contra ele como castigo. E não em vão o maior mestre da sabedoria costumava afirmar que, se as mentes dos tiranos fossem descobertas, poder-se-iam ver dilacerações e golpes; pois, assim como os corpos são feridos pelos açoites, também o espírito é despedaçado pela crueldade, pela luxúria e pelos maus desígnios. De fato, nem a fortuna nem a solidão protegiam Tibério de confessar os tormentos do peito e as próprias penas.
Dada então aos senadores a faculdade de decidir sobre o senador Ceciliano, que muito havia declarado contra Cota, decidiu-se impor-lhe a mesma pena que a Aruseio e Sanquínio, acusadores de Lúcio Arrúncio: nada de mais honroso aconteceu a Cota, que, embora nobre, mas arruinado pelo luxo e infame por suas devassidões, era igualado em dignidade de vingança às virtudes irrepreensíveis de Arrúncio. Depois foram levados a julgamento Quinto Servêu e Minúcio Termo: Servêu, ex-pretor e antigo companheiro de Germânico; Minúcio, de ordem equestre, ambos amigos de Sejano com discrição. Por isso maior compaixão despertavam. Tibério, ao contrário, increpando-os como dos principais nos crimes, mandou Caio Céstio, o pai, dizer ao senado o que lhe escrevera, e Céstio assumiu a acusação. Foi o que aqueles tempos trouxeram de mais funesto: que os principais do senado se ocupassem até das mais baixas delações, uns abertamente, muitos às ocultas; e não se podia distinguir estranhos de parentes, amigos de desconhecidos, o que era recente do que era obscuro pela antiguidade. No foro, num banquete, sobre qualquer assunto que falassem, eram acusados, conforme cada um se apressava a antecipar-se e marcar a vítima, uns para se protegerem, a maioria como que contaminados por uma doença e seu contágio. Mas Minúcio e Servêu, condenados, passaram a delatores. E foram arrastados à mesma sorte Júlio Africano, da cidade gaulesa dos Santões, e Seio Quadrato, cuja origem não apurei. Não ignoro que muitos escritores omitiram os perigos e penas de muitos, ou exaustos pela quantidade ou temendo que o que a eles mesmos pareceu excessivo e triste afligisse os leitores com igual tédio; a mim, no entanto, muitos fatos dignos de saber-se ocorreram, ainda que não celebrados por outros.
Pois naquele tempo em que os demais haviam falsamente renegado a amizade de Sejano, ousou o cavaleiro romano Marco Terêncio, réu por isso mesmo, abraçá-la, começando assim diante do senado: 'Talvez à minha fortuna conviesse menos reconhecer a acusação do que negá-la; mas, seja qual for o desfecho, confessarei que fui amigo de Sejano, que busquei sê-lo e que, tendo-o conseguido, me alegrei. Eu o vira colega de seu pai no comando das coortes pretorianas, depois exercendo ao mesmo tempo os deveres civis e militares. Seus parentes e afins eram cumulados de honras; quem fosse íntimo de Sejano tinha forte recomendação para a amizade do imperador; ao contrário, aqueles a quem ele era hostil viviam atormentados pelo medo e pela humilhação. Não tomo ninguém como exemplo: a todos nós, que não tivemos parte em seu último plano, defenderei pelo risco de mim. Pois não cultuávamos Sejano de Vulsínios, mas um membro das casas Cláudia e Júlia, em que se inserira por aliança, teu genro, César, teu colega de consulado, o homem que conduzia tuas funções no Estado. Não cabe a nós julgar a quem elevas acima dos demais e por quais motivos: a ti os deuses deram o supremo juízo das coisas, a nós restou a glória da obediência. Olhamos, além disso, o que temos diante dos olhos: a quem vêm de ti riquezas e honras, quem tem o maior poder de ajudar ou prejudicar, o que ninguém negará que Sejano teve. Investigar os pensamentos secretos do príncipe e o que ele prepara em segredo é ilícito e perigoso, e nem por isso se alcançaria. Não penseis, senadores, apenas no último dia de Sejano, mas em seus dezesseis anos. Venerávamos até um Sátrio e um Pompônio; ser conhecido até por seus libertos e porteiros era tido por grande coisa. Que dizer, então? Será dada essa defesa indistinta e geral a todos? Não, que se divida por limites justos. Punam-se as ciladas contra o Estado, os planos de morte contra o imperador; quanto à amizade e aos deveres, o mesmo limite absolva a ti, César, e a nós.'
