Metafísica - Livro VIII 2

Livro VIII (Eta): a substância sensível, matéria e forma, e a unidade da definição

A forma é o ato da matéria: como diferenças concretas tornam algo uma coisa determinada

reconhecemos a substância que existe como aquilo que está por baixo, como matéria, e essa é a que existe em potência. Resta dizer o que é a substância das coisas sensíveis no sentido de ato.
Demócrito parece admitir três tipos de diferença entre as coisas. Para ele, o corpo que está por baixo, a matéria, é um e o mesmo, mas as coisas diferem ou pelo formato, ou pela posição (o modo como estão viradas), ou pela ordem (o modo como se tocam umas às outras).
Mas é evidente que muitas diferenças. Algumas coisas se distinguem pelo modo como a matéria está combinada, como o que se forma por mistura, por exemplo a água com mel. Outras por estarem amarradas juntas, como um feixe. Outras por estarem coladas, como um livro. Outras por estarem pregadas, como um caixote. E outras por mais de uma dessas maneiras ao mesmo tempo.
Outras coisas se distinguem pela posição, como a soleira e a viga da porta, pois estas diferem apenas por estarem postas de um certo jeito. Outras pelo tempo, como o jantar e o café da manhã. Outras pelo lugar, como os ventos. E outras pelas qualidades próprias das coisas sensíveis, como o duro e o mole, o denso e o ralo, o seco e o úmido. Algumas coisas se distinguem por algumas dessas qualidades, outras por todas elas, e, em geral, umas por excesso e outras por falta.
Fica claro, então, que o verbo "ser" tem outros tantos significados. Uma coisa é uma soleira porque está posta em certa posição, e ser soleira significa estar posta nessa posição. ser gelo significa ter sido solidificado de certa maneira.
O ser de algumas coisas será definido por todas essas qualidades ao mesmo tempo, porque algumas das suas partes estão misturadas, outras combinadas, outras amarradas, outras solidificadas, e outras usam as demais diferenças. É o caso da mão ou do pé, que exigem uma definição assim, com vários elementos.
Precisamos, portanto, apreender os tipos de diferença, pois serão eles os princípios do ser das coisas. Por exemplo, as coisas que se distinguem pelo mais e pelo menos, ou pelo denso e pelo ralo, e por outras qualidades do gênero, pois todas estas são formas de excesso e de falta. E o que se distingue pelo formato, ou pelo liso e pelo áspero, distingue-se pelo reto e pelo curvo. Para outras coisas, ser significará estar misturadas, e não ser significará o oposto.
Fica claro, a partir disso, que, como a substância de cada coisa é a causa do seu ser, é nessas diferenças que devemos buscar qual é a causa do ser de cada uma dessas coisas.
Ora, nenhuma dessas diferenças é, por si mesma, substância, nem mesmo quando ligada à matéria. Ainda assim, em cada caso ela é o que faz o papel análogo ao da substância. E assim como nas substâncias aquilo que se afirma da matéria é o próprio ato, em todas as outras definições também o que se afirma é o que mais se aproxima do ato pleno.
Por exemplo, se tivéssemos que definir uma soleira, diríamos "madeira ou pedra posta em certa posição". Uma casa, definiríamos como "tijolos e vigas postos de certo modo" (em alguns casos também pode entrar a finalidade). E se tivéssemos que definir o gelo, diríamos "água congelada ou solidificada de certa maneira". A harmonia é "certa mistura de sons graves e agudos". E assim por diante em todos os outros casos.
Fica claro, portanto, que o ato, ou seja, a fórmula que define a coisa, é diferente quando a matéria é diferente. Em alguns casos o que define é o modo de composição, em outros a mistura, em outros algum dos atributos que mencionamos.
Por isso, entre os que se dedicam a definir, os que definem uma casa como pedras, tijolos e vigas falam da casa apenas em potência, pois isso é a matéria. os que propõem "um abrigo para proteger bens e seres vivos", ou algo desse tipo, falam do ato. Os que combinam as duas coisas falam do terceiro tipo de substância, a que é composta de matéria e forma.
A fórmula que as diferenças parece ser um relato da forma, isto é, do ato, enquanto a que os componentes é antes um relato da matéria. O mesmo vale para o tipo de definição que Arquitas costumava aceitar, pois são relatos da forma e da matéria combinadas.
Por exemplo, o que é tempo calmo? Ausência de movimento numa grande extensão de ar. O ar é a matéria, e a ausência de movimento é o ato e a substância. O que é a bonança no mar? Lisura da superfície do mar. O substrato material é o mar, e o ato, ou seja, a forma, é a lisura.
Fica óbvio, então, a partir do que foi dito, o que é a substância sensível e de que modo ela existe: um tipo dela como matéria, outro como forma ou ato, e o terceiro tipo como aquilo que é composto desses dois.