Metafísica - Livro XIII 2
Livro XIII (Mi): crítica aos números e objetos matemáticos como substâncias, e às Formas
Por que os objetos matemáticos não existem separados, nem dentro nem fora das coisas sensíveis
Já mostramos, na nossa discussão das dificuldades, que é impossível os objetos matemáticos existirem dentro das coisas sensíveis, e que essa tese é forçada e artificial. Apontamos que é impossível dois sólidos ocuparem o mesmo lugar, e que, pelo mesmo argumento, também as outras potências e características teriam que existir dentro das coisas sensíveis, e nenhuma delas separadamente. Tudo isso já foi dito.
Mas há mais. Por essa teoria, fica evidente que nenhum corpo poderia ser dividido. Pois ele teria que ser dividido num plano, o plano numa linha, e a linha num ponto. Então, se o ponto não pode ser dividido, a linha também não pode, e se a linha não pode, tampouco o plano ou o sólido podem.
Que diferença faz, então, se as coisas sensíveis são em si mesmas essas entidades indivisíveis, ou se, sem o serem, têm entidades indivisíveis dentro delas? O resultado é o mesmo: se as coisas sensíveis forem divididas, as outras também serão divididas, ou então nem mesmo as coisas sensíveis poderão ser divididas.
E também não é possível que tais entidades existam separadas. Pois, se além dos sólidos sensíveis houver outros sólidos separados deles e anteriores a eles, então é claro que além dos planos também terão que existir outros planos separados, e o mesmo vale para pontos e linhas, já que a coerência exige isso. Mas, se esses existem, então mais uma vez, além dos planos, linhas e pontos do sólido matemático, terão que existir outros ainda, separados.
Isso ocorre porque o que é simples vem antes do que é composto. E se, antes dos corpos sensíveis, existem corpos não sensíveis, pelo mesmo argumento os planos que existem por si mesmos têm que ser anteriores aos planos que estão nos sólidos imóveis. Logo, esses serão planos e linhas diferentes daqueles que acompanham os sólidos matemáticos aos quais esses pensadores atribuem existência separada. Pois estes últimos acompanham os sólidos matemáticos, enquanto os outros são anteriores a eles.
De novo, portanto, pertencendo a esses planos, haverá linhas; e, anteriores a elas, pelo mesmo argumento, terão que existir outras linhas e outros pontos; e, anteriores a esses pontos das linhas anteriores, terão que existir outros pontos ainda, embora não haja outros anteriores a esses.
Ora, esse acúmulo se torna absurdo. Acabamos com um único conjunto de sólidos além dos sólidos sensíveis; com três conjuntos de planos além dos planos sensíveis, a saber, os que existem à parte dos planos sensíveis, os que estão nos sólidos matemáticos, e os que existem à parte destes que estão nos sólidos matemáticos; com quatro conjuntos de linhas, e cinco conjuntos de pontos.
Com qual desses, então, as ciências matemáticas vão lidar? Certamente não com os planos, linhas e pontos do sólido imóvel, pois a ciência sempre trata do que é anterior. E o mesmo raciocínio vale também para os números: haverá um conjunto diferente de unidades à parte de cada conjunto de pontos, e também à parte de cada conjunto de realidades, dos objetos dos sentidos e ainda dos objetos do pensamento. De modo que haveria várias classes de números matemáticos.
De novo, como é possível resolver as questões que já listamos na nossa discussão das dificuldades? Os objetos da astronomia existirão à parte das coisas sensíveis, assim como os objetos da geometria existem. Mas como é possível que um céu e suas partes, ou qualquer outra coisa que tenha movimento, existam separados?
Da mesma forma, também os objetos da óptica e da harmonia existirão separados, pois haverá voz e visão além das vozes e visões sensíveis e individuais. Logo, fica claro que os demais sentidos e os demais objetos dos sentidos também existirão separados, pois por que um conjunto deles existiria assim e outro não? E, se for assim, então existirão também animais separados, já que existirão sentidos separados.
Há ainda certos teoremas matemáticos que são universais e se estendem para além dessas substâncias. Então, aqui, teríamos mais uma substância intermediária, separada tanto das Ideias quanto dos intermediários, uma substância que não é número, nem pontos, nem grandeza espacial, nem tempo. E se isso é impossível, é claro que também é impossível que as entidades anteriores existam separadas das coisas sensíveis.
E, em geral, chega-se a conclusões contrárias tanto à verdade quanto às opiniões comuns, caso se suponha que os objetos da matemática existem assim, como entidades separadas. Pois, por existirem dessa maneira, eles teriam que ser anteriores às grandezas espaciais sensíveis; mas, na verdade, têm que ser posteriores a elas. A grandeza espacial incompleta vem antes na ordem da geração, mas vem depois na ordem da substância, do mesmo modo que o que não tem vida vem antes do que tem vida na geração, mas depois em dignidade.
De novo, em virtude de quê, e quando, as grandezas matemáticas seriam uma unidade? As coisas do nosso mundo perceptível são uma unidade graças à alma, ou a uma parte da alma, ou a algo parecido que faça sentido; quando isso não está presente, a coisa é uma multiplicidade e se desfaz em partes. Mas no caso dos objetos da matemática, que são divisíveis e são quantidades, qual é a causa de eles serem um só e se manterem juntos?
De novo, os modos como os objetos da matemática são gerados mostram que estamos certos. Pois a primeira dimensão gerada é o comprimento, depois vem a largura, e por último a profundidade; e aí o processo está completo. Se, então, o que é posterior na ordem da geração é anterior na ordem da substância, o sólido será anterior ao plano e à linha. E, desse modo, ele também é mais completo e mais inteiro, porque pode ganhar vida. Como, por outro lado, uma linha ou um plano poderiam ganhar vida? A suposição ultrapassa o que nossos sentidos conseguem conceber.
De novo, o sólido é uma espécie de substância, pois já tem, em certo sentido, plenitude. Mas como linhas poderiam ser substâncias? Nem como forma ou figura, que é talvez o que a alma é, nem como matéria, como é o sólido. Pois não temos nenhuma experiência de algo que se possa montar a partir de linhas, planos ou pontos. Se essas coisas fossem uma espécie de substância material, teríamos observado objetos que pudessem ser montados a partir delas.
Concedamos, então, que elas são anteriores na definição. Mesmo assim, nem tudo que é anterior na definição é também anterior na substância. São anteriores na substância as coisas que, separadas das demais, as superam na capacidade de existir por conta própria. Já são anteriores na definição aquelas cujas definições entram na composição das definições de outras coisas. E essas duas propriedades não andam sempre juntas.
Pois, se as propriedades não existem à parte das substâncias (como 'o que se move' ou 'o pálido'), então 'pálido' é anterior na definição a 'homem pálido', mas não é anterior na substância. Afinal, 'pálido' não pode existir separado: está sempre junto com a coisa concreta, e por coisa concreta quero dizer o homem pálido. Fica claro, portanto, que o resultado da abstração não é anterior, nem o que se produz acrescentando determinações é posterior. Pois é acrescentando uma determinação a 'pálido' que falamos do 'homem pálido'.
Mostramos, então, o suficiente: os objetos da matemática não são substâncias num grau mais alto do que os corpos, não são anteriores às coisas sensíveis quanto ao ser, mas só na definição, e não podem existir em algum lugar à parte. Mas, como também não era possível que existissem dentro das coisas sensíveis, fica claro que ou eles não existem de modo nenhum, ou existem num sentido especial e, portanto, não 'existem' sem qualificação. Pois 'existir' tem muitos sentidos.