A firmeza desse discurso, e o fato de ter aparecido alguém que dissesse o que todos remoíam no íntimo, surtiram tanto efeito que os acusadores de Terêncio, somados os delitos que antes haviam cometido, foram punidos com exílio ou morte. Seguiu-se depois uma carta de Tibério contra Séxtio Vistílio, ex-pretor, que ele, por ser muito caro a seu irmão Druso, admitira em seu círculo íntimo. A causa da ofensa contra Vistílio foi ou ter escrito algo contra Caio César como devasso, ou ter-se dado crédito a uma falsa acusação. E por isso, afastado da mesa do príncipe, tentou o ferro com sua mão senil e cortou as veias; mas, tendo pedido perdão por escrito e recebido uma resposta impiedosa, abriu-as de novo. Em seguida, em massa, Ânio Polião, Ápio Silano, Mamerco Escauro, juntamente com Sabino Calvísio, foram acusados de lesa-majestade, e a Polião, o pai, juntava-se Viniciano, todos de linhagem ilustre e alguns dos mais altos cargos. Os senadores tremeram, pois quão poucos estavam livres de parentesco ou amizade com tantos homens ilustres? Mas Celso, tribuno de uma coorte urbana, então entre os delatores, livrou Ápio e Calvísio do perigo. O imperador adiou a causa de Polião, Viniciano e Escauro, para julgá-la ele mesmo com o senado, não sem apor ao nome de Escauro certas marcas sombrias.
Nem as mulheres estavam isentas de perigo. Como não se podia acusá-las de tentar usurpar o Estado, eram incriminadas por suas lágrimas; e foi morta a anciã Vícia, mãe de Fúfio Gêmino, por ter chorado a morte do filho. Isso no senado; e não diversamente, junto ao príncipe, Vesculário Flaco e Júlio Marino foram levados à morte, dos mais antigos amigos, que o haviam seguido a Rodes e eram inseparáveis em Capri: Vesculário fora intermediário na cilada contra Libão; com a participação de Marino, Sejano oprimira Cúrcio Ático. Por isso foi recebido com mais alegria que esses precedentes recaíssem sobre os que os haviam criado. Pelo mesmo tempo morreu de morte natural Lúcio Pisão, pontífice, coisa rara em tão alta posição: nunca por vontade própria propôs sentença servil e, sempre que a necessidade apertava, moderava com sabedoria. Mencionei que seu pai fora censor; chegou aos oitenta anos de idade; merecera as insígnias triunfais na Trácia. Mas sua principal glória veio de ter ele, como prefeito da cidade, moderado admiravelmente um poder havia pouco tornado contínuo e mais pesado pela falta de hábito de obedecer-lhe.
Pois antigamente, quando os reis e depois os magistrados saíam de Roma, escolhia-se temporariamente alguém para administrar a justiça e prover às emergências, a fim de que a cidade não ficasse sem governo; e contam que Romulo nomeou Denter Romúlio, depois Tulo Hostílio nomeou Numa Márcio, e Tarquínio, o Soberbo, Espúrio Lucrécio. Depois passaram os cônsules a fazer a nomeação; e ainda subsiste uma imagem disso sempre que, por causa das férias latinas, alguém é designado para exercer a função consular. Augusto, por sua vez, durante as guerras civis, pôs Cílnio Mecenas, da ordem equestre, à frente de tudo em Roma e na Itália; depois, alcançado o poder, em vista da grandeza do povo e da lentidão dos recursos legais, tomou dentre os ex-cônsules quem refreasse os escravos e a parte dos cidadãos que, se não teme a força, é turbulenta. O primeiro a obter esse poder foi Messala Corvino, que o perdeu em poucos dias, como se não soubesse exercê-lo; depois Tauro Estatílio, embora de idade avançada, desempenhou-o de modo excelente; em seguida Pisão, por vinte anos igualmente aprovado, foi honrado, por decreto do senado, com um funeral público.
