Metafísica - Livro VII 7

Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância

Como as coisas passam a existir: a geração por natureza, por arte e por acaso, e por que a forma não é gerada

Entre as coisas que passam a existir, algumas surgem por natureza, outras por arte e outras de forma espontânea. Ora, tudo o que passa a existir surge pela ação de algo, a partir de algo, e vem a ser algo. E esse 'algo' que vem a ser pode pertencer a qualquer categoria: pode vir a ser um 'isto' determinado, ou ter certo tamanho, certa qualidade, ou estar em certo lugar.
As gerações naturais são aquelas das coisas que surgem por natureza. Aquilo a partir do que elas surgem é o que chamamos de matéria; aquilo pelo que surgem é algo que existe naturalmente; e aquilo que elas vêm a ser é um homem, uma planta ou outra coisa desse tipo, que dizemos serem substâncias, se é que algo o é.
Todas as coisas produzidas, seja por natureza, seja por arte, têm matéria, pois cada uma delas é capaz tanto de existir quanto de não existir, e essa capacidade é a matéria que em cada uma. De modo geral, tanto aquilo a partir do que elas são produzidas é natureza quanto o modelo segundo o qual são produzidas é natureza (pois aquilo que é produzido, como uma planta ou um animal, tem uma natureza), e também é natureza aquilo pelo qual são produzidas, ou seja, a chamada natureza formal, que é da mesma espécie (embora esteja em outro indivíduo), pois um homem gera outro homem.
Assim, então, são produzidas as coisas naturais. Todas as outras produções recebem o nome de 'fabricações'. E toda fabricação procede ou da arte, ou de uma capacidade, ou do pensamento. Algumas delas acontecem também de forma espontânea ou por acaso, assim como às vezes ocorre com as coisas naturais, pois também ali certas coisas às vezes são produzidas sem semente, e não a partir de semente. Desses casos trataremos mais adiante.
Da arte procedem as coisas cuja forma está na alma do artífice. (Por forma entendo a essência de cada coisa e sua substância primeira.) Pois mesmo os contrários têm, num certo sentido, a mesma forma, que a substância de uma privação é a substância oposta. Por exemplo, a saúde é a substância da doença, pois a doença é a ausência de saúde; e a saúde é a fórmula presente na alma, ou seja, o conhecimento dela.
O paciente fica saudável como resultado do seguinte raciocínio: que isto é a saúde, se o sujeito vai ficar saudável, primeiro tem que estar presente tal condição, por exemplo um estado uniforme do corpo; e, para que isso esteja presente, é preciso que haja calor. O médico continua raciocinando assim até chegar a um último elemento que ele mesmo é capaz de produzir. A partir desse ponto, o processo em direção à saúde é chamado de 'fabricação'.
Segue-se então que, num certo sentido, a saúde vem da saúde, e a casa vem da casa: o que tem matéria vem daquilo que não tem matéria. Pois a arte médica e a arte de construir são a forma da saúde e da casa; e, quando falo de substância sem matéria, refiro-me à essência.
Dos processos de produção, uma parte é chamada de pensar e a outra de fazer: a parte que vai do ponto de partida e da forma é o pensar, e a parte que vai do passo final do pensamento até a obra é o fazer. Cada uma das etapas intermediárias é produzida do mesmo modo. Quero dizer, por exemplo: se o sujeito vai ficar saudável, seu estado corporal precisa ser tornado uniforme. O que implica torná-lo uniforme? Isto ou aquilo. E isso depende de torná-lo aquecido. O que isso implica? Mais alguma coisa. E essa coisa está presente como potência; e o que está presente como potência está ao alcance do médico.
O princípio ativo, então, e o ponto de partida do processo de tornar-se saudável é, se acontece por arte, a forma presente na alma; e, se acontece de forma espontânea, é aquilo, seja o que for, que início à fabricação. No caso de quem produz por arte, como no tratamento, o ponto de partida talvez seja a produção de calor (e isso o médico produz por meio de fricção). O calor no corpo, então, ou é uma parte da saúde, ou é seguido (diretamente ou através de vários passos intermediários) por algo semelhante que é uma parte da saúde. E isso, ou seja, aquilo que produz a parte da saúde, é o ponto-limite; o mesmo vale para a casa (onde as pedras são o ponto-limite) e para todos os outros casos.
Por isso, como diz o ditado, é impossível que algo seja produzido se nada existir antes. É evidente, então, que alguma parte do resultado tem que existir previamente, por necessidade, pois a matéria é uma parte: ela está presente no processo e é ela que vem a ser algo. Mas será que a matéria também entra na definição da coisa? Sim, pois descrevemos os círculos de bronze de duas maneiras: descrevemos a matéria, dizendo que é bronze, e descrevemos a forma, dizendo que é tal e tal figura; e a figura é o gênero próximo em que o círculo se classifica. O círculo de bronze, portanto, tem a matéria em sua definição.
Quanto àquilo a partir do que as coisas são produzidas como matéria, algumas delas, depois de produzidas, não são chamadas por esse nome, mas sim pelo nome derivado. Por exemplo, a estátua não é ouro, mas é dourada; e um homem que ficou saudável não é chamado pelo estado de que veio. A razão é que uma coisa surge tanto de sua privação quanto de seu substrato, que chamamos de matéria (por exemplo, o que fica saudável é ao mesmo tempo um homem e um doente), mas dizemos que ela vem mais da privação do que da matéria: é de um doente, e não de um homem, que se produz alguém saudável. Por isso a pessoa saudável não é chamada de doente, mas de homem, e o homem é dito saudável.
Mas, quando a privação é obscura e não tem nome, por exemplo, no bronze a falta de um formato específico, ou nos tijolos e na madeira a falta de arranjo como casa, pensamos que a coisa é produzida a partir desses materiais, assim como, no caso anterior, o homem saudável é produzido a partir do doente. E assim, como a coisa não é chamada pelo nome daquilo de que veio, aqui a estátua não é dita madeira, mas, por uma mudança na palavra, é dita de madeira; não bronze, mas de bronze; não ouro, mas de ouro; e a casa é dita não tijolos, mas feita de tijolos. (Embora, se olharmos a matéria com cuidado, não devêssemos dizer sem ressalvas nem mesmo que uma estátua é produzida a partir da madeira, ou uma casa a partir dos tijolos, pois passar a existir implica mudança naquilo de que a coisa vem, e não permanência.) É por essa razão, então, que falamos desse modo.