O Anticristo 10
A maldição de Nietzsche contra o cristianismo (1888): lendo o Novo Testamento como filólogo, ele separa Jesus de Paulo, acusa a Igreja de inverter os valores da vida e fecha com sua Lei contra o Cristianismo
§ 44
— Os Evangelhos são inestimáveis como testemunho da corrupção já incontível dentro da primeira comunidade. O que Paulo levou depois às últimas consequências com o cinismo lógico de um rabino não passava, apesar de tudo, do processo de decadência que começou com a morte do Redentor. — Esses Evangelhos não se pode ler com cuidado suficiente; eles têm suas dificuldades por trás de cada palavra. Confesso, e isso me será relevado, que justamente por isso eles são para um psicólogo um prazer de primeira ordem, como o oposto de toda corrupção ingênua, como o refinamento par excellence, como maestria artística na corrupção psicológica. Os Evangelhos estão à parte. A Bíblia em geral não admite comparação. Estamos entre judeus: primeiro ponto de vista, para não perder de todo o fio aqui. O disfarce de si no "santo", que aqui se torna pura genialidade, jamais alcançado nem de longe entre livros e homens, essa falsificação de palavras e gestos como arte não é o acaso de algum talento isolado, de alguma natureza excepcional. Para isso é preciso raça. No cristianismo, como a arte de mentir santamente, todo o judaísmo, um exercício preliminar e uma técnica judaicos de muitos séculos e da máxima seriedade, chega à derradeira mestria. O cristão, essa ultima ratio da mentira, é o judeu mais uma vez, três vezes até… — A vontade de princípio de só aplicar conceitos, símbolos, atitudes comprovados na prática do sacerdote, a recusa instintiva de qualquer outra prática, de qualquer outra forma de perspectiva de valor e de utilidade, isso não é só tradição, é herança: só como herança atua como natureza. A humanidade inteira, até as melhores cabeças das melhores épocas (com uma exceção, que talvez seja apenas um sub-homem), deixou-se enganar. Leram o Evangelho como livro da inocência…: indício nada pequeno de com que mestria aqui se representou um papel. — Claro: se os víssemos, mesmo de passagem, todos esses beatos esquisitos e santos de teatro, seria o fim, e exatamente porque não leio palavra alguma sem ver os gestos, dou cabo deles… Não suporto neles um certo modo de erguer os olhos. — Por sorte, para a imensa maioria, livros são só literatura — — Não se deve deixar enganar: "não julgueis!", eles dizem, mas mandam para o inferno tudo o que lhes atrapalha o caminho. Ao deixarem Deus julgar, julgam eles mesmos; ao glorificarem Deus, glorificam a si mesmos; ao exigirem justamente as virtudes de que são capazes, mais ainda, de que precisam para sequer se manter no topo, dão-se a grande aparência de uma luta pela virtude, de um combate pelo domínio da virtude. "Vivemos, morremos, nos sacrificamos pelo bem" (a "verdade", a "luz", o "Reino de Deus"): na verdade, fazem o que não conseguem deixar de fazer. Ao se esgueirarem à maneira de hipócritas dissimulados, sentados no canto, vivendo na sombra como sombras, fazem disso um dever: como dever, sua vida aparece como humildade, e como humildade é uma prova a mais de piedade… Ah, esse tipo de mentira humilde, casta, misericordiosa! "Que a própria virtude testemunhe por nós"… Leiam os Evangelhos como livros de sedução por meio da moral: a moral é confiscada por essa gente pequena, eles sabem o que está em jogo com a moral! É com a moral que melhor se leva a humanidade pelo nariz! — A realidade é que aqui a mais consciente presunção de eleitos representa o papel da modéstia: puseram a si mesmos, a "comunidade", os "bons e justos", de uma vez por todas de um lado, o "da verdade", e o resto, "o mundo", do outro… Foi a forma mais funesta de megalomania que já houve na terra: pequenos abortos de beatos e mentirosos começaram a reivindicar para si os conceitos "Deus", "verdade", "luz", "espírito", "amor", "sabedoria", "vida", como que sinônimos de si mesmos, para com isso demarcar o "mundo" como contrário a si; pequenos judeus de superlativo, maduros para todo tipo de manicômio, inverteram os valores em geral conforme a si mesmos, como se só o cristão fosse o sentido, o sal, a medida, e também o juízo final de todo o resto… Toda essa fatalidade só se tornou possível porque já havia no mundo uma forma aparentada, aparentada por raça, de megalomania, a judaica: assim que o abismo entre judeus e judeus-cristãos se rasgou, não restou aos últimos escolha alguma senão aplicar contra os próprios judeus os mesmos procedimentos de autopreservação que o instinto judaico aconselhava, ao passo que os judeus até então só os tinham aplicado contra tudo o que era não-judaico. O cristão é apenas um judeu de confissão "mais livre". —
