Metafísica - Livro VII 8
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
Ninguém fabrica a forma nem a matéria, só o composto: por que as Formas de Platão são inúteis para a geração
Tudo o que é produzido é produzido por alguém (chamo isso de ponto de partida da produção) e a partir de alguma coisa (e que essa coisa seja entendida não como a falta, mas como a matéria, pois o sentido que damos a isso já foi explicado). Além disso, sempre é produzida alguma coisa determinada (uma esfera, um círculo ou o que quer que seja).
Assim como não fabricamos o substrato, o bronze, também não fabricamos a esfera, a não ser por acidente, porque a esfera de bronze é uma esfera e o que fabricamos é a esfera de bronze como um todo. Fazer um objeto determinado é fazer esse objeto a partir de um material que serve de base.
Quero dizer: tornar o bronze redondo não é fabricar o redondo nem a esfera, mas algo diferente, ou seja, produzir essa forma em algo que não é a própria forma. Se fabricássemos a forma, teríamos de fabricá-la a partir de outra coisa, pois é isso que se supôs. Por exemplo, fabricamos uma esfera de bronze no sentido de que, a partir disto, que é o bronze, fazemos esta outra coisa, que é uma esfera.
Se também fabricássemos o próprio substrato, é claro que o fabricaríamos do mesmo modo, e os processos de fabricação recuariam ao infinito. Fica evidente, então, que a forma (ou seja lá como devamos chamar a configuração presente na coisa sensível) não é produzida, não há produção dela, nem a essência é produzida, pois a essência é aquilo que se faz existir em outra coisa, seja pela arte, pela natureza ou por alguma capacidade.
O que fabricamos é o fato de existir uma esfera de bronze. Fabricamos isso a partir do bronze e da esfera: trazemos a forma para esta matéria específica, e o resultado é uma esfera de bronze.
Mas se a essência da esfera em geral tivesse de ser produzida, então algo teria de ser produzido a partir de alguma coisa. Pois o produto sempre terá de ser divisível, com uma parte sendo uma coisa e outra parte sendo outra: quero dizer, uma parte sendo matéria e a outra sendo forma.
Se a esfera é a figura cujos pontos da borda estão todos à mesma distância do centro, então uma parte dela será o meio no qual a coisa fabricada vai existir, e outra parte será aquilo que está nesse meio, e o todo será a coisa produzida, que corresponde à esfera de bronze.
Fica claro, pelo que foi dito, que aquilo que chamamos de forma ou substância não é produzido, mas é produzida a coisa concreta que recebe seu nome dessa forma. E em tudo o que vem a existir há matéria presente: uma parte da coisa é matéria, e a outra é forma.
Existe, então, uma esfera separada das esferas individuais, ou uma casa separada dos tijolos? Melhor dizer que nenhum objeto determinado jamais viria a existir se fosse assim. A forma significa o tipo de coisa, e não um objeto determinado e individual. O artesão fabrica, ou o pai gera, um certo tipo de coisa a partir de um objeto determinado, e, uma vez gerado, ele é um objeto determinado de certo tipo.
O indivíduo concreto, Cálias ou Sócrates, corresponde a esta esfera de bronze, ao passo que homem e animal correspondem à esfera de bronze em geral.
Fica evidente, portanto, que a causa que consiste nas Formas (tomadas no sentido em que alguns defendem a existência das Formas, ou seja, como algo separado dos indivíduos) é inútil, pelo menos no que toca às coisas que vêm a existir e às substâncias. E as Formas, ao menos por essa razão, não precisam ser substâncias que existem por si mesmas.
Em alguns casos, é até evidente que aquele que gera é do mesmo tipo que o gerado (não o mesmo indivíduo, nem um só em número, mas igual na forma). É o que acontece com os produtos naturais, pois um homem gera outro homem, a menos que algo ocorra contra a natureza, como a geração de uma mula por um cavalo.
E mesmo esses casos são semelhantes. Aquilo que seria comum ao cavalo e ao jumento, o gênero imediatamente acima deles, não recebeu um nome, mas seria, de fato, algo parecido com uma mula.
Fica evidente, portanto, que é totalmente desnecessário estabelecer uma Forma como modelo. Seria nesses casos que procuraríamos Formas, se em algum caso houvesse, pois estes são substâncias se é que algo o é. Aquele que gera basta para fabricar o produto e para causar a forma na matéria.
E quando temos o todo, esta forma específica nesta carne e nestes ossos, isso é Cálias ou Sócrates. Eles são diferentes em razão de sua matéria (pois ela é diferente), mas iguais quanto à forma, pois a forma deles é indivisível.