Metafísica - Livro VII 6

Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância

Se cada coisa é idêntica à sua essência

Precisamos investigar se cada coisa e a sua essência são a mesma coisa ou são diferentes. Isso ajuda na investigação sobre a substância, pois se pensa que cada coisa não é diferente da sua substância, e se diz que a essência é a substância de cada coisa.
Nos casos em que uma coisa é unida a outra apenas por acidente, as duas pareceriam, em geral, diferentes. Por exemplo, o homem branco pareceria diferente da essência de homem branco. Pois, se fossem o mesmo, a essência de homem e a essência de homem branco também seriam o mesmo, que homem e homem branco são a mesma coisa, como dizem; e então a essência de homem branco e a de homem seriam idênticas.
Mas talvez não se conclua que a essência das uniões acidentais deva ser a mesma que a dos termos simples, pois os termos extremos não se identificam com o termo do meio do mesmo modo. Poderia parecer que se conclui isto: que os extremos, os acidentes, acabariam sendo o mesmo, por exemplo a essência de branco e a essência de musical; mas, de fato, não se pensa que seja assim.
no caso das coisas que existem por si mesmas, uma coisa é necessariamente a mesma que a sua essência? Por exemplo, suponha que existam substâncias sem nenhuma outra substância ou entidade anterior a elas, substâncias como alguns afirmam que são as Ideias.
Se a essência do bem fosse diferente do bem em si, a essência do animal diferente do animal em si, e a essência do ser diferente do ser em si, então, primeiro, haveria outras substâncias, entidades e Ideias além das que se afirmam; e, segundo, essas outras seriam substâncias anteriores, caso a essência seja substância.
E se as substâncias posteriores e as anteriores estiverem separadas umas das outras, então não haverá conhecimento das primeiras, e as segundas não terão existência. Por "separadas" quero dizer o seguinte: se o bem em si não tem a essência do bem, e se a essência do bem não tem a propriedade de ser boa. Pois conhecimento de cada coisa quando conhecemos a sua essência; e o que vale para o bem vale também para as outras coisas.
Assim, se a essência do bem não é boa, então a essência da realidade não é real, nem a essência da unidade é una. E ou todas as essências igualmente existem, ou nenhuma delas existe; de modo que, se a essência da realidade não é real, nenhuma das outras é. Além disso, aquilo a que não pertence a essência do bem não é bom.
O bem, então, tem que ser uma coisa com a essência do bem, o belo com a essência da beleza, e assim com tudo o que não depende de outra coisa, mas existe por si mesmo e é primeiro. Pois basta que sejam isto, mesmo que não sejam Formas; ou melhor, talvez baste mesmo que sejam Formas.
Ao mesmo tempo, fica claro que, se existem Ideias como alguns dizem, não será o substrato que é substância; pois as Ideias têm de ser substâncias, mas sem se afirmarem de um substrato, que, se assim fosse, elas existiriam por serem participadas.
Cada coisa, portanto, e a sua essência são uma e a mesma, e não de um modo meramente acidental. Isso fica evidente pelos argumentos anteriores e porque conhecer cada coisa é justamente conhecer a sua essência; assim, mesmo pela apresentação de exemplos, torna-se claro que as duas têm de ser uma só.
no caso de um termo acidental, como o musical ou o branco, que tem dois sentidos, não é verdade dizer que ele mesmo é idêntico à sua essência. Pois tanto aquilo a que a qualidade acidental pertence quanto a própria qualidade acidental são brancos; de modo que, num sentido, o acidente e a sua essência são o mesmo, e, noutro sentido, não são. A essência de branco não é a mesma que o homem ou o homem branco, mas é a mesma que o atributo branco.
O absurdo dessa separação apareceria também se déssemos um nome a cada uma das essências, pois haveria ainda outra essência além da primeira: por exemplo, à essência de cavalo pertenceria uma segunda essência. E, no entanto, por que algumas coisas não seriam, desde o início, as suas próprias essências, que a essência é substância?
De fato, não a coisa e a sua essência são uma só, mas a definição de ambas também é a mesma, como fica claro pelo que foi dito; pois não é por acidente que a essência do uno e o uno são uma coisa. Além disso, se fossem diferentes, o processo iria ao infinito, pois teríamos a essência do uno e o uno, e o mesmo argumento se aplicaria de novo aos termos do primeiro tipo.
Fica claro, então, que cada coisa primeira e que existe por si mesma é uma e a mesma que a sua essência. As objeções dos sofistas a esta posição, e a pergunta de se Sócrates e o ser Sócrates são a mesma coisa, resolvem-se obviamente pela mesma solução; pois não diferença nem no ponto de vista de quem faz a pergunta, nem no de quem responde com êxito. Explicamos, assim, em que sentido cada coisa é a mesma que a sua essência e em que sentido não é.