Metafísica - Livro XIII 3

Livro XIII (Mi): crítica aos números e objetos matemáticos como substâncias, e às Formas

Como existem os objetos da matemática: por abstração, e não como entidades separadas; e o belo na matemática

As verdades gerais da matemática não tratam de objetos que existam à parte, separados das grandezas que ocupam espaço e dos números. Elas tratam justamente dessas grandezas e desses números, mas não enquanto têm tamanho ou enquanto podem ser divididos, e sim sob outro aspecto. Da mesma forma, é possível haver afirmações e demonstrações sobre as grandezas que percebemos pelos sentidos, não enquanto elas são percebidas pelos sentidos, mas enquanto têm certas qualidades bem definidas.
Veja um caso parecido. Existem muitas afirmações sobre as coisas consideradas apenas como estando em movimento, deixando de lado o que cada uma delas é e os traços que por acaso ela tem. Disso não decorre que precise existir um móvel separado das coisas sensíveis, nem uma entidade móvel distinta dentro delas. Do mesmo modo, sobre as coisas que se movem haverá afirmações e ciências que as tratam não enquanto se movem, mas apenas enquanto são corpos; ou apenas enquanto são superfícies; ou apenas enquanto são linhas; ou enquanto são divisíveis; ou enquanto são indivisíveis com posição no espaço; ou apenas enquanto são indivisíveis.
Portanto, é verdade dizer, sem nenhuma ressalva, que existem não as coisas que podem ser separadas, mas também as que não podem ser separadas. Por exemplo, é verdade que existem coisas em movimento. Pelo mesmo motivo, é verdade dizer, sem ressalva, que os objetos da matemática existem, e que existem com as características que os matemáticos lhes atribuem.
Pense também nas outras ciências. É verdade dizer, sem ressalva, que cada uma trata de tal e tal assunto, e não daquilo que por acaso acompanha esse assunto. Por exemplo, a medicina tem a saúde como seu objeto. Se a coisa saudável também é pálida, mesmo assim a medicina não trata do pálido: ela trata daquilo que é o objeto próprio dela, ou seja, da saúde, considerando a coisa enquanto saudável. Se trata do homem, considera-o enquanto homem.
O mesmo vale para a geometria. Se acontece de seus objetos serem coisas que percebemos pelos sentidos, ela não os trata enquanto sensíveis. Por isso as ciências matemáticas não se tornam, por causa disso, ciências das coisas sensíveis. Mas também não são ciências de outras coisas separadas das sensíveis.
Muitas propriedades pertencem às coisas pela própria natureza delas, na medida em que cada coisa tem tal ou tal característica. Por exemplo, traços que são próprios do animal enquanto fêmea ou enquanto macho, embora não exista nenhuma 'fêmea' nem nenhum 'macho' separados dos animais. Da mesma forma, traços que pertencem às coisas simplesmente enquanto são comprimentos ou enquanto são superfícies.
E quanto mais lidamos com coisas que vêm primeiro na definição e que são mais simples, mais o nosso conhecimento ganha em exatidão, ou seja, em simplicidade. Por isso uma ciência que deixa de lado o tamanho no espaço é mais precisa do que uma que o leva em conta. E a ciência mais precisa de todas é a que deixa de lado o movimento. Se ela leva o movimento em conta, é mais precisa quando trata do movimento mais básico, pois esse é o mais simples; e, entre os movimentos, o uniforme é a forma mais simples.
O mesmo se pode dizer da harmonia e da óptica. Nenhuma das duas estuda seu objeto enquanto visão ou enquanto som: estudam-no enquanto linhas e números, ainda que a visão e o som sejam o que esses números e linhas medem. E a mecânica procede da mesma maneira.
Portanto, se nós isolamos uma característica das outras características que a acompanham, e investigamos essa característica sozinha, não erramos por causa disso. É como quem desenha uma linha no chão e a chama de um de comprimento, mesmo que ela não tenha exatamente um pé: o erro não está nas premissas do raciocínio.
A melhor maneira de investigar cada questão é esta: separar com o pensamento aquilo que na verdade não está separado, como fazem quem estuda os números e quem estuda a geometria. Um homem, enquanto homem, é uma coisa indivisível. Quem estuda os números toma o homem como uma coisa indivisível, e então examina se algum traço pertence a ele enquanto indivisível.
quem estuda a geometria não o trata nem enquanto homem nem enquanto indivisível, mas como um sólido (um corpo de três dimensões). Pois as propriedades que pertenceriam a ele mesmo que por acaso ele não fosse indivisível podem pertencer-lhe também à parte desses outros traços. Por isso quem estuda a geometria fala corretamente: trata de coisas que existem de fato, e os objetos de que fala existem mesmo. O ser tem duas formas: uma coisa existe não em plena realidade (em ato), mas também enquanto matéria.
O bom e o belo são coisas diferentes. O bom está sempre ligado à ação, ao agir, enquanto o belo se encontra também em coisas paradas, sem movimento. Por isso erram os que dizem que as ciências matemáticas nada falam do belo nem do bom.
Na verdade, essas ciências falam e provam muita coisa a respeito do belo e do bom. Elas podem não citá-los pelo nome, mas demonstram efeitos e propriedades que são justamente os do belo e do bom. Não é correto, então, dizer que elas nada nos dizem sobre o assunto.
As principais formas do belo são a ordem, a proporção (a simetria) e a delimitação clara, e são justamente essas formas que as ciências matemáticas demonstram de modo especial. E como essas formas, por exemplo a ordem e a delimitação, são claramente causas de muitas coisas, fica evidente que essas ciências precisam tratar também desse tipo de princípio que age como causa, ou seja, do belo, entendendo-o como uma causa em algum sentido. Mas falaremos disso com mais clareza em outro lugar.