Metafísica - Livro VIII 4

Livro VIII (Eta): a substância sensível, matéria e forma, e a unidade da definição

A matéria própria de cada coisa e como achar suas causas

Sobre a matéria de que as coisas são feitas, não podemos esquecer o seguinte: mesmo que todas as coisas venham de uma mesma causa primeira, ou tenham as mesmas coisas como causas primeiras, e mesmo que a mesma matéria sirva de ponto de partida para tudo o que nasce, ainda assim cada coisa tem uma matéria própria. Por exemplo, a matéria do catarro é o doce ou o gorduroso, e a da bile é o amargo, ou alguma outra coisa. Talvez essas matérias venham, no fim, de uma mesma matéria original.
E uma mesma coisa pode ter várias matérias, quando uma dessas matérias é matéria de outra. Por exemplo, o catarro vem do gorduroso e do doce, se o gorduroso, por sua vez, vem do doce; e o catarro também vem da bile, quando a bile se decompõe na sua matéria mais básica. Isso porque uma coisa vem de outra em dois sentidos: ou porque aparece numa etapa posterior, ou porque é produzida quando a outra se decompõe nos elementos de que era feita.
Quando a matéria é uma só, coisas diferentes podem ser produzidas por causa de uma diferença na causa que põe em movimento. Por exemplo, da madeira se pode fazer tanto um baú quanto uma cama.
Mas certas coisas diferentes têm que ter, necessariamente, matérias diferentes. Por exemplo, não se poderia fazer um serrote de madeira, e isso não está ao alcance da causa motora, pois ela não conseguiria fazer um serrote de ou de madeira. Agora, se de fato a mesma coisa pode ser feita de materiais diferentes, então fica claro que a arte, ou seja, o princípio que põe em movimento, é a mesma; porque, se a matéria e a causa motora fossem ambas diferentes, o produto também seria diferente.
Quando se investiga a causa de alguma coisa, como a palavra causa tem vários sentidos, é preciso enunciar todas as causas possíveis. Qual é a causa material do homem? Diremos que é o fluido menstrual? Qual é a causa motora? Diremos que é a semente? A causa formal? É a essência dele. A causa final? É o fim a que ele se destina. Mas talvez essas duas últimas sejam a mesma coisa.
E são as causas próximas que devemos enunciar. Qual é a causa material? Não devemos dizer fogo ou terra, mas a matéria que é peculiar àquela coisa específica.
No caso das substâncias que são naturais e que nascem e perecem, se as causas são realmente estas, neste número, e se temos de aprender as causas, é assim que devemos investigar, se quisermos investigar corretamente. Mas, no caso das substâncias naturais que são eternas, é preciso dar outra explicação. Pois talvez algumas não tenham matéria nenhuma, ou não tenham matéria desse tipo, mas apenas uma matéria que pode ser movida quanto ao lugar.
A matéria também não pertence às coisas que existem por natureza mas não são substâncias; nesses casos, o que está por baixo e as sustenta é a própria substância. Por exemplo, qual é a causa de um eclipse? Qual é a sua matéria? Não nenhuma; a lua é aquilo que sofre o eclipse. Qual é a causa motora que apagou a luz? A terra. A causa final talvez não exista.
O princípio formal é a fórmula que define a coisa, mas essa fórmula fica obscura se não incluir a causa. Por exemplo, o que é um eclipse? É a privação de luz. Mas, se acrescentarmos por causa da interposição da terra, então temos a fórmula que inclui a causa.
No caso do sono, não está claro o que é exatamente que, em primeiro lugar, sofre essa condição. Diremos que é o animal? Sim, mas o animal em virtude de quê, isto é, qual é o sujeito mais próximo afetado? O coração, ou alguma outra parte. Em seguida: por que coisa o sono é produzido? E mais: qual é a condição em si, aquela do sujeito mais próximo, e não a do animal inteiro? Diremos que é uma imobilidade de certo tipo? Sim, mas devida a que processo no sujeito mais próximo?