Metafísica - Livro XIII 9
Livro XIII (Mi): crítica aos números e objetos matemáticos como substâncias, e às Formas
Problemas comuns às Formas e aos números; o dilema sobre os primeiros princípios
Nos números não existe contato, mas sucessão: entre as unidades não há nada no meio, como entre as duas unidades do número 2 ou entre as do número 3. Diante disso, poderíamos perguntar se essas unidades vêm logo depois do 1 em si ou não, e qual das unidades que o seguem é anterior, se o 2 ou uma das duas unidades que formam o 2.
Dificuldades parecidas aparecem com as coisas que vêm depois do número: a linha, o plano e o sólido. Alguns pensadores constroem essas coisas a partir das espécies do 'grande e pequeno'. Assim, fazem as linhas a partir do 'longo e curto', os planos a partir do 'largo e estreito' e os volumes a partir do 'profundo e raso', que seriam variedades do 'grande e pequeno'. E o princípio originário dessas coisas, aquele que corresponde ao 1, cada pensador descreve de um jeito diferente.
Também aqui se veem inúmeros absurdos, invenções e contradições que vão contra toda probabilidade. Primeiro, as classes da geometria ficam separadas umas das outras, a menos que os princípios de uma estejam contidos nos da outra, de modo que o 'largo e estreito' seja também o 'longo e curto'. Mas se for assim, o plano vai virar linha e o sólido vai virar plano. E como, então, explicar os ângulos, as figuras e coisas do gênero?
Em segundo lugar, acontece o mesmo que ocorreu com o número. O 'longo e curto' e os outros pares são propriedades da grandeza, mas a grandeza não é feita deles, assim como a linha não é feita de 'reto e curvo' nem os sólidos de 'liso e áspero'.
Todas essas posições compartilham uma dificuldade que aparece no caso das espécies de um gênero, quando se afirma a existência dos universais separados: é o animal em si que está dentro de cada animal particular, ou é outra coisa? Se o universal não estiver separado das coisas sensíveis, não haverá problema. Mas se o 1 e os números estiverem separados, como dizem os que sustentam essas teorias, não será fácil resolver a dificuldade, se é que podemos chamar de 'não fácil' algo que é impossível. Pois, quando apreendemos a unidade no 2, ou num número qualquer, apreendemos uma coisa em si ou outra coisa?
Alguns geram as grandezas espaciais a partir de uma matéria desse tipo; outros, a partir do ponto. Para estes, o ponto não é o 1, mas algo parecido com o 1. E geram as grandezas também a partir de outra matéria parecida com a pluralidade, mas que não é idêntica a ela. Mesmo assim, as mesmas dificuldades reaparecem em relação a esses princípios.
Se a matéria for uma só, a linha, o plano e o sólido serão a mesma coisa, pois dos mesmos elementos virá uma única e mesma coisa. Mas se as matérias forem mais de uma, havendo uma para a linha, outra para o plano e outra para o sólido, então ou essas matérias estão contidas umas nas outras ou não estão. Em ambos os casos chega-se ao mesmo resultado, pois o plano ou não conterá nenhuma linha ou então ele próprio será uma linha.
Além disso, esses pensadores nem tentam explicar como o número pode ser feito do um e da pluralidade. Mas, de qualquer modo que se expressem, surgem as mesmas objeções que enfrentam os que constroem o número a partir do um e da díade indefinida (a díade indefinida é, na teoria deles, um par básico ilimitado que serve de matéria). Uma corrente gera o número a partir da pluralidade tomada em geral, e não de uma pluralidade particular; a outra o gera a partir de uma pluralidade particular, e essa é a primeira de todas, pois dizem que o 2 é a 'primeira pluralidade'.
Não há, portanto, praticamente nenhuma diferença entre as duas correntes, e as mesmas dificuldades vão acompanhá-las: o número nasce por mistura, por posição, por fusão ou por geração? E assim por diante. Acima de tudo, poderíamos insistir na pergunta: se cada unidade é um, de que ela vem? Certamente cada unidade não é o um em si. Ela tem que vir, então, do um em si e da pluralidade, ou de uma parte da pluralidade.
Dizer que a unidade é uma pluralidade é impossível, pois ela não tem partes. E gerá-la a partir de uma parte da pluralidade traz muitas outras objeções. Cada uma dessas partes teria que ser indivisível, ou então seria ela mesma uma pluralidade e a unidade teria partes; e os elementos não seriam o um e a pluralidade, pois cada unidade isolada não viria da pluralidade somada ao um. Além disso, quem sustenta essa teoria não faz mais que pressupor outro número, pois a sua pluralidade de coisas indivisíveis já é um número.
