Metafísica - Livro XIII 4

Livro XIII (Mi): crítica aos números e objetos matemáticos como substâncias, e às Formas

De onde veio a teoria das Formas: o fluxo de Heráclito mais a busca de Sócrates por definições

falamos o bastante sobre os objetos da matemática. Dissemos que eles existem, em que sentido existem, e em que sentido são ou não são anteriores às outras coisas. Agora, quanto às Ideias, precisamos examinar primeiro a própria teoria, sem ligá-la de modo algum à natureza dos números, tratando-a na forma em que foi entendida no começo por aqueles que primeiro defenderam a existência das Ideias.
Os defensores da teoria das Ideias chegaram a ela pelo seguinte motivo. Na questão sobre a verdade das coisas, eles aceitaram os ditos de Heráclito, que descrevem tudo o que captamos pelos sentidos como algo que está sempre se desfazendo. Daí concluíram que, se o conhecimento ou o pensamento tem de ter um objeto, é preciso que existam outras entidades, permanentes, separadas das que percebemos pelos sentidos. Pois não poderia haver conhecimento das coisas que estão em fluxo constante.
Por essa mesma época, Sócrates se dedicava às virtudes do caráter, e em conexão com elas foi o primeiro a levantar o problema da definição universal. Entre os que estudavam a natureza, Demócrito havia tocado um pouco no assunto, definindo de algum modo o quente e o frio. Antes dele, os pitagóricos tinham tratado de algumas poucas coisas, ligando a números as definições, por exemplo, de oportunidade, de justiça ou de casamento.
Mas era natural que Sócrates buscasse a essência, pois ele buscava raciocinar de forma encadeada, e a resposta à pergunta "o que uma coisa é" é o ponto de partida desse tipo de raciocínio. Naquele tempo ainda não existia a habilidade de argumentar em ambos os lados que permite a alguém, mesmo sem conhecer a essência, examinar os contrários e investigar se uma mesma ciência trata de coisas opostas. duas conquistas que podemos atribuir com justiça a Sócrates: os argumentos por indução e a definição universal. Ambos têm a ver com o ponto de partida da ciência.
Acontece que Sócrates não fez os universais nem as definições existirem separados das coisas. Foram os seus seguidores que lhes deram existência à parte, e foi a esse tipo de coisa que deram o nome de Ideias.
Daí decorreu para eles, quase pelo mesmo argumento, que tem de haver Ideias de tudo aquilo de que se fala universalmente. Foi quase como alguém que quisesse contar certas coisas e, achando que não conseguiria contá-las enquanto fossem poucas, aumentasse o número delas para então contar. Pois as Formas são, por assim dizer, mais numerosas do que as coisas particulares que percebemos pelos sentidos. E no entanto foi justamente procurando as causas dessas coisas particulares que eles passaram delas para as Formas.
Pois, segundo eles, a cada coisa corresponde uma entidade que tem o mesmo nome e existe separada das substâncias. E o mesmo vale para todos os outros grupos: sempre um que está acima de muitos, sejam essas coisas deste mundo ou eternas.
Além disso, dos modos pelos quais se tenta provar que as Formas existem, nenhum convence. De alguns deles não se segue necessariamente nenhuma conclusão, e de outros resultam Formas até de coisas que esses mesmos pensadores acham que não têm Forma.
Pelos argumentos tirados das ciências, haveria Formas de tudo aquilo de que ciência. Pelo argumento do "um acima de muitos", haveria Formas até de negações. E pelo argumento de que o pensamento tem um objeto mesmo depois que a coisa individual pereceu, haveria Formas de coisas perecíveis, pois delas guardamos uma imagem.
Além disso, entre os argumentos mais rigorosos, alguns levam a Ideias de relações, das quais esses pensadores dizem que não existe uma classe independente; e outros caem no problema do "terceiro homem".
De modo geral, os argumentos a favor das Formas acabam destruindo aquilo que os próprios defensores das Formas querem preservar mais do que a existência das Ideias. Pois desses argumentos resulta que não a díade (a dupla), mas o número é o primeiro; que anterior ao número está o relativo; e que o relativo é anterior ao que existe por si mesmo. Fora todos os outros pontos em que certas pessoas, ao levar adiante as opiniões aceitas sobre as Formas, entraram em conflito com os princípios da própria teoria.
Além disso, segundo a suposição em que se apoia a crença nas Ideias, haveria Formas não das substâncias, mas também de muitas outras coisas. Pois o conceito é um não apenas no caso das substâncias, mas também no das coisas que não são substâncias, e ciências de outras coisas além da substância. E mil outras dificuldades como essa os confrontam.
Mas, conforme exige a lógica do caso e conforme as opiniões sobre as Formas, se as Formas podem ser compartilhadas, então pode haver Ideias de substâncias. Pois elas não são compartilhadas de modo acidental: cada Forma tem de ser compartilhada como algo que não se afirma de um sujeito. (Por "ser compartilhada de modo acidental" quero dizer o seguinte: se uma coisa compartilha do "duplo em si", ela também compartilha do "eterno", mas de modo acidental, pois acontece de o duplo ser eterno.) Logo, as Formas serão substância.
Mas os mesmos nomes indicam substância tanto neste mundo quanto no mundo das Ideias. Ou então, que sentido teria dizer que existe algo separado das coisas particulares, esse um acima de muitos? E se as Ideias e as coisas que delas compartilham têm a mesma forma, haverá algo comum entre elas. Afinal, por que o "2" seria um e o mesmo nos pares perecíveis, ou nos pares que são muitos mas eternos, e não seria o mesmo no "2 em si" e em um par qualquer? Mas se Ideias e coisas não têm a mesma forma, então elas terão em comum apenas o nome, e seria como chamar de "homem" tanto Cálias quanto um pedaço de madeira, sem notar nada em comum entre os dois.
Mas suponha que em outros aspectos as definições comuns se apliquem às Formas. Por exemplo, que "figura plana" e as demais partes da definição se apliquem ao próprio círculo, mas que seja preciso acrescentar "aquilo que verdadeiramente é". Então precisamos investigar se esse acréscimo não é totalmente vazio de sentido. Pois a que ele seria acrescentado? Ao "centro", ao "plano", ou a todas as partes da definição? Afinal, todos os elementos que entram na essência seriam Ideias, por exemplo, "animal" e "de dois pés". E mais: teria de haver alguma Ideia correspondente a "plano", uma natureza que estaria presente em todas as Formas como o gênero delas.