Metafísica - Livro VII 5
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
Por que só a substância pode ser definida: o problema do nariz arrebitado
Surge aqui uma questão difícil. Suponha que alguém negue que uma definição com um determinante adicionado seja uma definição de verdade. Nesse caso, será que conseguimos definir os termos que não são simples, mas sim acoplados a outra coisa? Pois esses termos só podem ser explicados acrescentando esse determinante. Tome o exemplo do nariz, da concavidade e do nariz arrebitado. O nariz arrebitado nasce da combinação dos dois, pela presença de um (a concavidade) no outro (o nariz).
E o nariz não tem a concavidade ou o formato arrebitado por acaso: ele os tem por causa da sua própria natureza. Essas propriedades não se ligam ao nariz do mesmo jeito que a brancura se liga a Cálias ou ao ser humano (Cálias, que por acaso é um ser humano, é branco). Elas se ligam ao nariz como 'macho' se liga a 'animal' e 'igual' se liga a 'quantidade', ou seja, como todas as chamadas propriedades que pertencem a algo por si mesmo.
Essas propriedades são aquelas em cuja explicação já entra a definição ou o nome daquilo de que elas são propriedade, e que não podem ser explicadas sem mencionar esse sujeito. Por exemplo, você consegue explicar 'branco' sem falar de 'ser humano', mas não consegue explicar 'fêmea' sem falar de 'animal'. Portanto, ou essas coisas não têm essência nem definição alguma, ou, se têm, é num sentido diferente, como já dissemos.
Mas há ainda uma segunda dificuldade a respeito delas. Se 'nariz arrebitado' e 'nariz côncavo' fossem a mesma coisa, então 'arrebitado' e 'côncavo' seriam a mesma coisa. Só que não são, porque é impossível falar do arrebitado separado da coisa de que ele é propriedade por si mesma: 'arrebitado' significa justamente 'concavidade num nariz'.
Daí resulta que ou é impossível dizer 'nariz arrebitado', ou então a mesma palavra terá sido dita duas vezes, virando 'nariz nariz côncavo'. Pois 'nariz arrebitado', se você desdobra o que ele quer dizer, vira 'nariz côncavo nariz'. Por isso é absurdo supor que coisas desse tipo tenham uma essência própria. Se tivessem, cairíamos numa repetição sem fim: dentro de 'nariz arrebitado nariz' apareceria mais um 'nariz', e assim por diante.
Fica claro, então, que só a substância pode ser definida. Pois, se as outras categorias também fossem definíveis, isso só se daria acrescentando um determinante. É assim que se definiria o qualitativo, e também o ímpar, que não pode ser definido sem mencionar 'número'. Do mesmo modo, 'fêmea' não pode ser definida sem mencionar 'animal'. (Quando digo 'acrescentando' me refiro justamente aos casos em que acabamos dizendo a mesma coisa duas vezes, como nesses exemplos.)
E se isso é verdade, então os termos acoplados, como 'número ímpar', também não serão definíveis. Mas isso passa despercebido para nós porque as nossas fórmulas de definição não costumam ser exatas. Se, mesmo assim, esses termos forem definíveis, então é de outro modo, ou então é preciso dizer que 'definição' e 'essência' têm mais de um sentido.
Portanto, num sentido, nada terá definição e nada terá essência, a não ser as substâncias. Mas, em outro sentido, as outras coisas também terão definição e essência. Fica claro, então, que a definição é a fórmula que diz a essência, e que a essência pertence às substâncias, seja só a elas, seja principalmente, primeiramente e no sentido pleno do termo.