Metafísica - Livro VIII 3
Livro VIII (Eta): a substância sensível, matéria e forma, e a unidade da definição
O nome designa o composto ou só a forma; a substância comparada ao número
Não devemos deixar de notar que às vezes não fica claro se um nome se refere à substância composta ou ao ato e à forma. Por exemplo: a palavra "casa" indica a coisa composta, "um abrigo feito de tijolos e pedras dispostos de tal e tal maneira", ou indica o ato e a forma, ou seja, simplesmente "um abrigo"? Do mesmo modo, "linha" significa "o número dois aplicado ao comprimento" ou apenas "o número dois"? E "animal" significa "uma alma num corpo" ou apenas "uma alma"? Pois a alma é a substância ou o ato de algum corpo.
A palavra "animal" poderia até se aplicar aos dois sentidos ao mesmo tempo, não como algo que uma única definição abrange, mas como ligado a uma só coisa. Essa questão, embora importante para outro propósito, não tem importância para a investigação sobre a substância sensível, porque a essência certamente pertence à forma e ao ato.
Pois "alma" e "ser alma" são a mesma coisa, mas "ser homem" e "homem" não são a mesma coisa, a não ser que se aceite chamar de homem também a alma sozinha. Assim, numa interpretação a coisa é idêntica à sua essência, e noutra interpretação não é.
Se examinarmos, veremos que a sílaba não é apenas as letras somadas à sua disposição, nem a casa é apenas os tijolos somados à sua disposição. E isso está certo, porque a disposição ou a mistura não consiste nas coisas que ela dispõe ou mistura.
O mesmo vale para todos os outros casos. Por exemplo: se a soleira da porta é definida por sua posição, a posição não é constituída pela soleira; ao contrário, é a soleira que é constituída pela posição. Nem o homem é simplesmente "animal" somado a "bípede": tem que haver algo além desses elementos, se eles são a matéria. Algo que não é nem um elemento do todo nem um composto, mas é a substância. É justamente isso que algumas pessoas eliminam, mencionando apenas a matéria.
Se, então, isso é a causa de a coisa existir, e se a causa de a coisa existir é a sua substância, então essas pessoas não estarão dizendo a substância em si.
Essa substância tem que ser ou eterna, ou destrutível sem nunca estar em processo de ser destruída, e tem que ter passado a existir sem nunca estar em processo de vir a existir. Mas já foi provado e explicado em outro lugar que ninguém produz nem gera a forma; o que é produzido é o indivíduo, ou seja, o que é gerado é o conjunto de forma e matéria.
Se as substâncias das coisas destrutíveis podem existir separadas, isso ainda não está nada claro. Está claro apenas que em alguns casos isso é impossível: no caso das coisas que não podem existir à parte dos exemplos individuais, como a casa ou um utensílio. Talvez nem essas próprias coisas, nem nenhuma das outras que não são formadas pela natureza, sejam substâncias; pois pode-se dizer que a natureza nos objetos naturais é a única substância que se encontra nas coisas destrutíveis.
Por isso, a dificuldade que costumava ser levantada pela escola de Antístenes e por outras pessoas igualmente sem instrução tem um certo cabimento. Eles diziam que o "o que é" não pode ser definido, pois a definição, segundo eles, é só uma "longa ladainha". Mas como uma coisa é, por exemplo a prata, isso eles achavam realmente possível explicar: não dizendo o que ela é, mas que ela é parecida com o estanho.
Por isso, um tipo de substância pode ser definida e formulada, a saber, o tipo composto, seja ele perceptível ou inteligível. Mas as partes primárias de que esse composto é feito não podem ser definidas, porque uma fórmula de definição afirma algo a respeito de algo, e uma parte da definição tem que fazer o papel de matéria e a outra o papel de forma.
É também evidente que, se as substâncias são em algum sentido números, elas são números neste sentido, e não, como alguns dizem, números feitos de unidades. Pois a definição é uma espécie de número. Primeiro, porque ela é divisível, e divisível em partes indivisíveis (já que as fórmulas de definição não são infinitas), e o número também tem essa natureza.
Segundo: assim como, quando uma das partes de que um número é feito é retirada dele ou acrescentada a ele, ele já não é o mesmo número, mas um número diferente, mesmo que seja a menor parte que tenha sido tirada ou acrescentada, do mesmo modo a definição e a essência já não permanecem as mesmas quando alguma coisa é tirada ou acrescentada.
Terceiro: o número tem que ser algo em virtude do qual ele é um. E essas pessoas não conseguem dizer o que faz dele um, se é que ele é um (pois ou ele não é um, mas uma espécie de amontoado, ou, se é um, deveríamos dizer o que faz dele uma só coisa a partir de muitas). A definição também é uma, mas, da mesma forma, eles não conseguem dizer o que a faz uma.
E esse é um resultado natural, pois a mesma explicação se aplica: a substância é uma no sentido que explicamos, e não, como alguns dizem, por ser uma espécie de unidade ou ponto. Cada substância é uma realidade completa e uma natureza definida.
Quarto: assim como o número não admite o mais e o menos, também a substância, no sentido de forma, não admite mais nem menos; se alguma substância admite, é apenas a substância que envolve matéria. Que isto baste como explicação sobre a geração e a destruição das chamadas substâncias, em que sentido elas são possíveis e em que sentido são impossíveis, e sobre a redução das coisas a número.