§ 45
Dou algumas amostras do que essa gente pequena meteu na cabeça, do que puseram na boca de seu mestre: nada além de confissões de "belas almas". —
"E os que não vos receberem nem vos ouvirem, ao sairdes dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo: no juízo final haverá menos rigor para Sodoma e Gomorra do que para tal cidade" (Mc 6:11) — Que evangélico!…
"E quem fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar" (Mc 9:42) — Que evangélico!…
"Se teu olho te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti. Melhor te é entrar com um só olho no Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu verme não morre e o seu fogo não se apaga" (Mc 9:47) — Não é precisamente o olho o que se quer dizer…
"Em verdade vos digo: há alguns dos que aqui estão que não provarão a morte sem que vejam chegar com poder o Reino de Deus" (Mc 9:1). — Bem mentido, leão…
"Se alguém quer me seguir, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois…" (observação de um psicólogo: a moral cristã é refutada por seus pois; suas "razões" a refutam, e assim é cristão) Mc 8:34. —
"Não julgueis, para não serdes julgados. Com a medida com que medirdes vos medirão também a vós" (Mt 7:1) — Que conceito de justiça, de um juiz "justo"!…
"Pois, se amais os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E se sois afáveis apenas com os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem os publicanos também assim?" (Mt 5:46) — Princípio do "amor cristão": no fim ele quer ser bem pago…
"Pois, se não perdoardes aos homens as suas faltas, tampouco vosso Pai celeste vos perdoará" (Mt 6:15) — Muito comprometedor para o tal "Pai"…
"Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6:33). Todas essas coisas: a saber, alimento, vestes, todo o necessário à vida. Um erro, dito com modéstia… Logo em seguida Deus aparece como alfaiate, ao menos em certos casos…
"Alegrai-vos então e pulai de júbilo, pois eis que é grande no céu a vossa recompensa. Assim faziam aos profetas os pais deles" (Lc 6:23) — Gentalha descarada! Já se compara aos profetas…
"Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós" (1Co 3:16) — Tais coisas não se pode desprezar o bastante…
"Não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, não sois então bons o bastante para julgar coisas menores?" (1Co 6:2) Infelizmente, não é apenas a fala de um internado de manicômio… Esse temível impostor prossegue ao pé da letra: "Não sabeis que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas temporais!"…
"Acaso não tornou Deus em loucura a sabedoria deste mundo? Pois, já que o mundo, com a sua sabedoria, não conheceu a Deus em sua sabedoria, aprouve a Deus salvar pela pregação tida por louca os que nela creem. Não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres os que são chamados. Pelo contrário, Deus escolheu o que é loucura aos olhos do mundo para envergonhar os sábios; e Deus escolheu o que é fraco aos olhos do mundo para envergonhar o que é forte. E Deus escolheu o que é vil aos olhos do mundo e o desprezado, e o que não é nada, para reduzir a nada o que é algo, a fim de que nenhuma carne se glorie diante dele" (1Co 1:20ss) — Para entender esta passagem, testemunho de primeiríssima ordem para a psicologia de toda moral de Chandala, leia-se o primeiro tratado da minha Genealogia da Moral: ali foi posto pela primeira vez em evidência o contraste entre uma moral nobre e uma moral de Chandala nascida do ressentimento e da vingança impotente. Paulo foi o maior de todos os apóstolos da vingança…