Trouxe-se então aos senadores, pelo tribuno da plebe Quintiliano, a questão de um livro da Sibila que Canínio Galo, dos quindecênviros, pedira fosse recebido entre os outros da mesma profetisa, com um decreto do senado a respeito. Aprovado isso por votação, o imperador enviou uma carta repreendendo moderadamente o tribuno, por ignorância dos antigos costumes em razão de sua juventude. A Galo censurava que, conhecedor antigo da ciência e das cerimônias, tivesse tratado de um poema de autor incerto antes do parecer do colégio, e não, como é costume, depois de lido e avaliado pelos mestres, perante um senado pouco numeroso. Ao mesmo tempo lembrou que, porque muitas falsificações se divulgavam sob nome célebre, Augusto fixara o prazo dentro do qual deviam ser entregues ao pretor urbano, sem que fosse lícito mantê-las em mãos particulares. Isso também havia sido decretado pelos antepassados depois que o Capitólio foi incendiado na guerra social, quando se buscaram em Samos, Ílion, Eritras, e mesmo pela África, Sicília e colônias itálicas os versos da Sibila, fosse uma ou várias, e se deu aos sacerdotes a tarefa de discernir, quanto fosse possível por meios humanos, o que era verdadeiro. Assim, também então, aquele livro foi submetido ao exame dos quindecênviros.
Sob os mesmos cônsules, a carestia dos cereais quase levou a uma sedição, e durante muitos dias se exigiram no teatro muitas coisas, com mais licença que de costume, contra o imperador. Irritado com isso, ele censurou os magistrados e os senadores por não terem contido o povo com a autoridade do Estado, e acrescentou de que províncias e em que quantidade, muito maior que Augusto, ele importava o trigo. Assim, para repreender a plebe, redigiu-se um decreto do senado com a severidade antiga, e não menos rigorosamente publicaram os cônsules seu edito. O silêncio do próprio imperador foi tomado não por civismo, como ele esperara, mas por soberba.
No fim do ano, Gêmino, Celso e Pompeu, cavaleiros romanos, caíram sob a acusação de conspiração. Destes, Gêmino, pela prodigalidade dos bens e a moleza da vida, fora amigo de Sejano, sem nada de sério. E Júlio Celso, tribuno, estando preso, afrouxou a corrente, passou-a em torno do pescoço e, puxando em sentido contrário, quebrou a própria cerviz. A Rúbrio Fabato, sob suspeita de que, desesperado das coisas de Roma, fugia para a misericórdia dos partos, acrescentaram-se guardas. De fato, foi encontrado junto ao estreito da Sicília e, trazido de volta por um centurião, não apresentava nenhuma causa plausível para tão longa viagem; mas permaneceu ileso, mais por esquecimento que por clemência.
No consulado de Sérvio Galba e Lúcio Sula, o imperador, depois de muito procurar a quem destinar como maridos para suas netas, agora que a idade das jovens apertava, escolheu Lúcio Cássio e Marco Vinício. Vinício era de origem provinciana: nascido em Cales, com pai e avô consulares, mas no resto de família equestre, de índole branda e eloquência polida. Cássio era de família plebeia de Roma, mas antiga e honrada, e, educado sob a severa disciplina do pai, recomendava-se mais pela afabilidade que pela diligência. A este uniu Drusila, e a Vinício Júlia, filhas de Germânico, e sobre isso escreveu ao senado com leve elogio aos jovens. Depois, dadas razões muito vagas para sua ausência, passou a assuntos mais graves, às hostilidades surgidas por causa de sua política de Estado, e pediu que Macrão, prefeito dos pretorianos, e poucos tribunos e centuriões entrassem com ele sempre que ingressasse na cúria. E, embora se votasse um decreto do senado amplo e sem restrição de categoria ou número, jamais se aproximou nem mesmo dos muros da cidade, e muito menos do conselho público, contornando a pátria por caminhos quase sempre desviados e evitando-a.
Entrementes, uma grande multidão de acusadores irrompeu contra os que aumentavam o dinheiro com a usura, contra a lei do ditador César que regula o modo de emprestar e de possuir terras dentro da Itália, lei muito esquecida porque o bem público é posposto ao interesse privado. De fato, antigo era em Roma o mal da usura e frequentíssima causa de seções e discórdias, e por isso era refreado mesmo nos costumes antigos e menos corrompidos. Pois primeiro se sancionou nas Doze Tábuas que ninguém exercesse juros acima de um por cento, quando antes se praticava ao arbítrio dos ricos; depois, por proposta dos tribunos, reduziu-se à metade, e por fim se proibiu o juro composto. E por muitos plebiscitos se foi ao encontro das fraudes que, tantas vezes reprimidas, ressurgiam por estranhas artimanhas. Mas então o pretor Graco, a quem coubera essa investigação, forçado pelo número de ameaçados, levou a questão ao senado, e os senadores, assustados (pois ninguém estava livre de tal culpa), pediram indulgência ao príncipe; e, concedendo ele, deram-se para o futuro um ano e seis meses, dentro dos quais cada um regulasse suas contas particulares conforme as ordens da lei.
