Metafísica - Livro XIII 7
Livro XIII (Mi): crítica aos números e objetos matemáticos como substâncias, e às Formas
Crítica detalhada da tese de que os números são feitos de unidades que não se combinam entre si
Comecemos perguntando se as unidades podem ou não ser combinadas umas com as outras (se são associáveis ou não associáveis) e, caso não sejam, de qual dos dois modos que distinguimos isso acontece. É possível que qualquer unidade não se combine com nenhuma outra; é possível que as unidades de um mesmo número ideal (de um número que seria a própria Forma) não se combinem com as unidades do mesmo número; e, de modo geral, é possível que as unidades de cada número ideal não se combinem com as unidades dos outros números ideais.
Vejamos a primeira hipótese. Se todas as unidades podem ser combinadas e não diferem entre si, então o que obtemos é apenas o número da matemática, um único tipo de número, e as Ideias não podem ser os números. Pois que tipo de número seria o homem-em-si, ou o animal-em-si, ou qualquer outra Forma? Há uma só Ideia de cada coisa: uma do homem-em-si e outra do animal-em-si. Mas os números semelhantes e indistintos são infinitos, de modo que um certo número 3 não seria o homem-em-si mais do que qualquer outro 3. E se as Ideias não são números, então não podem existir de modo nenhum. Pois de que princípios viriam as Ideias? É o número que vem do 1 e da dupla indefinida (a díade, que é a palavra grega para par ou dois), e diz-se que os princípios e elementos são princípios e elementos do número. Logo, as Ideias não podem ser colocadas nem antes nem depois dos números.
Vejamos a segunda hipótese. Se as unidades não se combinam, e não se combinam no sentido de que nenhuma se combina com nenhuma outra, então esse tipo de número não pode ser o número da matemática, pois o número da matemática é feito de unidades que não diferem entre si, e as verdades que se provam dele combinam com esse caráter. E também não pode ser o número ideal. Pois o 2 não surgiria de imediato do 1 e da dupla indefinida, seguido pelos números seguintes, como eles dizem ao contar 2, 3, 4. Afinal, as unidades do número ideal são geradas todas ao mesmo tempo, seja a partir de desiguais que depois se igualam (como disse o primeiro a defender essa teoria), seja de outro modo.
Pois se uma unidade fosse anterior a outra, seria também anterior ao 2 formado por elas. Quando uma coisa é anterior e outra posterior, o resultado das duas é anterior a uma e posterior à outra. Além disso, se o 1-em-si vem primeiro, e depois há um certo 1 que é o primeiro entre os outros e vem logo após o 1-em-si, e ainda um terceiro que vem logo após o segundo e em segundo lugar após o primeiro, então as unidades teriam de ser anteriores aos números pelos quais elas são nomeadas quando contamos. Por exemplo, haveria uma terceira unidade dentro do 2 antes mesmo de o 3 existir, e uma quarta e uma quinta dentro do 3 antes de os números 4 e 5 existirem.
Ora, nenhum desses pensadores chegou a dizer que as unidades não se combinam desse modo, mas, segundo os princípios deles, é razoável que assim fosse, ainda que na verdade isso seja impossível. Pois é razoável que as unidades tenham anterioridade e posterioridade, se há uma primeira unidade ou um primeiro 1; e é razoável que os 2 também tenham, se há um primeiro 2. Afinal, depois do primeiro é razoável e necessário que haja um segundo, e se há um segundo, um terceiro, e assim por diante.
Mas dizer as duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, que uma unidade é a primeira e outra unidade é a segunda depois do 1 ideal, e ao mesmo tempo que um 2 é o primeiro depois dele, isso é impossível. Eles constroem uma primeira unidade ou um primeiro 1, mas não uma segunda e uma terceira; e um primeiro 2, mas não um segundo e um terceiro.
Fica claro também que, se todas as unidades não se combinam, não pode haver um 2-em-si e um 3-em-si, e o mesmo vale para os outros números. Pois, sejam as unidades indistintas ou diferentes umas das outras, o número tem de ser contado por adição: o 2 acrescentando outro 1 ao um, o 3 acrescentando outro 1 ao dois, e assim por diante. Sendo assim, os números não podem ser gerados como eles os geram, a partir do 2 e do 1. Pois o 2 se torna parte do 3, e o 3 parte do 4, e o mesmo acontece com os números seguintes. Mas eles dizem que o 4 veio do primeiro 2 e da dupla indefinida, o que produz dois 2 diferentes do 2-em-si. Se não fosse assim, o 2-em-si seria parte do 4 e outro 2 seria acrescentado. E do mesmo modo o 2 seria feito do 1-em-si e de outro 1. Mas, se for assim, o outro elemento não pode ser uma dupla indefinida, pois ela gera uma só unidade, e não, como faz a dupla indefinida, um 2 definido.
Além disso, fora o 3-em-si e o 2-em-si, como pode haver outros 3 e outros 2? E como eles seriam feitos de unidades anteriores e posteriores? Tudo isso é absurdo e inventado, e não pode haver um primeiro 2 e em seguida um 3-em-si. No entanto, teria de haver, se o 1 e a dupla indefinida fossem os elementos. Mas, se os resultados são impossíveis, é também impossível que esses sejam os princípios que geram os números.
