Metafísica - Livro VII 4
Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância
O que é a essência de uma coisa e por que ela pertence antes de tudo à substância
No início distinguimos as várias marcas pelas quais identificamos a substância, e uma delas era a essência. Vamos então investigá-la. Primeiro, algumas observações sobre o modo de falar dela. A essência de cada coisa é aquilo que ela é por si mesma. Ser você não é ser musical, pois você não é musical por sua própria natureza. Portanto, aquilo que você é por sua própria natureza é a sua essência.
Mas nem tudo o que pertence a uma coisa por si mesma é a essência dela. O branco, por exemplo, pertence à superfície por si mesmo, e mesmo assim ser uma superfície não é o mesmo que ser branco. E a combinação dos dois, ser uma superfície branca, também não é a essência de superfície, porque a própria palavra superfície entra de novo na conta. A definição em que o próprio termo definido não reaparece, mas seu sentido é expresso, essa é a fórmula da essência de cada coisa.
Logo, se ser uma superfície branca fosse o mesmo que ser uma superfície lisa, então ser branco e ser liso seriam uma só e a mesma coisa.
Mas existem também combinações que correspondem às outras categorias, pois cada categoria tem aquilo que lhe serve de base: a qualidade, a quantidade, o tempo, o lugar, o movimento. Precisamos então perguntar se há uma fórmula da essência de cada uma delas, ou seja, se a essas combinações também pertence uma essência, como na expressão homem branco. Chamemos essa combinação de manto.
Qual é a essência de manto? Pode-se objetar que isso também não é uma expressão por si mesma. Respondemos que há apenas dois modos pelos quais aquilo que se afirma de um sujeito pode deixar de valer por si mesmo: um resulta de acrescentar algo, o outro de omitir algo. Um afirmar não é por si mesmo porque o termo que está sendo definido vem misturado com outro elemento, como se ao definir a essência de branco alguém enunciasse a fórmula de homem branco. O outro caso é quando no próprio sujeito há outro elemento misturado àquilo que a fórmula expressa, como se manto significasse homem branco e alguém definisse manto como branco: o homem branco é de fato branco, mas a essência dele não é ser branco.
Mas será que ser-manto é uma essência, afinal? Provavelmente não. Pois a essência é exatamente aquilo que algo é. Quando se afirma de um sujeito uma propriedade que é outra coisa que ele mesmo, o conjunto não é exatamente aquilo que algum isto é. O homem branco não é exatamente aquilo que algum isto é, porque ser um isto pertence apenas às substâncias. Portanto, só têm essência as coisas cuja fórmula é uma definição.
E não temos uma definição sempre que há uma palavra e uma fórmula com o mesmo sentido. Se fosse assim, qualquer fórmula ou conjunto de palavras seria uma definição, pois há sempre algum nome para qualquer conjunto de palavras, de modo que até a Ilíada seria uma definição. Temos definição apenas quando há uma fórmula de algo primeiro, e coisas primeiras são aquelas que não consistem em afirmar um de seus elementos a respeito de outro. Assim, nada que não seja uma espécie de um gênero terá essência: só as espécies a têm. Pois nelas o sujeito não parece apenas participar da propriedade, ou tê-la como afecção, ou tê-la por acidente. Para todo o resto, se tiver um nome, haverá uma fórmula do seu sentido, dizendo que tal propriedade pertence a tal sujeito, ou, em vez de uma fórmula simples, poderemos dar uma mais exata. Mas não haverá nem definição nem essência.
Ou será que definição, assim como a expressão o que uma coisa é, tem vários sentidos? O que uma coisa é, num sentido, significa a substância e o isto. Em outro sentido, significa uma ou outra das categorias: quantidade, qualidade e semelhantes. Pois assim como o ser pertence a todas as coisas, mas não no mesmo sentido (a uma de modo primeiro, às outras de modo derivado), também o que uma coisa é pertence em sentido pleno à substância, e em sentido limitado às outras categorias. Pois mesmo de uma qualidade podemos perguntar o que ela é, de modo que a qualidade também é um o que uma coisa é, mas não em sentido pleno. É como alguns dizem, atentos à forma da linguagem, a respeito daquilo que não existe: que aquilo que não existe existe, não que exista de fato, mas que existe como não existente. O mesmo vale para a qualidade.
Devemos sem dúvida investigar como nos exprimir sobre cada ponto, mas não mais do que investigar como as coisas de fato são. E assim, já que é evidente que linguagem usamos, a essência pertencerá, tal como o que uma coisa é, primeiro e em sentido pleno à substância, e de modo derivado também às outras categorias. Não a essência em sentido pleno, mas a essência de uma qualidade ou de uma quantidade.
Pois é preciso que digamos que essas coisas são por um uso equívoco da palavra, ou então acrescentando e tirando algo do sentido de são, do mesmo modo como aquilo que não é conhecido pode ser dito conhecido. A verdade é que não usamos a palavra de forma ambígua nem exatamente no mesmo sentido. Usamos como aplicamos a palavra médico, por referência a uma só e mesma coisa, sem querer dizer uma só e mesma coisa, e sem falar de forma ambígua. Um paciente, uma operação e um instrumento são chamados médicos não por ambiguidade nem com um único sentido, mas por referência a um fim comum.
Mas não importa de qual dos dois modos se prefira descrever os fatos. O que é evidente é que definição e essência, em sentido primeiro e pleno, pertencem às substâncias. Ainda assim, pertencem também às outras coisas, só que não em sentido primeiro. Pois, mesmo que admitamos isso, não se segue que haja definição de toda palavra que signifique o mesmo que alguma fórmula. Ela tem de significar o mesmo que um tipo particular de fórmula, e essa condição se cumpre se for a fórmula de algo que é um, não por continuidade, como a Ilíada ou as coisas que são uma só por estarem amarradas juntas, mas um num dos sentidos principais de um, que correspondem aos sentidos de é. Pois aquilo que é, num sentido designa um isto, em outro uma quantidade, em outro uma qualidade. Por isso pode haver uma fórmula ou definição até de homem branco, mas não no sentido em que há definição de branco ou de uma substância.