Metafísica - Livro VIII 5
Livro VIII (Eta): a substância sensível, matéria e forma, e a unidade da definição
A matéria e os estados opostos: por que a mudança não anda livre nos dois sentidos
Algumas coisas existem ou deixam de existir sem passar por um processo de surgimento ou de desaparecimento, como os pontos (se é que se pode dizer que eles existem) e, de modo geral, as formas. Repare que não é o branco que vem a ser: é a madeira que vem a ser branca. Se tudo o que surge vem de algo e se torna alguma coisa, então nem todos os contrários podem brotar uns dos outros.
É preciso distinguir dois sentidos. Uma coisa é dizer que um homem de pele clara nasceu de um homem de pele escura: aqui há um sujeito, o homem, que permanece e troca de cor. Outra coisa é dizer que o claro vem do escuro, tratando as cores em si mesmas: nesse caso não há nada que permaneça por baixo passando de uma à outra.
Além disso, nem tudo tem matéria. Só têm matéria as coisas que surgem e se transformam umas nas outras. Aquilo que existe ou não existe sem nunca estar em processo de mudança não possui matéria nenhuma.
Há uma dificuldade na pergunta sobre como a matéria de cada coisa se relaciona com os estados opostos dessa coisa. Por exemplo: se o corpo é potencialmente saudável, e a doença é o oposto da saúde, esse mesmo corpo é potencialmente saudável e doente ao mesmo tempo? E a água é potencialmente vinho e potencialmente vinagre?
A resposta é que se trata da matéria de um dos estados em razão da posse e da forma desse estado, e do outro estado em razão da falta dessa posse e da destruição que vai contra a natureza da coisa.
Também é difícil explicar por que não se diz que o vinho é a matéria do vinagre, nem que o vinho é potencialmente vinagre, ainda que o vinagre seja produzido a partir dele. E por que não se diz que um homem vivo é potencialmente um cadáver.
Na verdade, não é assim que as coisas se passam. As deteriorações em questão acontecem por acidente. O que é, ele mesmo, a potência e a matéria do cadáver é a matéria do animal, e isso só vale por causa da deterioração dela. E o que é a matéria do vinagre é a água.
Pois o cadáver vem do animal e o vinagre vem do vinho do mesmo modo que a noite vem do dia. Todas as coisas que se transformam assim, umas nas outras, precisam primeiro voltar à sua matéria. Por exemplo: se de um cadáver se produz um animal, o cadáver primeiro retrocede até a sua matéria e só depois se torna animal; e o vinagre primeiro retrocede até a água e só depois se torna vinho.