Se as unidades, então, diferem umas das outras, esses resultados e outros parecidos se seguem por necessidade. Vejamos agora a terceira hipótese: as unidades de números diferentes diferem entre si, mas as unidades de um mesmo número não diferem umas das outras. Mesmo assim, as dificuldades que se seguem não são menores. Por exemplo, no 10-em-si há dez unidades, e o 10 é feito tanto delas quanto de dois 5. Mas, como o 10-em-si não é um número qualquer, nem é feito de quaisquer 5 ou de quaisquer unidades, as unidades dentro desse 10 têm de diferir. Pois, se elas não diferem, também os dois 5 que formam o 10 não diferem; mas, como esses 5 diferem, as unidades também diferem.
Mas, se as unidades diferem, haverá no 10 apenas esses dois 5 e mais nenhum, ou haverá outros? Se não houver outros, isso é estranho; e se houver, que tipo de 10 seria feito deles? Pois não há outro 10 dentro do 10 a não ser o próprio 10. E ainda: pela visão deles, é necessário que o 4 não seja feito de quaisquer 2, pois, como eles dizem, a dupla indefinida recebeu o 2 definido e fez dois 2, já que a natureza dela era duplicar o que recebia.
Além disso, quanto ao 2 ser uma coisa à parte das suas duas unidades, e o 3 uma coisa à parte das suas três unidades, como isso é possível? Ou uma coisa participa da outra, como o homem pálido difere de pálido e de homem (pois participa dos dois), ou uma é uma diferença da outra, como homem difere de animal e de bípede (de dois pés).
Além disso, algumas coisas são uma só por contato, outras por mistura, outras pela posição; e nada disso pode pertencer às unidades de que o 2 ou o 3 é feito. Assim como dois homens não formam uma unidade fora deles dois, o mesmo tem de valer para as unidades. O fato de elas serem indivisíveis não faz diferença nenhuma, pois os pontos também são indivisíveis, e mesmo assim um par de pontos não é nada à parte dos dois pontos.
Mas não podemos esquecer outra consequência: segue-se que há um 2 anterior e um 2 posterior, e o mesmo com os outros números. Suponhamos que os 2 dentro do 4 sejam simultâneos; ainda assim, eles são anteriores aos 2 dentro do 8 e, como o 2 os gerou, eles geraram os 4 dentro do 8-em-si. Portanto, se o primeiro 2 é uma Ideia, esses 2 também serão Ideias de algum tipo. O mesmo raciocínio vale para as unidades, pois as unidades do primeiro 2 geram as quatro unidades do 4, de modo que todas as unidades acabam virando Ideias, e uma Ideia ficaria composta de Ideias. Fica claro, então, que também aquelas coisas das quais essas vêm a ser Ideias serão compostas: poderíamos dizer, por exemplo, que os animais são compostos de animais, se houver Ideias deles.
De modo geral, diferenciar as unidades de qualquer maneira é um absurdo e uma invenção; e por invenção quero dizer uma afirmação forçada feita só para encaixar numa hipótese. Pois nem na quantidade nem na qualidade vemos uma unidade diferir de outra unidade. O número tem de ser igual ou desigual, todo número, mas especialmente o que é feito de unidades abstratas. Assim, se um número não é nem maior nem menor que outro, ele é igual a ele; e, tratando-se de números, aquilo que é igual e em nada difere nós tomamos como sendo a mesma coisa. Se não fosse assim, nem mesmo os dois 5 dentro do 10-em-si seriam indistintos, embora sejam iguais; pois que razão poderia dar quem afirma que eles não diferem?
Além disso, se toda unidade somada a outra unidade faz dois, então uma unidade tirada do 2-em-si e uma tirada do 3-em-si fariam um 2. Ora, esse 2 seria feito de unidades diferentes; e ele seria anterior ou posterior ao 3? Parece antes que tem de ser anterior, pois uma das unidades é simultânea ao 3 e a outra é simultânea ao 2. Nós, de nossa parte, supomos que, em geral, 1 e 1, sejam as coisas iguais ou desiguais, fazem 2, por exemplo o bom e o mau, ou um homem e um cavalo. Mas os que defendem essas opiniões dizem que nem mesmo duas unidades fazem 2.
Se o número do 3-em-si não é maior que o do 2, isso surpreende; e se é maior, então fica claro que há nele também um número igual ao 2, de modo que esse número não difere do 2-em-si. Mas isso não é possível, se há um primeiro número e um segundo número.
As Ideias também não serão números. Pois neste ponto particular têm razão os que afirmam que as unidades têm de ser diferentes, se é para existirem Ideias, como já dissemos antes. Afinal, a Forma é única; mas, se as unidades não são diferentes, então os 2 e os 3 também não serão diferentes. É por isso também que eles têm de dizer que, quando contamos assim, 1, 2, não avançamos acrescentando ao número dado. Pois, se acrescentássemos, os números não seriam gerados pela dupla indefinida, nem um número poderia ser uma Ideia, já que então uma Ideia estaria dentro de outra, e todas as Formas seriam partes de uma só Forma.
Assim, em vista da hipótese deles, as afirmações estão certas, mas no conjunto estão erradas; pois a visão deles é muito destrutiva, já que eles próprios admitem que esta questão oferece alguma dificuldade: quando contamos e dizemos 1, 2, 3, estamos contando por adição ou por porções separadas? Ora, nós fazemos as duas coisas, e por isso é absurdo deduzir, a partir desse pequeno problema, uma diferença tão grande na essência das coisas.