Metafísica - Livro VII 3

Livro VII (Zeta): o coração da obra, a longa investigação sobre o que é a substância

A substância como substrato: matéria, forma ou o composto dos dois

A palavra 'substância' se aplica, se não a mais sentidos, pelo menos a quatro objetos principais. Pensa-se que a essência, o universal e o gênero são a substância de cada coisa, e, em quarto lugar, o substrato, isto é, aquilo que está por baixo e sustenta tudo o mais. O substrato é aquilo de que todo o resto se afirma, enquanto ele mesmo não se afirma de nenhuma outra coisa. Por isso temos de determinar primeiro a natureza dele, pois aquilo que está por baixo de uma coisa de modo primário é tido como sua substância no sentido mais verdadeiro.
Num sentido, diz-se que a matéria é da natureza do substrato; em outro, a forma; e num terceiro, o composto dos dois. Por matéria entendo, por exemplo, o bronze; por forma, o desenho ou figura da coisa; e pelo composto dos dois, a estátua, o todo concreto. Portanto, se a forma é anterior à matéria e mais real do que ela, será também anterior ao composto de ambas, pela mesma razão.
delineamos a natureza da substância, mostrando que ela é aquilo que não se afirma de um substrato, mas de que tudo o mais se afirma. Mas não podemos parar nessa formulação, pois ela não basta. A própria afirmação é obscura e, além disso, por esse caminho a matéria acaba virando a substância. Pois, se a matéria não é a substância, fica difícil dizer o que mais poderia ser. Quando retiramos todo o resto, nada parece sobrar exceto a matéria.
Pois as outras coisas são afetações, produtos e capacidades dos corpos. E comprimento, largura e profundidade são quantidades, não substâncias, que uma quantidade não é uma substância. A substância é antes aquilo a que essas quantidades pertencem em primeiro lugar. Mas, quando tiramos o comprimento, a largura e a profundidade, não vemos nada restar, a menos que haja algo limitado por elas. Assim, para quem examina a questão desse jeito, a matéria parece ser a substância.
Por matéria entendo aquilo que em si mesmo não é nem uma coisa determinada, nem uma certa quantidade, nem qualquer outra das categorias pelas quais o ser é determinado. Pois algo de que cada uma dessas categorias se afirma, e cujo ser é diferente do ser de cada um dos predicados, que os predicados, fora a substância, se afirmam da substância, ao passo que a substância se afirma da matéria. Portanto, o substrato último não é, em si mesmo, nem uma coisa determinada, nem uma certa quantidade, nem positivamente qualquer outra coisa; nem sequer é a negação dessas determinações, pois também as negações lhe pertenceriam apenas por acidente.
Se adotamos esse ponto de vista, então se segue que a matéria é a substância. Mas isso é impossível, pois pensa-se que ser separável e ser 'um isto', ou seja, algo determinado que se pode apontar, pertencem antes de tudo à substância. Por isso a forma e o composto de forma e matéria pareceriam ser a substância, mais do que a matéria.
A substância composta dos dois, isto é, de matéria e forma, podemos deixar de lado, pois ela é posterior e sua natureza é evidente. E a matéria também é, em certo sentido, manifesta. Mas precisamos investigar o terceiro tipo de substância, a forma, pois esse é o mais desconcertante de todos.
Concorda-se de modo geral que algumas das substâncias sensíveis são substâncias, de modo que devemos procurar primeiro entre elas. Pois é vantajoso avançar em direção àquilo que é mais conhecível. O aprendizado se assim para todos: a gente vai do que é menos conhecível por natureza ao que é mais conhecível por natureza.
E assim como, na conduta, nossa tarefa é partir daquilo que é bom para cada um e tornar o que é bom em sentido absoluto também bom para cada um, do mesmo modo nossa tarefa é partir do que é mais conhecível para nós e tornar o que é conhecível por natureza também conhecível para nós. Ora, o que é conhecível e primeiro para grupos particulares de pessoas muitas vezes é conhecível em pequena medida, e tem pouca ou nenhuma realidade. Mesmo assim, é preciso partir daquilo que mal é conhecível, mas é conhecível para nós, e tentar conhecer o que é conhecível em sentido absoluto, avançando, como se disse, justamente por meio daquelas coisas que de fato conhecemos.