Precisamos ainda perguntar, diante dessa teoria, se o número é infinito ou finito. Pelo visto, havia no início uma pluralidade que era em si finita, e dela, junto com o um, veio o número finito de unidades. Mas há também outra pluralidade, que é a pluralidade em si, infinita. Qual delas, então, é o elemento que colabora com o um?
Poderíamos perguntar a mesma coisa sobre o ponto, o elemento do qual fazem as grandezas espaciais. Pois certamente não existe um único ponto e mais nenhum. De que, então, é formado cada um dos pontos? Não é de uma distância somada ao ponto em si. Nem pode haver partes indivisíveis de uma distância, do modo como são indivisíveis os elementos com que dizem ser feitas as unidades; pois o número é feito de coisas indivisíveis, mas as grandezas espaciais não.
Todas essas objeções, e outras do mesmo tipo, deixam claro que o número e as grandezas espaciais não podem existir separados das coisas. Além disso, a discórdia entre as várias versões sobre os números é sinal de que é a falsidade dos próprios fatos alegados que lança a confusão nessas teorias.
Os que fazem só os objetos da matemática existir separados das coisas sensíveis, vendo a dificuldade a respeito das Formas e o quanto elas são inventadas, abandonaram o número ideal e propuseram o número matemático. Já os que quiseram fazer das Formas também números, mas não viram, supostos tais princípios, como o número matemático ia existir separado do ideal, identificaram o número ideal e o número matemático, mas só em palavras, pois de fato eliminaram o número matemático: eles formulam hipóteses próprias e não as da matemática.
E aquele que primeiro supôs que as Formas existem, que as Formas são números e que os objetos da matemática existem, naturalmente separou as duas coisas. Resulta daí que todos estão certos em algum aspecto, mas no conjunto nenhum está certo. E eles mesmos confirmam isso, pois suas afirmações não concordam, mas se chocam. A causa é que suas hipóteses e seus princípios são falsos. E é difícil fazer um bom argumento com material ruim, como dizia Epicarmo: 'mal se diz, já se vê que está errado'.
Quanto aos números, as perguntas que levantamos e as conclusões a que chegamos são suficientes. Quem já está convencido pode se convencer ainda mais com uma discussão mais longa, mas quem ainda não está não chega nem um pouco mais perto de se convencer.
Quanto aos primeiros princípios, às primeiras causas e aos elementos, as opiniões dos que discutem apenas a substância sensível foram em parte expostas em nossos escritos sobre a natureza, e em parte não pertencem a esta investigação. Mas as opiniões dos que afirmam existir outras substâncias além das sensíveis devem ser examinadas em seguida. Já que alguns dizem que as Ideias e os números são substâncias desse tipo, e que os elementos delas são elementos e princípios das coisas reais, temos que investigar o que dizem e em que sentido o dizem.
Os que propõem apenas números, e números matemáticos, serão considerados depois. Quanto aos que acreditam nas Ideias, podemos examinar ao mesmo tempo o modo de pensar deles e a dificuldade em que caem. Pois eles, ao mesmo tempo, tornam as Ideias universais e também as tratam como separadas e como indivíduos. Que isso não é possível já foi argumentado antes.
A razão pela qual os que descreveram suas substâncias como universais juntaram essas duas características numa só coisa é que eles não identificaram as substâncias com as coisas sensíveis. Achavam que as coisas particulares do mundo sensível estavam em fluxo constante e que nenhuma delas permanecia, mas que o universal estava à parte delas e era algo diferente.
Foi Sócrates quem deu o impulso a essa teoria, como dissemos antes, por causa de suas definições; mas ele não separou os universais dos indivíduos. E nisso pensou certo, ao não separá-los. Isso fica claro pelos resultados: sem o universal não é possível obter conhecimento, mas a separação é a causa das objeções que surgem a respeito das Ideias.
Seus sucessores, no entanto, julgaram que, se houvesse de existir alguma substância além das substâncias sensíveis e passageiras, ela teria que ser separada. Como não tinham nenhuma outra, deram existência separada a essas substâncias afirmadas de modo universal. Disso resultou que universais e indivíduos passaram a ser quase a mesma espécie de coisa. Essa, em si mesma, já seria uma dificuldade da posição que mencionamos.