Daí veio a escassez de moeda, abalado ao mesmo tempo todo o crédito, e porque, com tantos condenados e seus bens vendidos, a prata cunhada ficava retida no fisco ou no erário. A isso o senado prescrevera que cada um aplicasse dois terços de seu capital em terras pela Itália. Mas os credores cobravam o total, e não era decoroso aos cobrados quebrar a palavra. Assim, primeiro houve correria e súplicas, depois alarido no tribunal do pretor; e a própria medida buscada como remédio, a venda e a compra, voltou-se ao contrário, porque os usurários tinham guardado todo o dinheiro para comprar terras. À facilidade de vender seguiu-se a baixa dos preços, e quanto mais endividado estava alguém, mais dificilmente se desfazia dos bens, e muitos eram arruinados de suas fortunas; a derrocada do patrimônio precipitava a dignidade e a fama, até que o imperador trouxe ajuda, distribuindo pelos bancos cem milhões de sestércios e dando a faculdade de emprestar sem juros por três anos, se o devedor desse ao Estado garantia em terras pelo dobro. Assim se restaurou o crédito e, aos poucos, também se encontraram credores particulares. E a compra de terras não se fez conforme a forma do decreto do senado: com começos rigorosos, como costuma acontecer em tais casos, e fim descuidado.
Depois voltaram os antigos temores, com a acusação de lesa-majestade contra Considio Próculo, que, celebrando sem nenhum medo o dia de seu nascimento, foi arrebatado à cúria e ao mesmo tempo condenado e morto; e a sua irmã Sância foi interditada de água e fogo, sendo acusador Quinto Pompônio. Este, de espírito inquieto, alegava que fazia isso e coisas semelhantes para, com a benevolência ganha junto ao príncipe, remediar os perigos de seu irmão Pompônio Segundo. Também contra Pompeia Macrina decretou-se o exílio, cujo marido Argólico e cujo sogro Lacão, dos principais dos aqueus, o imperador havia arruinado. O pai também, ilustre cavaleiro romano, e o irmão, ex-pretor, vendo iminente a condenação, mataram-se a si mesmos. Imputava-se-lhes como crime que seu bisavô Teófanes de Mitilene tivesse sido um dos íntimos de Cneu Magno, e que, morto Teófanes, a bajulação grega lhe tivesse atribuído honras celestes.
Depois deles, Séxtio Mário, o mais rico das Espanhas, foi denunciado por incesto com a filha e lançado da rocha Tarpeia. E, para que não houvesse dúvida de que a magnitude de sua riqueza lhe causara a ruína, Tibério reservou para si suas minas de cobre e ouro, embora confiscadas para o Estado. Excitado pelos suplícios, mandou matar todos os que estavam presos acusados de associação com Sejano. Jazia imensa carnificina: todo sexo, toda idade, ilustres e obscuros, dispersos ou amontoados. Nem aos parentes ou amigos era permitido estar ao lado, chorar, nem sequer olhar por muito tempo; mas guardas postos em redor, atentos ao luto de cada um, seguiam os corpos apodrecidos até serem arrastados ao Tibre, onde, boiando ou lançados às margens, ninguém ousava queimá-los nem tocá-los. A força do terror extinguira o convívio da sorte humana, e, à medida que a crueldade crescia, a compaixão era afastada.
Por esse mesmo tempo Caio César, companheiro do avô em sua retirada a Capri, recebeu em casamento Cláudia, filha de Marco Silano, ocultando um ânimo cruel sob uma modéstia dissimulada: nem a condenação da mãe nem a morte dos irmãos lhe arrancaram uma palavra; qual fosse o humor que Tibério assumisse no dia, igual seu semblante, com palavras pouco diferentes. Daí logo se difundiu o dito notável do orador Pássieno, de que nunca houve melhor escravo nem pior senhor. Não omitirei o presságio de Tibério a respeito de Sérvio Galba, então cônsul: chamado e sondado em diversas conversas, por fim, em palavras gregas, falou-lhe neste sentido: 'Tu também, Galba, um dia provarás o poder', insinuando um poder tardio e breve, pela ciência da arte dos caldeus, cujo aprendizado teve ócio para adquirir em Rodes, tendo a Trasilo por mestre, e cuja perícia experimentou do modo seguinte.